Rita

Para entender Rita não se pode contar sua história do passado para o presente.

Rita tem uma loja de bicicletas em Santiago. Uma loja aparentemente comum que aluga, vende e faz reparos, onde ela recebe os viajantes que às vezes param para simplesmente tomar um café que ela mesma faz e serve nas mesinhas do lado de fora.

Apesar de ter quase sessenta anos ainda é atraente, com seu estilo meio hippie e místico. A loja Riderscafé não tem site nem redes sociais, só telefone em alguns classificados. Se tivesse tudo isso perderia o valor de ser encontrada e ser única, pensava.
No fim do dia, ela vai para a casa do namorado, um artista plástico que planta café e tabaco no quintal do casarão. Fazia também cerveja caseira. Costuma dizer que “Nunca se sabe quando virá uma crise econômica, ao menos terei café, cigarro e cerveja para me fazerem companhia quando não estou em frente a uma tela ou com uma mulher.”

Rita ouve muitas histórias, mas a que todos gostam de ouvir é de como ela chegou a Santiago.

Rita veio pedalando, levou dois meses passando pela Argentina e Uruguai.
Chegou da Argentina com um grupo de ciclistas que fazia uma rota pela Patagônia. Patagônia? Ela só tinha visto uma foto em uma revista elitista que assinava. Quase ficou na Argentina, foi quase paixão. Deu vontade de pedalar mais um pouco e só por isso não ficou no Uruguai.

Passou pelo sul do Brasil, vinda de São Paulo.

Em São Paulo trabalhou durante dez anos como funcionária pública.

Não precisava trabalhar, o marido dava tudo e sua ocupação era ser rica. O marido achava que ela trabalhava em alguma associação beneficente igual a algumas amigas. Ela guardou todo o dinheiro. “Um dia pode servir para algo.”

Criou bem dois filhos homens, mas que nunca perguntaram a ela se era feliz. Rita sabia sorrir, se vestir e falar das mesmas coisas que seus amigos ricos e não dava opiniões para não estragar o network. Um dia recebeu uma ligação que o marido só escutou uma parte:

- Quando? Sim, irei.
- Aconteceu algo Rita?
- Sim. Uma amiga faleceu. Vou ao velório
- Alguém que conheço?
- Talvez. Ela era casada com seu amigo João Carlos.
- Não me lembro muito dela. Ele deve estar arrasado.
- Sim, ligue para ele. Bem, vou indo.
- Que horas volta?
- Volto amanhã. É em Minas Gerais, vou de jatinho.

Ele não se ofereceu para ir. Chegou ao velório e viu Joana com um vestido bonito, bem maquiada e cabelo feito, num caixão singelo com margaridas, suas flores preferidas. As velhas oravam murmurando com terços nas mãos. Havia um poster de Jesus Cristo com as chagas mais ao fundo. O lugar tinha um cheiro de casa velha com vela queimada.

- Então a senhora é a tal ex-amiga de Dona Joana?
Agora se referiam a ela como Dona Joana.
- Perdão?
- Só pode ser a senhora, ninguém se veste assim por aqui. Esse vestido que Dona Joana está foi ela mesma quem fez e sempre pedia pra nóis colocá nela quando fosse dessa. Parece um daqueles de gente das Europa, não parece?

Então se lembrou da última vez que quase viu Joana. Foi há uns dez anos. Rita estava com as amigas na piscina quando a empregada veio em tom baixo dizer alguma coisa. Pediu licensa e foi até a cozinha verificar pelas câmeras. Reconheceu Joana, mal vestida como sempre e com aquele corpo de mulher pobre.

- Ah sim! Esqueci que tinha marcado massagista hoje, pode dizer a ela para vir amanhã. Ah… e leve papel e caneta para ela anotar o telefone dela que perdi.

Imaginou as expressões das amigas ao verem Joana e achou melhor que fosse assim. Joana recebeu a mensagem, escreveu alguma coisa, entregou, agradeceu e partiu.
Foi até Joana e colocou um papel em suas mãos e disse para si “Perdão Joana, eu não te vi.”

O bilhete dizia: “Não sabia seu telefone, só lembrava do seu endereço de memória quando você fez a festa do casamento. Só vim dar adeus, vou voltar para Minas Gerais. Espero que você tenha se tornado o que sonhava quando eu era Joaninha e você Rita Sapeca.”
Havia uma torta sendo servida do lado de fora, quando alguém disse:
- Ela fazia uma boa torta.

Essa frase interrompeu suas memórias. Pegou o jatinho de volta para São Paulo. Notou uma loja de bicicletas perto de casa. Não lembrava daquela loja, bicicleta só teve graça quando voava com Joaninha.

Na semana seguinte, deixou uma carta para o marido:

“Minha missão está cumprida de filhos bem criados. O mais velho está pós-graduado e noivo, apesar de eu não gostar da minha futura ex-nora, que se parece com sua amante, que frequenta nossa casa e se diz minha amiga. O menor te fará companhia, você vai precisar, mais do que precisa de sua amante, que logo virá ocupar meu futuro ex-posto de rica e superficial. Não se preocupe, não estou levando seu dinheiro, nem mais nada do que você me deu todos esses anos. Quando saí de Minhas Gerais, queria um amigo e amante. Tudo parecia perfeito, nossas famílias sempre foram ricas e consentiram. Você não tem culpa, eu tinha dezessete anos e ainda andava de bicicleta e pulava corda, mas precisei de quase trinta anos para me conhecer. Agradeço por ter mantido meu luxo, dado aos nossos filhos o que há de melhor e pelos dois primeiros anos em que fomos apaixonados. Não se esqueça de matricular o menor na escola de artes que ele me pediu.”

Saiu e comprou uma bicicleta.

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