Selva

© 2012 365 Clicks. Foto: Rafael Pacheco | Click 13 - Paulicéia Ensolarada

Selva.

Hostil. Gravidade de poder ímpar. Parece inexequível encontrar a saída. Conexão constante de sentimentos nunca análogos.

Não há nexo, mas aqui assento-me. Presidiário voluntário. Bêbado entregue ao torpor da megalópole dominante. Todas as fichas. Ela vence. Sempre.

Talvez.

A cidade não para. A cidade só cresce. Grito vociferado por Chico poeta. Chico cientista. Todos os quem podem dar o mesmo brado retumbante. O grito se perde na imensidão galáctica do concreto. Eco. Surdos estamos.

O verde existe. O verde sobrevive. Mas é murado. É regrado. É coagido. Refém. Mesmo ele. Todos nós. Mesmo sob a relva ainda bela respiramos o gás da morte lenta. Contemos os minutos.

Uma lenda reza que se quer fugir. Metade dos passageiros do trem desgovernado cantam essa música. Sofisma puro. Estamos entregues.

Pausa. Uma trégua ao frenesi. Seja nas asas da águia de ferro ou sobre borracha que se derrete no asfalto quente, busca-se sanidade. Longe daqui. Longe.

Curta duração. De volta ao caos.

Combate-se o sofrimento dissolvendo-se em soluções químicas diversas. O ar ainda é denso mas o corpo relaxa, mesmo com o disparar dos batimentos. O circuito do prazer é ativado. A relação concreto e corpo entorpecido realiza-se. Comunhão maldita. Vício. Partes incontáveis de oxigênio dobrado conjugado com carbono invadem os brônquios. O sangue corre. A boca lambe o álcool. A boca leva mais química aos alvéolos: santa fumaça de índole negra centro-americana. O nariz se calcina com a areia branca. Que existam esses meros momentos de felicidade em meio ao inferno constante da babélica urbe.

Urbanoides. Zumbis. Pixels de uma megabáitica imagem que representa essa anarquia supostamente controlada e sensata.

Assim somos. Isso aceitamos.

O sol se põe. Que venha o amanhã.


(inspirado em “Click 13 – Paulicéia Ensolarada” © 2012 365 Clicks com gentil cessão do fotógrafo Rafael Pacheco)

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