Estranhas paixões

Ela passou ofegante. Rápida. Lépida mesmo. Sabia que os olhares a seguiam, mas não desviava o olhar reto uma vez sequer. Mulher séria é assim. Até curte o momento e se deleita, mas não se deixa entregar a olhares quaisquer.

À noite, jantar pronto na hora certa. Na hora de sempre. Telefone. Antonio Carlos não vem mais. De novo. Algo da empresa, não entendia mais tão bem desde que abandonara a vida profissional para se dedicar às crianças, após o nascimento do segundo filho. Agora que Dudu, o mais velho, passou dos dezoito anos, tudo que aprendera na faculdade e no mercado, nos dez anos que trabalhou não eram mais nada. Nem memória.

Cecília, 48 anos, casada com Antonio Carlos há muito mais tempo do que sua mente consegue buscar, senta-se e chora. Mais uma noite de solidão. Mais uma noite de traição, ela supunha. Nunca se incomodara, mas desde aquele dia… Desde aquele dia ela sentia-se diferente. Seu coração era talhado de lágrimas, mas desejoso de atenção, carinho, vingança…

Telefone. Um longo papo. Muito assunto… “ok, estou indo” é a frase final. Não sem antes ligar para saber de Dudu, 20 anos, que está viajando, e se certificar que João está bem em seu quarto. Aos 14 anos, ele vai passar mais uma noite mergulhado na internet. Diz a ele que vai dormir. Não vai.

Impressionava-se muito por não se interessar por nenhum homem. AC, como chamava o marido, lhe preenchia por inteiro, mesmo tendo essas escapadas. Nunca o pegara e não ligava. AC era um furacão e ela tinha sexo pelo menos 4 vezes por semana. Suas amigas a invejavam. Algumas foram pra cama com AC. Disso ela não sabia. Ela ainda é uma mulher muito bonita e conservada. Uma delícia, um tesão, ouvia muitas vezes. Nada disso a apetecia. No entanto aquilo…

Pouco tempo depois estava nua. Sendo dominada de uma forma que jamais imaginara antes. Não devia estar ali. Mas aquela língua, aquele furor da juventude. Dupla traição. Culpa. Que venha depois. “Foda-se” é o que se passa na sua mente sempre que a culpa lhe pega. AC não era o problema. Longe disso. A língua. O gozo. Sentia-se finalmente completa. E nem sabia duas semanas antes que não era completa.

E essa descoberta se deu dentro de casa. No seio do lar que sempre preservou tão bem. Aqueles olhares não podiam significar desejo. Aqueles olhos queimavam e a cada vez que lhe fitavam, sentia-se amedrontadoramente úmida. E culpada. E suja. E mulher. E desejada. E desejosa. Tinha que ser mentira, mas podia conviver com a fantasia em sua mente. À noite, enquanto AC lhe sorvia, sua mente flutuava. Ele estava ali em corpo, mas havia outro alguém em sua mente.

Em menos de 48 horas, sua fantasia se tornara realidade no sofá da sala. Naquele onde AC gritava enlouquecido por seu Botafogo que tanto o fazia sofrer. Onde Dudu e João aprenderam o mesmo ofício de torcer tão apaixonados quanto o pai. Sem que houvesse uma troca de palavras. Sem que houvesse um segundo de hesitação.

Cecília está deitada. Nua. Suada. Realizada. O cheiro inebriante de sexo domina o ambiente. Tem outro corpo colado ao seu. Ambos os corpos desabados no tapete da sala. Pós-êxtase. Pós os melhores gozos de sua existência. Seria a culpa daquela situação ainda mais responsável por tanto prazer? Não sabia. Não se importava, na verdade.

Chave na fechadura. Uma volta. Duas voltas. A porta se abre. Levantam-se bruscamente. O mais rápido que podem. Aquilo não pode ser verdade. Não está acontecendo. Está. À porta está Dudu. Mentira ao telefone. Já estava de volta, mas não queria ir pra casa aquela noite. Tinha planejado duas surpresas. Uma para sua família. Uma para Débora. A primeira seria a de sua cara-metade. Mas surpresa maior é a que lhe aguardava. Está terrificado, petrificado. Lágrimas se precipitam em seus olhos. Muitas lágrimas. À sua frente, nuas, sua mãe e Débora.

Sua mente é um vendaval de pensamentos que buscam qualquer explicação que dê sentido a essa cena infernal. O que poderia querer dizer sua mãe e sua namorada nuas na sala do pequeno apartamento onde tantas vezes ele gozara aos gritos. Na sala do apartamento para o qual pretendia se mudar em breve. Seu corpo treme por inteiro. Seu sangue ferve. A três metros de distância, Cecília e Débora estão paradas, se cobrindo com algumas peças de roupa que conseguiram pegar, mas que sequer houve tempo de vestir. Estão imóveis, mas não pronunciaram qualquer palavra. Não parecem culpadas; não parecem envergonhadas; não parecem ligar.

Sob um silêncio aterrador, Dudu vomita, o mundo gira sob seus olhos. Mas o desmaio não se completa e ele corre para a cozinha. Dispara socos contra a geladeira. Seus dedos ardem, mas ele não para.

Na sala as duas agora estão vestidas. Sentadas sob uma atmosfera de foi melhor assim. Não há consternação naquela sala. Uma leve brisa sopra pela janela do décimo-oitavo andar. Na cozinha o barulho interminável de golpes desferidos na geladeira.

Carlos Eduardo se sente destroçado. Dudu havia vivido, em um segundo, algo que valia mais do que cabia em toda sua história de garoto. Dudu estava morto ali. De agora em diante, só o Carlos Eduardo poderia existir. Ali havia uma fronteira que jamais esperava cruzar. Ele caminha lentamente para a sala. À porta da cozinha, ele olha fixamente para a janela. Seu olhar é vazio. Vago. Em um instante, a cena de seu corpo flutuando no ar e arrebentado contra o pátio do prédio repete-se mil vezes. Mas a covardia lhe impedia de pular. E viver sem Débora e sem Cecília não era possível. Sua mulher era a melhor. Sua mãe fora a melhor. Continuaria a ser, sabia.

“Mãe, pega as suas coisas e vai embora agora” — Cecília apressou-se em obedecer. “Eu vou me mudar pra cá e você não vai se encontrar com a Débora nunca mais. Você está entendendo?” — Cecília faz que sim com a cabeça. Dudu, ou melhor, Carlos Eduardo tem uma feição nova. Uma coloração única. Ódio puro e destilado nos olhos. Lágrimas cortam sua face enquanto fala, mas é um novo homem. É homem agora, na verdade. “Quanto a você, sua vadia” — vira-se para Débora a aponta o dedo rente a seus olhos. ­— “Você é minha. Tem sido assim e assim vai continuar sendo enquanto eu quiser. Ouviu bem? Entendeu?”

Débora não quer perde-lo. Nunca ligara tanto. Mas aquele homem ali presente, ela jamais poderá perder. Ela também assente com a cabeça. Todos sabem que o fim da ligação das duas é a mais retumbante e desavergonhada mentira. Ninguém parece ligar. Que a vida siga em frente.

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