Razoável

Antonio Carlos vai morrer hoje.

Antonio Carlos não sabe que hoje vai morrer.

Ninguém na verdade sabe exatamente como e quando se vai morrer.

Mas um dia se morre.

 

Antonio Carlos acordou, no horário de sempre

ao lado da esposa.

Ela não deu bom dia, não dava bom dia há anos

e ele não percebia isso há anos.

 

As crianças acordaram birrentas e barulhentas

como sempre.

Antonio Carlos achava normal, nem com,

nem sem graça.

 

Enquanto escovava os dentes pensava na amante.

No que ia dizer a ela.

Tinha uma surpresa, sim, seria uma surpresa

porque ela era conformada em ser amante.

 

A surpresa era viajarem no final de semana, ia dizer

que iria se separar e ficar com ela.

Veja bem, ficar com ela.

Não casar, era preciso escolher bem as palavras.

E tinha que ser especial, para ela dar valor.

 

Antonio Carlos tinha essa mania de deixar tudo

para depois, porque as coisas tinham que ter significado.

Tinham o momento certo, a hora certa.

Mas não sabia bem porque tinha se casado.

 

Antonio Carlos era um pai razoável,

não brigava com as crianças, deixava tudo para a esposa

e também não tinha preocupações de fazer dos filhos vencedores

de alguma coisa.

 

Era um marido razoável, ouvia tudo o que a esposa dizia

pagava as contas e transava razoavelmente.

 

Antonio Carlos no trabalho:

ele não sabe que vai morrer.

Sai para almoçar.

Atravessa a rua.

Recebe uma mensagem de celular.

Promoção da operadora.

Levanta a cabeça e olha para frente.

De repente, um esbarrão.

É derrubado.

Um assaltante que passou correndo,

fugindo de outro bandido armado que mirou nele,

mas acertou Antonio Carlos.

 

Antonio Carlos não viu, porque olhava a mensagem.

Antonio Carlos, um homem razoável deixou:

 

Filhos razoáveis, esposa razoável: gente igual a muita gente.

 

E a amante que nunca soube porque ele nunca mais ligou.

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