Em busca de coragem

Uma neblina londrina cobre a capital paulista. É um frio dia do início de junho. São duas horas da manhã e ele caminha pela ciclovia da Marginal Pinheiros, sob a ponte estaiada. O belo monumento de concreto brilha estranho sob a atmosfera densa. Vergões coloridos cortam a paisagem. Pouco nítidos como raios laser em uma casa noturna na época em que ainda era possível saborear um cigarro nesses ambientes.

Ele não sabe como foi parar ali. Segue rumo ao norte. A entrada fica a quilômetros dali. Para. Olha para cima e se deleita com o show de luzes. Na sua mente o brilho é intenso e toca sua alma anulada. Ele sabe que o fim já chegou. Ele está muito depois do fim, na verdade. As memórias são vagas. São fotos vistas através de uma pedra de cristal mal polida. Sente-se tão responsável pelo seu destino quanto uma criança de dois anos. Foi em algum momento. Volta a caminhar. Tem o cachimbo, mas não há mais pedras. Tem o cachimbo, mas não há paz.

Edvaldo sai do cinema. É uma Segunda-Feira ordinária, como outra qualquer. Estranho ir sozinho ao cinema, mas há tempos ele não conseguia companhia para poder curtir sua paixão cinéfila. Sai do shopping center e sente um certo saudosismo de sua infância quando as salas de exibição ainda podiam ser encontradas nas ruas. Cabelo desgrenhado, par de óculos simples, começa a atravessar a rua. Não enxerga tão mal, mas as lentes são uma boa máscara. Protegem-no. Poucos metros de caminhada, rua adentro, e um carro quase o atropela. Assustado ele volta à calçada. A passarela fica a dez metros e é muito mais segura.

Sobe os degraus lentamente. De onde vem esse medo todo afinal? Sempre foi assim e assim será. Para no meio do primeiro lance das escadas. Sua vida passa por sua mente de uma forma inexplicável. “Tem que ser assim?”, pensa. “Não mesmo”. O semblante de Edvaldo é outro; curiosamente sério, decidido. Tira as madeixas descuidadas dos olhos e desce os poucos degraus que havia subido com passo firme. Másculo como nunca.

Um pouco reticente mas com o espírito imbuído em enfrentar seus fantasmas, atravessa a rua. Mal olha para os lados. Vence a primeira etapa. Regozija-se. É outro homem.

Senta-se no meio-fio do outro lado da rua. A respiração é bastante ofegante. Atravessar aquela rua daquela forma inusitada e severa o fez um novo homem. Pensa em tudo o que aconteceu até aquele segundo. Agora tudo vai ser diferente.

Edvaldo nunca foi assombrado pelos amigos mas seus demônios interiores fizeram um excelente trabalho em tornar uma vida, que poderia muito bem ter sido mediana, normal, em um ininterrupto pesadelo diário. Pesadelo que ele vivia à luz do dia. De olhos bem abertos. Foi um aluno comum, nenhum destaque especial. Nenhum talento que o diferenciasse. Timidez extrema.

Nunca foi considerado feio pelas meninas. Pelo contrário, era listado como um dos mais charmosos. Nunca pôde descobrir isso. Os olhos castanho-esverdeados tornavam seu semblante bastante agradável de olhar. Um tanto sedutor, na opinião de alguns espécimes femininos com os quais ele nunca conseguiu ter qualquer tipo de interação. Uma mulher mais atirada talvez tivesse mudado sua história. Nunca aconteceu. Viveu em um casulo abraçado a demônios dos mais diversos. Entregou-se à literatura. Ao cinema. À música. Viajava nas histórias fictícias de outros.

Felicidade foi uma palavra que ele nunca conheceu. Por conta própria, cresceu assim, isolado; arisco.

Levantou-se e decidiu que não ia esperar o ônibus. “Medo, porra nenhuma. Vou pra casa a pé e é isso aí”, virou o mantra do último minuto na sua mente. Não morava longe. Menos de quatro quilômetros, seguindo uma grande avenida batizada com o nome de um figurão da mídia, Roberto Marinho.

Tomou o rumo de casa. Umas poucas centenas de metros à frente havia aquele lugar que era conhecido por crackolândia. Umas das várias espalhadas pela metrópole amaldiçoada pelo vício nas pedras – a maior daquela região nobre. Uma cena surpreendente lhe tomou de assalto, hipnotizando-o. Próxima à calçada, mas já na rua sobre o pavimento mal cuidado, uma mulher visualmente destruída por algo, bailava sobre o asfalto. Girava freneticamente ao som do canto imaginário que era destilado em seus neurônios corrompidos. Um sarau com trilha sonora de Mozart e poesia de Carlos Drummond de Andrade.

Em algum momento da história aquela mulher fora protagonista. Diretora de uma escola particular. Leitora voraz. Apaixonada por música clássica. Uma intelectual à moda antiga.

Agora se entregava à sua folia individual, que costumava ir madrugada adentro. Edvaldo estava fascinado. Magnetizado por aquele imã. Paralisado à margem da avenida. Olhos fixos, compenetrados naquela mulher que outrora tivera uma vida. Ela só girava. Louca para todos os outros; artista de primeira linha para ele naquele momento. “Nossa, quanta alegria”, pensou enquanto sua mente associava aquele momento a tudo que um dia buscara. Não havia sentido algum, mas aquela personagem das ruas era agora seu ícone de sucesso. Pura felicidade. De ícone, se tornaria sua mentora. Em breve. Edvaldo era dela a partir dali.

Ela para por um breve momento e geme umas poucas notas de um réquiem mozartiano. Algo em ré menor que os toca profundamente. Olha para suas mãos que continuam a bailar e balbucia, com voz melancólica e nítida, um trecho de Mundo Grande, de Drummond:

          Não, meu coração não é maior que o mundo.
          É muito menor.
          Nele não cabem nem as minhas dores.
          Por isso gosto tanto de me contar.
          Por isso me dispo,
          por isso me grito,
          por isso freqüento os jornais, me exponho
          cruamente nas livrarias:
          preciso de todos.

A pretensa escritora ajoelha-se como quem vai iniciar uma oração, mas apenas gargalha. Olha fixamente para o céu, agradecida por aquela graça, fosse qual fosse. “Preciso de todos”, grita. Abre os braços. Parece abraçar o firmamento. Edvaldo se ajoelha. Chora todas as lágrimas de sua vida. Lava a alma. Um brinde àquele encontro.

Comemora dezoito anos. Um rompante de coragem súbita, advindo das primeiras doses de vodca – barata – o leva a um prostíbulo. Um no qual ele possa realmente chegar às vias de fato. O cofre pesado e árduo da virgindade sairá de suas costas, enfim, pensa aliviado.

A casa é fria e mal iluminada. A bebida é curiosamente barata. Talvez as duas coisas combinem, embora simplesmente coincidentes, para que as meninas pareçam belas. Não são. Que diferença faz agora?

Judite tem três filhas e é excelente dona de casa. Sua renda é a mais importante da casa. O pobre coitado do quarto marido é um pedreiro que mais bebe que trabalha. Ela nunca está com ele à noite, de qualquer forma. Está no Balneário trabalhando. O cheiro da casa, misto de cigarro barato e suor seco em peles mal tratadas com óleos baratos e encharcadas de perfumes falsos, é ácido e forte; impregna a roupa e a alma de Edvaldo. Ele, acreditando estar armado com um fuzil israelense para vencer sua guerra interior, não se dá conta de que chumbo e pólvora não podem ferir fantasmas e demônios: Jessyka, nome artístico de Judite, ainda está por vir.

Edvaldo caminha rápido para o bar sem olhar para os lados. Pega a cerveja a qual seus sete reais pagos na entrada lhe deram direito e senta-se no primeiro lugar que seus olhos identificam. Sua frio. O coração é uma britadeira. “Que porra acontece agora?”, pensa.

Judite não precisa gastar mais do que umas duas dúzias de palavras para convencer o garoto acuado a escolhê-la e garantir-lhe mais quarenta reais no parco orçamento familiar. Os outros quarenta são da casa. Ele nunca mencionou sua virgindade. Ela sabe. Sempre soube desde a entrada do pivete apavorado na casa de comércio de sexo. Uma loja de sonhos, diriam alguns. Gostou do tipinho simples. “Cheira leite”, pensa fazendo, em silêncio, graça do rapaz.

Já na alcova, ela despe o garoto rapidamente e o deita naquela cama fedida coberta por um lençol que fora um dia branco. Agora é de um amarelo penoso e com várias manchas de prazeres do passado. Fáceis ou renhidas, deixaram lá suas marcas.

Olhar apavorado, Edvaldo não faz ideia do que acontece agora. Vira dezenas de filmes eróticos. Muitos nos quais nem mesmo se podia ter certeza que houve sexo de fato. Ali, tudo aquilo tinha pouca ou nenhuma serventia. Medo. Atenção fixa em cada movimento daquela prostituta de ancas largas, barriga de considerável volume e rosto severo. Olhos embotados de rugas e história, ela se despe. Seios flácidos com os mamilos bastante abaixo de onde ele supunha encontrar. Não era uma cena excitante. Seu órgão não havia se manifestado ainda. Ele era pura tensão. Nenhum tesão.

A cortesã havia adquirido uma objetividade cruel com o passar dos anos. Ela se curva um pouco e começa a masturbar o membro do rapaz e ao mesmo tempo realizar uma tentativa de sexo oral. Naquele estado as duas atividades eram bem difíceis. Ele havia fechado os olhos. Parecia fingir quer não estava ali, mas tinha precisão sobre o que estava acontecendo. Vergonha.

Bora, Moleque. Você já gastou quinze minutos da sua meia hora. Se concentra porque se esse brinquedinho aqui não funcionar, a tia vai ligar o foda-se e alguém vai pra casa com o saco cheio do mesmo jeito que chegou. Ou você vai me presentear com mais oitentinha?” Ela, sim, estava armada e aquelas palavras eram como tiros alvejando todo o corpo de Edvaldo. Na sua cabeça, soavam ainda mais estarrecedoras. Aos seus demônios cabia o papel de piorar e amplificar todo aquele destrato. “Que é isso, Broxinha?”, “Mas não é mesmo um nenêzinho?” Ouvia com clareza, na voz da meretriz, frases cortantes nunca ditas por ela. De um coro de centenas de meretrizes, ele sentia. E “Fracassado. Fracassado. Fracassado.”, na sua própria voz. Uma voz dolorida, gutural e resolutamente derrotada.

Aqueles trinta minutos duraram uma eternidade infernal. Mas o fim sempre chega. Ela se levanta. No fundo está um pouco decepcionada. Gostou do tipinho simples, medroso, cheirando leite. “Poderia ter sido uma boa foda”, pensa. Mas essa história de sentimentalismo é coisa da Judite e isso já lhe custara um novo macho para sustentar. Jessyka reassume o comando, se veste e sai. Antes de deixar o quarto com uma voz de desprezo que o mutila um pouco mais: “melhor você se vestir e sair rápido antes que venham te tirar daí, Garoto”. O que sobrara de Edvaldo apressa-se em partir. Arrasado e ainda menor do que entrou.

Sete anos trabalhando no mesmo emprego. Sete anos apaixonado por Melissa. Linda, inteligente. Estonteantemente sedutora. Edvaldo vive um amor de mão-única por todo esse tempo.

Melissa agora vai se casar. Melissa é condenavelmente feliz. Melissa é tudo que ele queria e não pode ter. Tudo que ele queria e nunca teve coragem de buscar. Ele não tem nada.

As torres do outro lado do rio são uma cidade em si. Edvaldo ressente-se por não ter viajado àquela metrópole tão distante e que sempre pudera admirar à distância. Uma viagem e tanto para quem simplesmente olha para mais um grande condomínio de São Paulo. Imponente, mas sem nada em especial.

No mundo de Edvaldo, no entanto, aquela cidade distante era mais um de seus fracassos. Caminha para um lugar de piso de terra batida, mais próximo da margem. Edvaldo está em transe. Mas está tão feliz. Já caminhou metade da estrada dos tijolos amarelos. Em breve vai encontrar o mágico que, esse sim, pode resolver todos os seus problemas e consertar seu erro. Poderá mesmo trazê-la de volta? Nuca havia se sentido tão feliz e agora tudo estava para trás. Perdido. Havia conseguido de volta até às ereções levadas por uma rampeira qualquer do passado. “Angélica?”, “Gérbera?”, “Incéstica?”, “Jéssica?”. Não se lembrava e nem isso era uma perguntava lucrativa em se responder naquele momento.

Senta-se frente àquele mar de fezes escondido sob a alcunha de rio e pensa o quanto gosta do oceano. O quanto aquela cidade além-mar – o condomínio na outra margem do canal – deve ser bonita. Ele precisa seguir para encontrar o mágico, no entanto. Mesmo estando logo abaixo da ponte flutuante, que se eleva cada vez mais içada pelo poder das luzes, ele não pode abandonar seu caminho. A mulher fantástica, cujo nome nunca tivera a curiosidade de perguntar, precisa dele. Precisa dele inteiro, aliás. Funcional. Sem a maldição da bruxa. Em sua mente derretida, ele a chamava de Poesia. Linda e bela Poesia. Sua Poesia. Que ela possa voltar do lugar para onde ele a mandou.

Seca às lágrimas. Nunca vira um show de tamanha magnitude. Ainda não vira nada. Está sóbrio. Está puro. Mesmo assim, suave dentro de sua cabeça, ouve a voz grave de Seu Jorge, que um dia morou em um lugar como aquele e que hoje degusta nobres vinhos, cantando suavemente umas palavras escritas por Vinicius de Moraes e Baden Powell há muito tempo atrás: “Não existe coisa mais triste que ter paz. E se arrepender. E se conformar.” Hora da virada. Ele está achado. Ele está louco. Ou sempre esteve?

Olha fixamente para aquela mulher que é dotada do poder hipnótico da Medusa. Ela devolve o olhar, enfim. Sua oração é finda. Sua viagem acabou. Falta algo para continuar a tocar o céu.

Nenhuma palavra trocada. Ela se aproxima dele. O encara como quem olha um bebê de um amigo querido pela primeira vez. Suavidade e cuidado. Toca sua face. Dedos ásperos. Amorosos. Parece uma santa abençoando e absolvendo um pecador.

Instintivamente ele pergunta: “Quero dançar no céu com você. Eu consigo?” Ela responde professoralmente: “Precisamos de mais quartzo, mais combustível. Sem isso, não conseguimos deixar o chão”. Edvaldo ainda está um pouco tonto e se recuperando do êxtase da cena que assistira há pouco. Não entende. “O quê?”, pergunta.

“Não tenho mais nada do vil metal. Sem isso, não temos quartzo – nosso combustível sagrado”. Ele tenta organizar os pensamentos. Pergunta, inseguro: “precisamos de dinheiro, é isso?”. Ela sorri levemente de forma tenra, mas parece travada. “Eu tenho algum aqui. O que fazemos?”

Pouco tempo depois fuma sua primeira dose de crack. Vai querer mais. Vai querer nunca ter querido querer. Abraça a mulher. Abraça Poesia, seu pretenso passaporte para uma vida melhor.

Escala os degraus de sua desgraça, que naquele minuto o levam ao firmamento, ao paraíso. Seu corpo rejeita todo aquele choque químico. Mas o prazer é indescritível, inexplicável. Ri-se de si mesmo. Está feliz como nunca antes.

Agora pode ele mesmo ser o artista. Sobe em seu palco imaginário e recita o que acredita ser um recital de libertação. Poesia ronrona uma canção bem próxima dele. Algo de Beethoven, possivelmente. Lembra Moonlight Sonata. Ele recita sua carta de libertação trazida de Pablo Neruda, que flui lepidamente em sua mente e jorra de sua boca irresoluta:

          Para meu coração basta teu peito.
          Para tua liberdade bastam minhas asas.
          Desde minha boca chegará até o céu
          o que estava dormindo sobre tua alma.

          E em ti a ilusão de cada dia.
          Chegas como o sereno às corolas.
          Escavas o horizonte com tua ausência
          eternamente em fuga como a onda.

          Eu disse que cantavas no vento
          como os pinheiros e como as hastes.
          Como eles, és alta e taciturna.
          E entristeces prontamente, como uma viagem.

          Acolhedora como um velho caminho.
          Te povoam ecos e vozes nostálgicas.
          eu despertei e às vezes emigram e fogem
          pássaros que dormiam em tua alma.

Tal como sua diva, inebriado e entorpecido, ajoelha-se e ergue às mãos sob aquele canto triste. Para ele, toca o céu de fato. Está em paz.

Volta à caminhada ao lado do rio colorido pela luzes flamejantes da ponte opulente. Precisa matar seus fantasmas. Sua tormenta. Continua perdido, mas sabe que precisa ter coragem.

Tudo agora é pouco. Nunca mais trabalhou. Sua casa é um lixo. Fede. Seu sobrado e antigo QG está morto. Amava suas coisas. Imaginava-as o amando também. Era o que tinha. Tudo que tinha. É o fim da linha.

Vai à favela mais uma vez. Apanha. É humilhado. Lição de moral de um bandido. Como assim?

Tem que conseguir. Mais crack. Mais crack. Mais crack. Aquele fio de cobre ainda manchado de sangue no canto da sala vazia. Tudo fora vendido. Benditos bens abastecendo malditos desejos. A dançarina está morta. O que mais? A dama de seus sonhos. A mulher que amara por sete anos a fio. Essa ainda falta. Faz falta. Decide ir atrás dela.

Bailam pela avenida. Edvaldo e Poesia. Olham-se no olho. Fazem amor ali mesmo, às três da manhã. Um observador normal não chamaria aquilo de amor. Não os chamaria de seres humanos, de qualquer forma.

Como animais irracionais no cio, ignoram o mundo à sua volta, à cidade ao seu redor e se entregam àquela cópula bela, poética e sórdida. Ele voltara a funcionar depois de dezessete anos.

Poesia está embaixo daquele homem imundo. Ri. Ri abruptamente. Ri ininterruptamente. Edvaldo a ama como nunca amou ninguém, mas como ousa ela rir dele naquele momento mágico de entrega e desejo. Ela ri de felicidade. Ele agora também é o seu mundo. Ele é seu tudo. Ele está possuído e ela nem pode perceber.

Edvaldo goza o gozo mais desesperado de sua vida. O quartzo corre nervoso em suas veias. Ela é uma prostituta suja e desprezível agora. Tudo mudou. Ela é mais uma que o despreza e ri dele. Grita. O cão está sexualmente saciado, mas um gosto maldito de sangue se espalha em sua boca. Não pode ser assim. Ele mudou tudo e agora isso. Não vai ficar assim.

Levanta-se rapidamente. Maltrapilho e com as pernas bambas, busca em um monte de lixo que chamava solenemente de suas propriedades um fio de cobre. Tão nobre quanto deveria ser.

Poesia está embebecida de prazer. Cochila levemente seu último descanso. Edvaldo a estrangula com o cabo metálico. Dá cabo de sua amada. Acorda do transe no segundo seguinte e se vê face ao seu erro capital. Face à execução sumária de uma sentença dada em tão pouco tempo. Com tão pouca lucidez. Desespera-se. Nada a ser feito. Precisa andar.

Edvaldo ergue-se e caminha para frente. Para a água. Na sua cabeça, o horror de seu feito e o torno cada vez mais apertado de mais um fracasso.

Melissa vive no mesmo bairro que Edvaldo. Ele caminha até sua casa. A jovem vive com sua mãe em um sobrado modesto. Há algumas

Edvaldo está transtornado. Segura o fio de cobre em uma das mãos. As pupilas estão dilatadas. Sente a fúria de seu erro e ódio de Melissa nunca o ter notado. Ela vai pagar pela morte de Poesia e pela humilhação que ele sofreu diante daquela puta maldita quando moleque. “Alguém tem que pagar, afinal”, pensa. Se bem que talvez pensamento não seja o termo certo para definir o temporal de expressões não concretas que pulula sua mente derretida. É um caldo quente de algo irreconhecível, obscuro.

Chega à casa. Olha fixamente para a campainha. Agora está perto. Senta-se. Sua respiração pode ser ouvida a milhas de distância. Precisa do seu cachimbo e de mais quartzo. Tem uma última pedra. Seus lábios tocam brutamente a caneta que é o duto para aspirar aquela fumaça sagrada que vem do fornilho onde a pedra jaz em brasa. Seu pulmão é inundado. Está de novo em estado de graça. Já pode agir de novo.

Volta-se para a porta mais uma vez. Estica o braço, mas não consegue pressionar o maldito botão. “Eu não posso errar mais. Eu não posso errar mais”, brada com o dedo ainda em riste a poucos centímetros daquela campainha. Uma cascata de lágrimas densas rola em seu rosto sujo e suado. A coragem mais uma vez o deixou. Ou agora ela finalmente se manifestava dentro dele em sua plenitude. Precisa encontrar alguém que volte tudo para o lugar de antes. Certamente haverá um feiticeiro perto do rio negro iluminado pelas luzes mágicas capaz de trazê-la de volta.

Dois dias após Edvaldo ter se sentado frente ao rio, um diário de circulação gratuita traz a seguinte nota no rodapé da sessão de cotidiano:

Homem é encontrado morto no Rio Pinheiros.

Na tarde de ontem, funcionários da companhia de saneamento da cidade encontraram o corpo de um homem às margens do rio. Branco, nu e aparentando 35 anos, o cidadão teve sua causa-morte confirmada por afogamento. A polícia ainda não confirmou se o episódio se trata de suicídio, acidente ou assassinato. O corpo segue no IML onde aguarda identificação por algum parente ou amigo.

E nada mais foi dito sobre Edvaldo.

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Um comentário

  • Maria Jussara escreveu:

    Consegui vivenciar cada pedaço desta história como se tivesse possuida pelos demonios que estão sempre a nos espreitar. E chorei. Chorei por saber que histórias como essas estão acontecendo diariamente neste mundo de ilusões.

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