Nada temos em comum

Se nada temos em comum,
O que nos une sobre esse pretexto de haver motivos?

Se nada temos em comum,
Por que essa sanha que faz os olhos insistirem em trocar sorrisos?

Se nada temos em comum,
De onde vem esse sentimento súbito de tornar definitivas as vontades?

Se nada temos em comum,
Esse flamejar tão singular é tão inerte quando impreciso;

Se nada temos em comum,
Que diferença faz o quanto estamos próximos ou afastados?

Se nada temos em comum,
Qualquer unicidade soa tão improvável quanto todas as lendas;

Se nada temos em comum,
Essa vontade de contato é propriamente um atentado;

Se nada temos em comum,
Por mais que haja cobiça é tolhido o desejo que leva à fenda;

Se nada temos em comum,
Seria impróprio esse desvairado desejo de proximidade;

Se nada temos em comum,
O tédio sempre viverá longe de nós e ao caos que criamos do nada;

Se nada temos em comum,
Temos um mundo a sugar do outro;

Se nada temos em comum,
É inexorável a avalanche de balbúrdias ininteligíveis;

Se nada temos em comum,
Que vivamos essa luta visceral em torno das diferenças,
Numa perseguição longa que dure uma eternidade,
Em meio a esse desejo estranho e intenso, agudo e grave
De ser essa união improvável que pode ou não prosperar,
Mas que preenche todos os espaços de nossos corpos e mentes
De uma forma singular, imponente e avassaladora,
Única capaz de nos completar e dar sentido a nossas idiossincrasias,
Nossas loucuras e nossos bons e maus hábitos.

Sim, nada temos em comum.
Por isso somos melhores juntos.


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