O dia em que decidi morrer

Claro. Muito claro. Mal posso abrir os olhos. Nunca houve um dia tão claro.

Após muitos minutos, entre abrires e fechares de minhas pálpebras, retomo uma visão mediana do mundo à minha volta. Retomo as memórias do passado – seja o mais longínquo, seja o recente. Que dor é essa? Não vai passar? Vai, sim!

Dois copos de água muito gelada. Os dentes doem. Meus olhos azuis se dissipam numa imagem de derrota refletida em um espelho embaçado. Esmaecido, na verdade. Tanto quanto eu. O som da água quente caindo do chuveiro e escorrendo pelo ralo não me incomoda. O vapor é um alívio ao entrar pelas minhas narinas castigadas pela cocaína. Ontem, então, nossa! Parecia que a noite não ia acabar nunca.

Não acabou. A cada minuto que passa, sinto com mais clareza na minha cabeça dolorida o que devo fazer. É um direito meu. Não interessa a ninguém. Não existe outro caminho. Ainda mais depois de ontem. Depois do que eles fizeram. Depois daquela merda toda.

Melhor deixar alguma escrita. Pelo menos minha mãe tem o direito de saber em que porra a gente está metido. Só espero que ela fique bem. Onde guardei aquele bloco? Acho melhor deixar num papel – parece mais digno que no computador. Se bem que não vejo nenhuma dignidade aqui.

Brasília, 11 de novembro de 2011

Oi,

Vou ser o mais breve que conseguir.

Gostaria que quem encontrasse esta carta a entregasse à Dona Virginia, minha doce mãe que abandonei há alguns anos.

Mãe,

Eu não te abandonei por falta de amor. Foi por excesso. Eu não tinha o direito de acabar com tudo que você queria construir. Você era demais para mim. Eu não podia alcançá-la. Minha trajetória sempre foi de queda enquanto eu tentava me aproximar do pedestal em que você se postou. Inatingível, na verdade.

A culpa de tudo que aconteceu comigo foi minha. Se eu tivesse sido hábil para viver do seu jeito, como o Marquinhos, o filho que nunca vai te abandonar, supostamente fez, talvez tivesse tido outro destino. Mas não foi o caso e agora é tarde. Decidi morrer e preciso que você saiba de toda a verdade. Não quero morrer com ela. Melhor saber por mim. A minha versão.

O Eduardo, seu querido segundo marido, foi muito gentil em me colocar para trabalhar com o Deputado. Hoje eu o trato por Deputado, às vezes, mas em geral por Reizinho ou Doutorzinho – só para te dar dimensão do quanto o respeito. Ele só não te contou que eu, em pouco tempo, era o organizador das festas que aquele depravado organizava na casa da Asa Sul. Ah, o Eduardo era figura carimbada lá. Inclusive nas rodas de pó.

Sei que tive sorte e cresci muito bem apessoado, mas nunca me imaginei dormindo com pessoas tão variadas. Me vi até na cama do Deputado. Nem sei como tudo aquilo começou. Acho que quando se tem dinheiro demais, tudo demais, na verdade, a busca de novidades nos deixa num caminho sem sentido e o Deputado hoje é assim. Ele pode comprar tudo, mas é com o sexo que ele se satisfaz. Quer dizer, em parte e você vai entender. Foi esse mundo que eu achei que dominava em algum momento. Até ontem, pelo menos. Mas nada de adiantar os fatos. Você precisa acompanhar a cronologia dos eventos, sob pena de você de nunca me perdoar.

Em pouco tempo, ganhei a confiança dele e passei a frequentar a casa da Asa Sul, como assessor para resolver qualquer coisa que ele precisasse enquanto estava lá. Ah, isso incluía lidar com aquela futilidade em pessoa que é a mulher dele. Eu comprava presentes caríssimos e ela o deixava em paz o tempo que fosse. O mesmo com os filhos, você acredita? Não sei o que vai ser daquela gente agora.

Meu sucesso como gerente de merdas espalhadas dele, me fez assumir a organização daqueles “eventos”. É, Dona Virginia, tive que colocar entre aspas porque não tenho palavras para descrever aquilo. Em resumo, era um momento à noite em que se reuniam prostitutas de luxo, garotos de programa e travestis. Isso mesmo, aqueles homens que decidiram virar mulheres, mas algo os impede de cortar fora seus órgãos genitais. Sabe se lá. Ainda não entendo, mesmo depois de ter dormido com a Aninha, uma dessa espécie. Não interessa mais, mas não gostei.

O público das noitadas era bastante variado. Do seu querido marido, Eduardo, a alguns ministros e muitos, muitos, muitos lobistas e empresários. Mesmo entre toda essa gente suja com a qual cresci aí em casa, aquilo era o lado B. O lado mais pervertido e sujo. Mas a festa não era só de performances sexuais coletivas naquele palco sobre a piscina. Também havia o tipo de droga que você puder imaginar. Eu gostava da coca pura que um colombiano nos garantia, mas também havia todos os tipos de ervas, ácidos. Às sextas, o deputado se “chapava” de MDMA – peça para alguém procurar aí na internet para a senhora. Ele é bem novo e curte drogas moderninhas; sintéticas. Tem a ver com a vida nada real dele. O pai dele, seu grande amigo, nunca vi por lá. Por mais incrível que possa soar acho que o Senador é um trapaceiro reservado.

Foi tudo muito intenso e vivi sempre no limite – fosse para o lado bom, fosse para o ruim. Eu sempre senti as suas preces, mesmo não acreditando em Deus há muito tempo e achando que você só dedicava orações para seu outro filho, aquele puritano metido a certinho. Mas de alguma forma, elas me tocavam e me davam alívio e força. Mas, Mãe, posso te garantir uma coisa. Deus não pode existir. Ele nunca aceitaria que metade do que eu vi e vivi nos últimos anos existisse sob suas barbas sagradas. Acredite em mim.

Por que eu estou chorando? Eu gostava daquela merda toda. Estava tão envolvido. Tão dono do mundo. Como é que eu fui achar que eu realmente estava por cima? Como eu fui idiota. Como eu fui tolo. Preciso me acalmar pra acabar essa carta e com essa porra toda logo. Espero que seja rápido. Só rezo pra que o inferno realmente não exista. É bom ser descrente nessas horas.

Agora eu vou ser um pouco mais detalhista e citar algumas pessoas de seu convívio. Não faço ideia do que a Senhora vai fazer com toda essa informação. Não importa agora. Ainda confio que seu bom senso possa sobrepujar sua eterna onipotência. De qualquer forma, eu não estarei aqui amanhã para participar desse sofrimento todo.

O Deputado sempre colocou a Mary, aquele mulherão que é secretária dele, para fazer sexo com os caras que o interessavam. Ela meio que controlava ele e ele meio que achava que mandava nela. Ela pegava um dinheiro enorme – em dinheiro mesmo – todas às sextas. E assim o barco seguia. Um dia, ela me chamou e disse que poderíamos nos dar melhor já que éramos as duas únicas pessoas de confiança do cara. Ah, lembrando que ele e o Eduardo se desentenderam depois que um tentou roubar o outro.

Acho que nem vou contar isso em detalhes. Minha mãe não precisa saber que o Doutorzinho chantageou o Eduardo com aquelas fotos dele sendo traçado por aquela traveca horrível. Dá até pra achar um pouco de graça agora. O foda é que fui eu que montei para aquelas fotos existirem. Melhor deixar pra lá mesmo; ela já vai sofrer bastante com esse filho da puta de qualquer forma. Ah, sei lá, talvez eu conte antes do fim. Dessa carta e do meu.

Eu não vi nenhum mal, já que eu já estava enterrado até o pescoço naquele lamaçal mesmo. E o cara estava cada vez mais na minha. A gente começou a juntar uns documentos contra ele por garantia, mas o lance é que eu assumi o livro das trapaças dele e ela fazia todos os esquemas de transporte da grana e com o Doutorzinho cada vez mais seduzido pelo próprio poder e pelas drogas, não foi difícil começarmos a tirar uma grana enorme dele.

Ok, vou confessar algo que a senhora já deve ter deduzido. Sim, eu estava dormindo com ela. E ela com ele e mais um monte de gente que nos interessava.

O fato concreto é que foi uma dupla de muito sucesso. Pelo menos na minha cabeça. Meio que me apaixonei por ela, apesar de nunca ter dito isso. Ela claramente sabia. O que eu não sabia era que havia muito mais coisa – e muito mais gente – no jogo.

Eu me seduzi por tudo aquilo e posso garantir que o poder corrompe, mas principalmente seduz. A lógica fica toda revirada na sua cabeça. Acaba o controle. Eu passei a querer tomar o mundo do Reizinho, mas dependia daquele fantoche para que as coisas acontecessem e o dinheiro entrasse. Aí começaram a acontecer os fatos inusitados. Um dia, muito louco junto com o Doutorzinho e participando de uma das orgias, eu senti que ele me tocou umas vezes nas costas durante a festinha. Quando eu olhava, ele sorria de leve. Nessa altura, admito, estava totalmente apaixonado pela Mary e ela estava no controle – eu só não sabia disso com a certeza que sei agora.

Cara, não sei se eu devia detalhar tanto as coisas. Mas se eu só contar, ela não vai ter a dimensão que eu preciso lhe dar de que as coisas, às vezes, simplesmente rolam. Puta que pariu, como eu fui me meter nessa porra? Como eu fui parar naquela cama sendo devorado por aquele deputadozinho arrogante de merda? Preciso de mais um copo d’água. Aliás, preciso fumar um baseado. Não rolando fácil, isso aqui, não. E de pensar que amanhã eu não vou mais estar aqui e que aquela arma vai ter dado cabo de mim. Será que vou ter coragem de disparar? Foda-se, deixa eu apertar um e fumar essa porra logo pra conseguir passar por tudo isso pelo menos um pouco aliviado.

Me sinto melhor agora. Acho que vou conseguir acertar o tom. Vamos voltar ao papel e ver o que rola.

O fato é que eu perdi totalmente o controle das coisas e me vi ficando bastante excitado com aquele joguinho de sedução do Doutorzinho e, no dia seguinte na piscina, ele me fez participar de uma brincadeira com ele e com uma vadia qualquer. Acabei dormindo com ele pela primeira vez. Entenda o que preferir por dormindo, mas inclua sexo, por favor.

Eu não conseguia abandonar a Mary que simplesmente me enlouquecia na cama e descobri um lado meu que ignorei por muito tempo. Posso te garantir que é impressionantemente bom. Ou o Deputado era muito bom, sei lá. Faz sentido. Ele vivia pra isso, no fim. Depois daquilo, eu me meti em tantos eventos sexuais que já nem tenho mais medida para saber o que realmente me satisfaz. Isso mesmo, sei o que você deve estar sentindo agora, mas é assim que o seu filho rebelde acabou. Pelo menos você tem o seu doce Marquinhos, por perto. Ou não? Ele trabalha com o Eduardo, né? Grande pai pra ele, não foi. O garoto é bom filho, com certeza. Excelente meio irmão, também. Já falamos dele.

Estava tudo muito nebuloso de uma semana pra cá. O Reizinho estranho comigo. A Mary foi visitar uns parentes que eu nunca tinha ouvido falar. O Eduardo me ligou do nada ontem querendo almoçar às pressas. Ignorei. Até que recebi uma ligação de um jornalista. Eu estava acostumado a gastar dinheiro para esconder as coisas que vazavam ou, quando não tinha esquema, a montar boas histórias. O bonitão do Deputado sempre se safava. Mas dessa vez a ligação era pra mim e sobre mim. Eu estava em Goiânia aparando uma aresta que a Mary deixou antes de viajar. O cara queria saber o que eu achava do Reizinho ter me denunciado por desvio de dinheiro e mais um monte de coisas. Eu não entendi nada e desliguei. Estava muito nervoso, como nunca antes. Muitas partes móveis e eu precisava pensar.

Estou precisando ainda, eu acho. Difícil acreditar que essa merda toda foi parar onde parou. Deixa eu acabar isso logo.

Descobri na sequência que a conta que eu e a Mary mantínhamos com a grana desviada estava zerada. Havíamos combinado que os dois teriam os dados para movimentação, já que seria mais arriscado ficar movimentando várias contas. Engano meu. Liguei pra ela e nada. Isso me custou mais algumas horas tentando ligar as partes. Fui com o jatinho para a fazenda de um amigo do Deputado. Estava realmente com medo de ser preso. Não fazia ideia de como estavam as coisas em Brasília e ele também não me atendia, mas dava pra saber que o telefone tocava e ele ignorava. O da Mary estava desligado mesmo. Nisso, o seu querido Eduardo voltou a me ligar.

Vou resumir a ligação porque ficamos pelo menos uns trinta minutos nos falando. O mais estúpido é que nos falamos dos telefones principais que devem estar claramente grampeados, mas para mim, agora, tanto faz como tanto fez.

Seu doce filho Marcos está nesse momento em algum paraíso no exterior. Tenta ligar para ele. Ele levou a empresa do Eduardo à bancarrota, Mãe. Você está na miséria. Financeira e, em breve, moral. Você já vai entender o porquê.

Aquele filho da puta – desculpe, mas não tenho como descrever esse cara de outra forma – daquele Deputado manipulador e arrogante descobriu o meu caso com a Mary e também o desvio de dinheiro. Sabe como? Através do seu queridinho filho Marcos.

Pelo que eu entendi, a história começou mais ou menos assim: o Deputado estava com sede de vingança contra o Eduardo. Queria pegar ele de qualquer jeito. Deu um jeito de colar no Marquinhos, e voilà, seu doce e noivo filho começou a ter um caso com ele. Um pouco antes disso eu mandei fotografar o seu marido com um travesti. A mesma Aninha com a qual eu também “estive”. Isso mesmo, Mãe, o Eduardo gosta demais disso. E posso te garantir, ele não é nada ativo nesse caso.

Ele ficou nas mãos do Deputado. Já não bastasse isso, o Marquinhos limpou a empresa trabalhando em segredo com orientação do Reizinho, que é bom demais em falcatruas. Ele andava de olho na Mary e fez o Marquinhos começar a sair com ela. Algo esse meu irmão deve ter de bom, por que aquela vagabunda dorme com dois, três caras por noite, mas ele a fez se apaixonar por ele. E assim ela deu todo o nosso serviço e tentou montar o esquema com ele. Ele a deu de bandeja para o Deputado e, a essa altura, a Mary já é história, jogada em algum rio desse Brasil repleto de piranhas. O Deputado me contou que quando precisava se livrar de alguém, esse era o seu método. E o meu dinheiro, ao qual eu dava tanto valor, é história também.

O ponto é que o último golpe que o Reizinho deu foi um esquema do ministério da saúde, onde eu apareço como o responsável por toda a operação. O nome dele está limpo. Mas a grana é tamanha que ele resolveu ir embora. Ele entregou todo o material da operação para a Polícia Federal, como se fosse um herói, e saiu do país para sua própria segurança, pois eu poderia mata-lo. Mãe, se alguma coisa sobrou de tudo que ouvi de você foi o valor à vida. Eu sou incapaz, mas não importa. Agora eu estou na berlinda: sou o boi de piranha da vez. O Eduardo sempre foi bem mais rico – e mais sovina – que o Reizinho, mas o rombo que ele e o Marquinhos deram nas contas dele é irreparável. E tudo aconteceu sob as barbas dele e as suas. Você vivendo essa vida de faz de conta e ele dormindo a cada tarde com um travesti diferente. Como a gente pôde ser tão idiota, Mãe?

Agora esses dois vão se encontrar em algum lugar do exterior. Se o cara estiver apaixonado pelo Marcos, talvez seu filhinho ainda dure algum tempo. Se não, ele já era.

Filhos da puta. Agora eu vou sair de cena e essas merdas vão ficar por aí e minha mãe na lama. Como ela me abandonou, eu não devia segurar essa barra agora. E vice-versa. Mas, apesar dela ser a única pessoa que eu tenho no mundo, não adianta. Não existe uma dupla. Talvez vá existir agora. Com ela indo visitar minha lápide e o que ainda existir de mim todos os dias dois de novembro. Foda-se. Escreve. Escreve. Bora.

Para completar a vingança dele contra mim, Mary e Eduardo, ele disparou um e-mail ontem à noite para todo o nosso mailing de imprensa com as fotos do Eduardo com a travesti que mencionei antes. Por isso que eu escrevi antes que sua ruína moral também chegaria.

Eu decidi ontem que o resto da minha vida custaria muito mais do que finalizá-la. Você que é muito mais culta do que eu deve conhecer bem a frase "A morte parece menos terrível quando se está cansado." da Simone de Beauvoir. Eu sempre me lembrei dessa frase em alguns momentos durante a vida, mas ela nunca fez tanto sentido, como agora.

Cadê a porra daquela arma? Deve estar no quarto. Cadê? Aqui. Achei. Ainda bem que já deixei carregada ontem. Espera. Preciso finalizar a carta.

Eu queria ter sido um filho melhor. De verdade. Me desculpe por ter falhado. Queria que você tivesse tido uma família melhor, também. Mas não acredito que você também tenha feito algo por merecer um destino melhor. Se enterrar na Igreja e nos ensinar a comer decentemente à mesa não foi capaz de nos unir, Mãe. E eu sempre quis me sentir amado por você. Agora você só vai ter essa carta a que se apegar. Seja forte. Você vai passar pelos piores momentos da sua vida nos próximos dias. Se decidir por fim à sua vida também, eu vou te entender. Se não existir vida após a morte, meu corpo aguarda suas visitas anuais no cemitério mais próximo. Se existir, nos encontramos no inferno.

Agora, é só mandar uma mensagem para o celular dela: “Vem aqui pra casa agora. É urgente. Mesmo. Ou manda alguém. Sem falta. A porta vai estar aberta.” Enviar. Foi. Vou pra varanda agora, os vizinhos têm que ouvir esse disparo.

FIM

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