Como de costume

Ana está morta.

 

 

Como de costume, Eduardo vai até a porta, pega o jornal, liga para a avó que mora no interior para se certificar que ela está bem, prepara seu expresso e senta-se à mesa.

A noite agora é uma lembrança vaga. O sol brilha lá fora. Um belo domingo a se aproveitar.

 

 

― Por que esse ódio todo?

― Vadia, prostituta, piranha, cadela dos infernos.

― O que está acontecendo, cara? Tá maluco? A gente se ama. Eu te amo, porra!

― Você acha mesmo que eu caio nesse seu cinismo? Nesse papinho pra boi dormir. As piranhas sempre têm coisas legais pra dizer pros seus machos. ‘Nossa como seu pau é enorme’. Eu sou um idiota mesmo.

― Desisto, Edu. Desisto. Pensa bem, cara. Não sei mais o que te dizer…

 

 

Ana está na cama. Eduardo acordou há pouco. Ana está morta.

 

 

O papo rápido com Tereza e Carlos desfila vago em sua mente. Imagens nubladas. Na verdade, um caleidoscópio em movimento frenético através do qual é impossível reconhecer qualquer imagem com exatidão – principalmente fatos. Nem mesmo é possível diferenciar as supostas histórias reais ouvidas das criações e distorções de um cérebro quimicamente acelerado e danificado pela própria história.

Eduardo pega seu maço de cigarros e desce. Vai caminhar um pouco pela praia. Respirar outro ar. O da casa é tão denso que lhe dá uma sensação estranha. Sente o fluxo de ar intenso, forte, mas parece não haver oxigênio. Sente-se sufocado.

Como de costume, pega o elevador de serviço. Um tipo de transtorno obsessivo-compulsivo. Poderia ser um atitude pseudossocialista mas, segundo ele, é questão de segurança. Todos desistiram de entender.

Ana está na cama. Eduardo acordou há pouco. O copo de água está vazio. Ana está morta.

O sol queima a pele de Eduardo, que segue sem camisa pelo calçadão. Sem camisa e sem destino. A distância entre os fortes que delimitam a singular praia de Copacabana agora é maior que a percorrida por Filípedes entre Maratona e Atenas.

Como de costume, ele se senta no quiosque de sempre. É cumprimentado pelo nome pelo atendente de sempre. Não o reconhece, contudo. Sinais trocados, a água de coco surge à sua frente.

 

 

― Vocês têm certeza? Têm certeza? Porra, essa merda é importante, caralho. Eu vou ter que fazer alguma coisa. Fala, porra, fala! ― Eduardo está possesso. Descompensado, desfigurado e sob borrões e manchas que se lhe revelam expressões que indicam uma resposta positiva, sai.

 

 

Ana está na cama. Eduardo acordou há pouco. O copo de água está vazio. O caco agudo de espelho, outrora vivo, dorme manso sobre o lençol. Ana está morta.

 

 

Os telefones tocam e vibram freneticamente sobre a mesa da sala – um presente caríssimo do chefe que sabia o quanto valia sua funcionária. Nos campos pessoal e profissional, é verdade. Tereza e Carlos insistem. Eduardo não está em casa para atender. Ana está morta.

 

 

― Porra, Tereza, como de costume, você tinha que deixar essa merda escapar. Puta que o pariu. Isso é uma merda que ela te confidenciava, caralho. Que ficasse entre vocês. Puta que o pariu. Ainda mais numa merda de um dia em que o puto resolveu cheirar a vida. Que merda.

― Carlão, quê que eu faço, cacete? Saiu. Fudeu. Agora é ver o que vai dar. Mas não faz sentido ele ficar tão possesso. Tem essa merda da mãe dele que fazia essa porra no passado, mas, caralho, a reação foi super desproporcional. Sei lá, fiquei muito assustada. E eu tô bêbada, caralho. Porra, Mô, quê porra que vai dar essa merda. ― Tereza desaba em lágrimas.

― Calma, vamos ligar pra eles.

 

 

Água de coco impalatável. Não pelo sabor em si. Para a língua de Eduardo tudo tem gosto de sangue. Em seus ombros, se apoia o mundo. Ele SABE o que aconteceu. Ele não sabe BEM o que aconteceu. Uma explosão cósmica castiga seus neurônios, já não mais entorpecidos, mas sabidamente danificados. Tereza, gritos, Ana, espelho, Carlão, caco de vidro, prostitutas de luxo, Adônis, TRAIÇÃO. Imagens conflitantes, desconexas e densas tomam sua mente. Sua mão arde. Ele olha para baixo e nota os cortes. A ardência está lá. Ele não consegue ligar os pontos. Joga uma nota de valor alto na mesa e caminha em direção ao mar. Mergulha.

 

 

Ana está na cama. Eduardo acordou há pouco. O copo de água está vazio. O caco agudo de espelho, outrora vivo, dorme manso sobre o lençol. O lençol está embebedado em sangue. O porta-retratos jaz destroçado no canto sob a luminária ainda acesa. Ana está morta.

 

 

Os cortes nas mãos de Eduardo ardem como se ele estivesse segurando carvão em brasa arrancado diretamente de uma churrasqueira. Ele pensa nisso. Mas pensar nisso traz a imagem do sangue de volta à sua mente. As peças começam a se encaixar.

 

 

― Porra, Edu, onde você tava, cacete?

― Carlão, eu matei a Ana.

― O quê? ― Carlos sente seu estômago se embrulhar. A náusea é tão violenta que ele se apoia na parede.

― Cara, é isso. Não fala nada. Eu vou me entregar ou resolver de outro jeito, sei lá. Só preciso acabar de entender tudo.

― Onde você tá, Edu? Quê que aconteceu, Cara?

― Carlão, ela era uma das putas do Adônis?

― Não, caralho, a gente tentou te dizer isso ontem.

― Carlão, ― aos gritos – você tem certeza?

― Tenho, porra. Eu sou seu amigo há trinta anos, caralho. Onde você tá, porra.

― Carlão ― uma voz resiliente e agora estranhamente calma ao fundo ― me fala do alto dos tais trinta anos, Cara, fala sem pena. Ela, pelo menos, trepava com a porra daquele milionário de merda?

― Não sei, Edu ― Carlão, já sentado encostado na parede, está às lágrimas ― segundo a Tereza, não. Eu sempre achei essa história toda bizarra. Eu nem queria que você soubesse dessa merda. Que porra que a gente foi fazer. Que porra que você fez, Brother. Me fala onde ‘cê tá, Cara. Eu vou te encontrar.

― Não, dá, Carlão. Escuta, eu amo você. Minha vida acabou. Se eu por qualquer motivo sumir, fala pra Velha que eu tive uma mãe melhor do que eu mereci e que eu não devia ter colocado ela naquela porra de clínica. Diz que foi ideia da puta da Ana. Não foi, mas agora foda-se, não preciso frustrar mais a mamãe.

 

 

Eduardo caminha de volta ao apartamento. Como de costume, senta-se com a roupa molhada na cadeira fina dada por Adônis de presente. Ana odiava isso. Coloca as mãos no rosto. Agora ele SABE BEM o que fez. O mergulho dissipou algumas nuvens de sua memória. O soco no espelho do armário e o que ele fez à Ana com o caco de vidro que pegou do chão se tornaram um filme curto que não para de se repetir, ecoando fortes gritos em sua cabeça. Talvez tivesse razão. Talvez não. Ela a amou muito. Disso estava certo. Lembra-se de matar aquele copo d’água que Ana sempre levava pra cama à noite. O telefone vibra sem parar. Atende. Após a conversa com Carlão, se levanta, pega a chave do carro e sai sem voltar ao quarto onde Ana está.

 

 

Como de costume, um carro é localizado pela empresa que administra a ponte Rio-Niterói. O Civic está encostado no vão central. O alerta está ligado. No som a mesma música repete-se incessantemente. Cazuza canta uns versos de Cartola:

Ouça-me bem amor.
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó.

Ninguém por perto. No banco do carona, uma garrafa de água mineral, um papelote de cocaína, aparentemente pela metade, e a capa do CD que tocava com alguns resquícios de pó branco.

 

 

― Tereza, eu estou aqui pra te ouvir, mas você precisa se acalmar.

― Thiago, eu faço terapia com você há muito tempo. Agora, por causa disso tudo, eu nem sei o que vai ser de mim. Minha cabeça está em frangalhos.

― Fala, vai. Me conta o que aconteceu.

― Estávamos eu, o Carlão e o Edu tomando uma cerveja em casa. A Ana não pôde ir. Quer dizer, ela ia tentar, mas o Edu sai daquele jeito lá de casa e deve ter pedido pra ela ir direto pra casa. Agora ela tá morta. Morta! Como pode?

― Por que o Edu estava transtornado? ― Thiago não abre espaço para que Tereza de desvie do foco.

― Seguinte, o Edu vinha cheirando bem já fazia algum tempo e naquela noite mandou ver. A gente também usou um pouco. Menos, mas usou também. Aí, a gente tava falando dos nossos trabalhos e tal, todo mundo tava bem bêbado já, porque a gente mudou rapidinho da cerveja pro whisky. A ideia era esperar a Ana e sair depois. Era um esquenta.

Tereza para um instante. Seu olhar no vazio. Respira e continua:

― Enfim, falando dos trabalhos de cada um e tal, me escapuliu essa: “e o Adônis, aquele tarado, hein? Quê que é isso, minha gente. Queria eu que o Carlão tivesse esse pique.” Sabe o Adônis, né? O chefe da Ana. Magnata do varejo brasileiro e, ainda por cima, gato. O Carlão até me olhou na hora com cara de reprovação mas eu estava bem louca e não entendi a cara de interrogação do Edu. Aí mandei logo: “comer uma mulher diferente todo o dia e ainda dar conta, Edu, como assim? O bicho é tarado profissional.” Nessa hora, eu me dei conta da merda que tinha feito, mas aí já era. Tentei me concentrar em contar a história pro Edu do melhor jeito, protegendo a Ana, mas, pelo visto, eu não consegui. ― Tereza desaba ― Eu matei ela, Thiago. Fui eu. Eu que matei a Ana.

― Tereza, você já me contou partes dessa história algumas vezes. Conheço um pouco. Mas como foi que você contou pro Edu? ― o terapeuta de fala serena segue impassível. Olhos azuis atentos ao relato de Tereza.

― Tentei passar uma coisa boa de começo, mas o Edu foi logo ficando bravo. Eu nunca vi ele daquele jeito. Eu fui ficando nervosa e não sei bem a ordem direito como fui entregando as peças, mas foi mais ou menos assim. Expliquei primeiro que a Ana não contava pra ele por medo dele ficar chateado com essa parte “a mais” que ela precisava fazer, mas ela era secretária do milionário, porra, tinha que fazer.

A cabeça de Tereza, nesse momento, é um turbilhão onde ela tenta pescar os eventos mais claros. Ela segue:

― O Edu ficou vermelho, isso eu lembro bem. Deu uma porrada na mesa e gritou: “ela não me conta o quê, caralho. O quê, porra?” Nossa, tomei um susto. Aí falei. Expliquei que o Adônis comia uma prostituta por dia e que, ainda por cima, era cheio de manias. Não repetia nenhuma puta durante o mês. E contei que o agenciamento e organização de toda essa história eram feitos pela Ana. ― Tereza para. Parece tentar organizar os pensamentos. Como de costume, Thiago a ajuda a avançar.

― E o Edu?

― Thiago, parecia que ele não conseguia mais ouvir. Ele gritava com a gente. Fazia um milhão de perguntas ao mesmo tempo. Começou a xingar a Ana. E cheirava sem parar. Gritava, bebia e cheirava. O Carlão é amigo do Edu há trinta anos. Tentou acalma-lo de tudo quanto foi jeito. Não rolou. Na boa, a Ana já trepou com o Adônis quando entrou lá, mas isso não tem nada a ver com ele confiar pra cacete nela. A Ana não é puta. Ela é muito bonita. Talvez quando o Adônis a contratou, ele estivesse realmente querendo uma assistente só pra comer. E nisso a Ana cedeu. Aqui, ó, que o puto do Edu também já não deu as aprontadas dele. Mas o lance era mesmo com a mãe do Edu. Isso que ferrou com tudo.

― O que tem a mãe do Edu?

― Não lembro mesmo de ter falado sobre isso com você. A mãe do Edu era garota de programa. Prostituta de luxo. Ela criou o Edu sozinha, sabe? Ele não falava abertamente sobre isso, claro, mas, pelo o quê o Carlão me falou, ela teve um esquema parecido com esse por muito tempo. Saía com um alto executivo da Petrobrás que era casado. Aí, o que era trabalho virou um caso, mas tipo um caso enrolado porque o cara sustentava ela.

― Interessante. Deve ter soado como um sino bem alto na cabeça dele. ― Thiago parece falar mais consigo mesmo do que com Tereza.

― E se soou. No fim, veio o Edu. Esse cara é o pai. Depois disso, ela tocou a vida lá com o esquema de vender aqueles cosméticos pras amigas, mas a grana vinha mesmo do pai do Edu, pois aquele negócio não bancaria aquele apê deles em Ipanema e os colégios que o Edu frequentou. Ela nunca teve ninguém fixo e nem mais filhos. Aí, de uma hora pra outra, ela adoeceu o eles preferiram colocar ela numa casa de repousos. Pensando bem aqui, quando o Edu ouviu essa história ele deve ter ficado mesmo louco. Era como se a Ana fosse a “nova mãe” dele. Ele estava vivendo a mesma situação de novo.

― Até mesmo financeiramente.

― Nossa, Thiago, a gente fez o Edu surtar. A tudo isso, some-se o fato de que ele já devia nutrir um certo ciúme do Adônis. A Ana ganha mais que ele, sabe, ela bancava a casa.

A ficha volta a cair na cabeça de Tereza. Ela usou a frase, com razão, no passado. Não existe mais casa do Edu e da Ana. Não existe mais aquele quarteto quase inseparável. O melhor amigo do marido havia matado sua melhor amiga. E tudo por umas duas frases que ela resolveu cuspir, como de costume, fora de hora.

 

 

O corpo de Eduardo foi encontrado por pescadores, treze dias depois, próximo a Ilha das Folhas, uma ilhota na entrada da Ilha de Paquetá, na Baía da Guanabara.

 

 

Ana está na cama. Eduardo acordou há pouco. O copo de água está vazio. O caco agudo de espelho, outrora vivo, dorme manso sobre o lençol. O lençol está embebedado em sangue. O porta-retratos jaz destroçado no canto sob a luminária ainda acesa. Duas carreiras de cocaína descansam sobre o mármore frio da pia do banheiro. Uma marca de mão feita com sangue está desenhada no espelho. Ana está morta.

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