Alma Perdida

Os galhos das árvores machucam seu rosto já coberto pelas lágrimas vertidas na angústia da fuga. Caminha por entre elas com olhar amedrontado, procurando em cada movimento, em cada sussurro, a presença dele. O medo paralisa sua alma. Sente como se estivesse sem uma gota sequer de sangue em seu corpo. Suas mãos estão geladas. Sente medo da morte. Pois sabe que qualquer ato impensado poderá acarretá-la.

Precisa ter coragem suficiente para continuar sua viagem de fuga, expandir seus horizontes, voltar a viver, viver de verdade, esquecendo estes anos que não quer nunca mais viver.

Que alternativa tinha, era ela ou ele, era ele ou ela. Olha ao seu redor, as lágrimas caindo sem parar, e só vê escuridão. As folhas das árvores balançando como se dançassem ao vento, mesmo com a chuva fria que caía. Parecem danças fantasmagóricas, tanto pela noite fria quanto pelo vento gelado. E sente medo, sente muito medo de novo. Seu coração dispara em batidas inconstantes, parece que sairá correndo por sua boca, e instintivamente a cobre com as mãos geladas. E sente o cheiro novamente. O cheiro característico da morte.

Pensar sobre a morte faz seus passos ficarem mais rápidos, com a certeza de que não é isto que quer para sua vida. E começa a surgir em sua mente um burburinho de lembranças. Mas ela precisa continuar. Mesmo assim elas começam a desfilar em sua mente. Relembra com carinho dos primeiros momentos daquele louco amor, um amor proibido, um amor cigano. Um amor que começou no exato momento em que deveria acabar.

Sua insegurança esbarrava em sua segurança. Precisava demonstrar o quanto era forte, afinal pertencia a família abastada, aparentemente feliz, tinha nascido em berço de ouro, nunca precisou sequer se preocupar com o presente, muito menos com o futuro.

E sentia, sem saber por que, que seu futuro estava traçado, com a morte. O que buscava desde pequenina? Não conseguia encontrar a felicidade em lugar algum. Tudo ao seu redor, a riqueza, o carinho dos pais, dos avós, dos irmãos, nada disto fazia com que se sentisse feliz. O que buscava então? Deus, como era feliz e não sabia. Pede a Ele silenciosamente que faça com que este desespero desapareça de sua mente, e deixe fluir as lembranças boas que ainda fazem parte dela. Não poderia ficar triste ou permitir que a tristeza entrasse de novo em seu coração.

As lembranças vieram como se fossem um filme e neste momento o avistou. Lá estava ele, com suas roupas ciganas, sua blusa com babados de um colorido resplandecente, que doía os olhos, suas calças folgadas, suas botas grandes que chegavam quase ao joelho, dando-lhe um ar de imponência, um lenço amarrado na testa, sobre os longos cabelos pretos e aqueles olhos, aqueles olhos negros que queimavam suas entranhas somente em olhar para ele, olhos que pareciam transbordar de amor naquele momento. Mas ela sabia, sabia que nada de bom poderia vir dali, e mesmo assim não se conteve e deixou que os seus olhos verdes, de um verde transparente, límpidos de pureza, penetrassem naqueles olhos negros e se fundissem com eles.

Era um amor proibido, nunca poderia ser descoberto para seu próprio bem e, principalmente, para o bem daquele que era considerado um ninguém, um homem sem pátria, sem fronteiras, sem um lar, sem destino, um cigano. Ele estava de passagem por aquele lugar, mas foi tempo suficiente para se entregar totalmente, sem limites, sem medos e sem preconceitos.

Ah! Se pudesse voltar atrás. Ah! Se pudesse voltar atrás e se afastar dele. Com as garras de uma leoa quando defende seus filhotes, se defenderia como tal.

Mas não foi isto que aconteceu e naquele momento mais lágrimas descem de seus olhos formando nuvens translúcidas, impedindo-a de caminhar. Para um pouco, reluta por um segundo, mas, com um arrepio em todo o corpo, lembra-se dele e continua a correr, machucando mais sua pele já muito arranhada pelos galhos das árvores.

Chora de saudade, chora de tristeza, chora de angústia por sentir saudade de alguém que somente lhe fez sofrer. Oh! Quanta injustiça de sua parte. Também lhe fez sorrir. Um sorriso de menina descobrindo em cada gesto, em cada sussurro, em cada palavra, os segredos de ser mulher. O segredo de amadurecer sem envelhecer. Era isto que pensava quando se entregou àquele louco amor.

Desde cedo, não lembra quando nem onde, sabia que em algum lugar desse infinito estaria aquele que seria considerado sua alma perdida. E ela naquele momento, naquele encontro, sem sentir a insignificância de seus pensamentos imaginou que havia encontrado o verdadeiro amor. Não pensou em mais nada, principalmente nas conseqüências daqueles atos. Simplesmente se entregou com todas as forças de sua alma a viver intensamente aquele louco amor.

Ninguém podia saber. Deveriam se encontrar escondidos, encontros furtivos, em lugares inimagináveis. Mas… Podia sempre contar com o apoio de Corina. Corina, uma morena bonita, que era sua prima e que desde pequena fora criada por seus pais, se tornando para ela uma irmã muito querida, e a amava como tal. Corina era sua cúmplice, como se orgulhava de poder contar com ela naqueles momentos só seus.

Mas, sem saber o por quê, sempre se perguntava por que ela fazia aquilo, o que ela realmente queria ao se aproximar de Galdino e se tornar cúmplice daquele amor proibido. Nunca podia imaginar que por trás deste apoio incondicional havia um segredo maior ainda que o seu. Nunca poderia imaginar a fogueira de ilusão em que estava se metendo, mas sabia que não podia mais fugir, fugir daquele amor bandido, daquele amor doentio, pois sentia necessidade intransferível de sentir seu hálito quente em seu pescoço, suas mãos acariciando com violência cheia de paixão todo seu corpo, o encontro de seus corpos formando um só, sentindo todo o gozo de um amor louco.

As lembranças continuavam frenéticas em sua mente, as danças noturnas, que aconteciam quando o povo cigano se reunia para cantar, dançar e comemorar com alegria a liberdade, a liberdade que gostaria de também ter encontrado. E era naquele momento, enquanto dançava, que se entregava mais ainda àquele feitiço, e se tornava uma verdadeira cigana.

Sentia-se como uma cigana, dançava em volta da fogueira embalada pelas músicas que a envolviam e a transportavam para um lugar distante onde se sentia uma verdadeira rainha, dançando e sendo aplaudida pelo povo. Sim, um povo diferente. O que poderia estar acontecendo com ela? Será que estava tendo lembranças de vidas passadas? E por estas lembranças, mais se entregava ao insaciável prazer mundano. Mais se entregava a ele, até sentir suas forças fraquejarem e precisar dormir, dormir dias e dias sem acordar, como se estivesse em estado catatônico.

Parecia que havia feito um pacto de morte, sentia sua alma se afastando cada dia mais e mais com uma rapidez incontrolável de seu corpo físico. Sozinha não parecia sentir mais seus sentidos. Somente quando estava com ele. Sua maldição. Sua perdição.

Envolvida pela música, sentindo o perfume de sua pele, percebeu o que sempre estave à sua frente. Corina também amava aquele homem com a mesma loucura que ela o amava; só que era correspondida por ele no amor mais puro, no amor sem o desejo desenfreado da paixão. Percebia em seus movimentos que seu olhar para Corina era diferente, e, naquele momento, um punhal foi cravado em seu peito.

Mesmo interpelado, nada dizia. Continuava num silêncio profundo. Dizia, sim, que precisava sempre se queimar no fogo que exalava de seu corpo com a volúpia dos apaixonados. Não conseguiria viver sem essa paixão. E sorria aquele sorriso safado, sorriso moleque, sorriso indecifrável, mas que fazia feliz quem o recebesse.

Acreditando que havia vencido essa batalha, orgulhava-se de ter sido a escolhida. Sentia aquela satisfação dos desesperados em pensar que podia despertar ciúme e raiva em outro ser.

Como estava errada. Enquanto se entregava a um amor violento, um amor desenfreado, Corina se entregava a um amor calmo, um amor de verdade. E aquele maldito cigano conseguia enganar as duas com mentiras e verdades.

Mil vezes maldito! Era ela ou era ele. Nos devaneios de seus pensamentos lembra-se do punhal. Ganhou-o como prova de amor, mesmo sendo num momento de brincadeira. Por que ele havia deixado com ela seu punhal, não podia responder. Mas lembrava com clareza de quando o tocou, suas mãos adormecidas, seus olhos cintilando um brilho estranho, sentia como se tocasse a própria alma. Nunca pensou que pudesse usá-lo contra ele. Que engano atroz. Pensou inúmeras vezes em se entregar à morte, mas nunca pensou em provocar a morte de alguém.

A escuridão aumentava para atormentar mais sua alma. Percebia as estrelas cintilando sobre sua cabeça num céu escuro e as cenas daquela trágica noite começam a surgir na sua mente.

Escondida, escutou palavras de amor e promessas para Corina nunca ditas para ela. Saiu mansamente e começou a caminhar sem destino. Se permitisse que aquele amor prosseguisse, estaria aceitando de vez seu fracasso, como mulher sedutora que acreditava ser. Permitir aquele amor iria contra todos os seus sentimentos egoísticos, permitir aquele amor era uma afronta para sua própria vida.

Os pensamentos martelavam sua cabeça, sua coragem de falar, gritar, chorar, desaparecia a cada momento e só sentia frustração, tristeza e uma grande desilusão. Então pensou que poderia destruir aqueles dois seres felizes que a estavam fazendo infeliz. E não relutou. Precisava destruí-los o mais rápido possível para dar vazão àquele ódio mortal, que se aninhava em seu peito. Só conseguia pensar em matá-los.

Precisava lembrar o que havia feito, porque fugia desesperadamente dele, sem saber se ele a estava realmente seguindo. Foi como se uma amnésia ocorresse em seu cérebro e só se lembrava de pedaços de sonhos, pedaços de memória entrecortados por lapsos destas recordações. Não conseguia entender o que estava acontecendo. O medo crescia e ela não sabia se era medo do que havia feito ou do que estava por vir.

Parou, pensou, e resolveu ficar parada para recordar. Não um passado feliz, mas um passado há pouco vivido e que decidiria todo seu futuro. O ar ainda lhe faltava, mas já conseguia respirar com menos dificuldade. E chorando, lembrou.

Descobrira que os dois se encontravam numa cabana que ficava nos arredores da casa principal da fazenda. Sabia que era lá que Corina escutava as juras de amor, sem sequer pensar no sofrimento que estava lhe causando. Lembrou da dor, da dor violenta que dilacerou seu coração, por saber que só havia sido desejada e nunca amada por aquele homem dos olhos negros mais traiçoeiros que conhecera.

Esperou cautelosamente os dois se entregarem aos devaneios daquele amor. Esperou até sentir seus nervos controlados. Esperou reinar um silêncio onde só se ouvia o ressonar de suas respirações. Sem pestanejar, pegou o punhal, aquele maldito punhal, vindo de um maldito cigano, e penetrando cautelosamente no ambiente, cravou primeiro nele – sentindo prazer quando sentiu o sangue escorrer, o ai sussurrado e nenhuma outra reação. Depois, possuída pelo demônio, mesmo com os olhos arregalados daquela que considerava sua irmã, a atingiu diversas vezes com aquele punhal maldito.

Os corpos ficaram caídos, cada um para seu lado, separados pela morte. Mas sua vingança não poderia parar aí. Queria que seus corpos fossem queimados, como eram queimados os traidores na Inquisição. Derramou aquele líquido inflamável por toda a casa. Acendeu o fósforo e ficou olhando para a chama pensando em não prosseguir com seu plano. Mas o ódio que sentia era muito mais forte do que a própria vida e sem pestanejar deixou surgirem as chamas. Escondida na mata, assistia extasiada ao fogo queimando aquela casa e aqueles corpos. Tinha certeza de que nunca seria considerada culpada, pois ninguém sabia deste amor, agora ódio, que sentia por Galdino.

Despertou de seus devaneios. Abriu os olhos e percebeu que nada daquilo havia acontecido. Sua mente mentia para aliviar sua ânsia de vingança. Então, o que realmente havia acontecido para sua fuga alucinada? Buscava desesperadamente entender o que de verdade havia acontecido. Entre suas alucinações e tramas, planejou mentalmente sem nunca ter executado aquilo que irracionalmente presenciava. Havia sim, cravado o punhal em seu próprio peito e estava morta. Tudo para que aquele amor verdadeiro pudesse perdurar e não ser atingido por seu ódio, seu rancor, sua inveja e sua mágoa.

Preferiu sair de cena e não deixar rastros. Percebeu que corria dele com receio de que pudesse salvá-la do fogo do inferno que merecia. Percebeu que tudo que havia feito não era com eles, mas, sim, consigo mesma. Tinha medo do julgamento de seus atos. Estava morta e continuava viva. Por isto, precisava continuar correndo para fugir do que mais abominava na vida: a fraqueza do ser humano.

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Um comentário

  • Adoro o estilo da Mari Sabino – por isso ela está aqui publicada. A história é super envolvente e o final é surpreendente e arrebatador.

    Gostaria de ressaltar, no entanto, que eu não acredito de forma alguma em deuses, alma – no sentido espititual, espíritos, santos e toda essa gama de crendices.´

    Acho importante fazer isso, pois sou a pessoa por trás do Umas Palavras e minha postura com relação às religiões e à crença em vida após a morte é muito clara. Quem quiser conhecer a minha opinião sobre o tema é só acessar o texto a seguir que, acredito, ser um dos melhores ensaios que eu já produzi: http://www.umaspalavras.com.br/pensamentos/ao-abandonar-deus-encontrei-o-homem/

    (a publicação do texto acima deixa claro o meu respeito pela diversidade de opiniões)

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