Todas as noites são iguais

Todas as noites são iguais. Que nada. Não pra ela. Nunca pra ela. Por mais que ela quisesse. Mas hoje vai ser diferente. Nunca tão ligada. Nunca tão ausente. A sensação de demônios fritos por um movimento tão simples. Aspiração. Pó. Inspiração. Euforia. Vingança.

Todas as noites o ofício imaculado de suportar corpos suados sobre, sob, ao lado do seu, não importa. Todas as noites aquele cheiro de derrota, de degradação, de falsas conquistas de egos dilapidados, ruídos. Fudidos. Não havia mais nojo. Talvez ainda não a resignação devida. De vida.

No início a história era vendida a qualquer comprador. Pai no hospital. Mãe desesperada. Nenhum dinheiro. Mesmo sendo aquele pai, não havia o que fazer. Havia, mas foda-se, já estamos aqui, que assim seja. Ele sempre estivera lá. À espreita. O farejador mais astuto da matilha. Ardiloso. Em uma semana, Sara se deitava sob o primeiro suíno. Tão difícil. Tão sujo. Aquele odor lamacento, pantanoso. Em um mês, uma falsa liberdade eufórica nasalada a fazia se sentir melhor. O Pai, à base de muitas trepadas suas, também se recuperava. Com tudo o que fez, não seria isso tão irônico. E além disso a porra do dinheiro também paga a merda dos seus luxos. Todos novos. Nunca precisara de nada daquilo e hoje vê seu rabo à prêmio para se manter com eles. Deles.

Mas hoje não. Hoje é o dia do acerto de contas. De todas as contas. Uma a uma. Haverá no mundo tempo suficiente para a redenção contra tantos diabos? Quem se importa. Quando o predador está faminto, à caça, resta fugir. E rápido. E naquele momento, a dama era puro ódio. Pura fome. Aquela antiga face angelical jazia a bem mais do que os sete palmos de sempre. Hoje, no entanto, seu rosto retrata uma tranquilidade eufórica, mas definitivamente sem a presença de nenhum anjo. E o mais sincero desejo de que no fim do dia não haverá demônios também. Não haverá nada.

Toca os vidros do carro com suavidade. Ama o carro. Passara a amar coisas. Nunca mais pessoas, até onde se lembra. Seu amor agora era artigo à venda, mas com prazo de validade. Sujo. Lavou, não está novo. Está apenas pronto para ficar ainda mais sujo. Nada nobre. É dela, faz como quiser. É o fim desse adeus. Como as luzes da cidade incendeiam sua íris. É melancolia isso que passe pela cabeça? Deve ser ansiedade. É preciso aumentar a euforia. Tráfego. Dane-se. Para o carro e se entope um pouco mais de pó mágico. Pirlimpimpim. Sorriso.

Sente o coração pulsar na ponta dos dedos enquanto acelera cada vez mais. Não é o lugar. A queima está próxima. Culpa? Nem mais, nem menos. Silêncio e solidão.

Estaciona. Chora a última lágrima. Beija calmamente cada uma das balas que usa para alimentar o calibre .22 em suas mãos. Abençoa o pequeno vingador que introduz junto de cada uma. Espírito livre. Estuprador. Acabou. Escolha dela. Elevador. Sua face no espelho tem agora os 15 anos que ela nunca desejara ter de novo. O tempo está voltando. Lentamente. Suja. Muito suja. Ele ri. Tapas na cara. Ameaças. Só nas promessas falsas de silêncio, o dor acaba. Amanhã tem mais. No mesmo horário. Ritual. Maldito. Que Baco se regozije.

Entra. Tira cada peça que cobre seu lindo corpo adulto. Que nosso destino seja selado e que nada me acompanhe. Nem ninguém. A mãe. Incrédula. Imoral. Vestes de volta. Não dessa vez. Inocente, não era. Hoje verás. Procura em volta. Ele aparece, enfim. Vai cadeira. Acelera. O puto não pode mais se levantar. Antes podia. Com seu cheiro lodoso de suor velho. Ciquento. Olhar vazio. Sem culpa. Sem remorso.

Um só estampido. Palavras balbuciadas antes. Durante. Era verdade. Só isso. Simples assim. Dependência. Medo. Consentimento. Estupidez. Agora nada mais importa. Agora é liberdade. Fantasmas, anjos, demônios, todos pra trás. Pura graça. Uma cabeça atravessada. Projétil voraz. Sorriso mordaz. Queima das bruxas. Todos reunidos. Progenitor. Benfeitor. Violentador. Protetora. Cúmplice. Fraca. Duas almas ao inferno na redenção da filha. Morta. A seus pés. Por sua própria mão. Que fiquem agora com essa culpa – cristã ou não. Que fiquem com o corpo. Eu agradeço e me despeço. Gatilho salvador. Gatilho doce. Rápido. FIM.

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3 Comentários

  • Maria Jussara escreveu:

    Profundo demais. Este demônio realmente precisava de um acordo para se libertar? E por que temos sempre estes demônios fantasmas a nos rondar? Escreva mais. Pois se cada demônio que vc libertar for deste jeito será maravilhoso poder compartilhar com você cada libertação.

  • Seus textos são fenomenais, principalmente este ultimo que mostra um realidade pouco discutida da população mundial, a libertação dos demônios e o prazer instantâneo simplesmente um obra prima literaria.

  • Me fala, quando sai o seu livro? haha’

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