Vontades Ocultas

Marta gostava de se exibir para homens na rua. Não quaisquer homens. Os sujos. Os suados.

Um fetiche incontrolável que surgiu desde que leu e assistiu “A Dama do Lotação”. E o fez dúzias de vezes. Sonhava em se entregar a esses personagens comuns que cruzavam seu caminho.

Marta não era linda. Aos 44 anos, tinha feições muito duras, marcantemente masculinas, mas tinha um corpo que os “seus homens”, como os tratava, achavam de “parar a obra”. A cintura fina e os quadris bem largos lhe valiam muitas e muitas cantadas baratas, sujas; sórdidas, por vezes.

Gostava de ser acochada nos ônibus, sentir aqueles corpos transpirarem aquele suor quente, notadamente fedido contra o seu corpo inteiro, sentir seus membros rígidos contra suas nádegas volumosas. Mas isso não a excitava tanto quanto parar ao telefone celular em frente a uma obra e deixar suas costas a exibição popular. Aquele certo frenesi entre os trabalhadores e as palavras do mais baixo calão pronunciadas a enlouqueciam. Imagens das mais perversas pululavam sua imaginação. Em sua cabeça, havia muita vontade de se entregar àqueles homens. Às vezes, a mais de um ao mesmo tempo.

Mas fora covarde até aquela tarde.

Marta é passado agora, depois que ele passou por sua vida.

Carlos tinha vontades secretas.

Teve uma vida ordinariamente comum. Mas sempre teve desejos com os quais não sabia lidar. Preferia escondê-los. Não era difícil em sua vida comum.

Operário de obra, 40 anos, nunca havia se casado. As mulheres que passaram em sua vida lhe levavam sempre dinheiro. Isso era importante para ele de uma forma ímpar. Pagar pelo sexo, apaziguava aquelas alucinações. Pagava sempre antes, em um ritual poderia se dizer, e aqueles ímpetos desapareciam. Frequentava as mais baixas zonas de meretrício, mas era o suficiente. Nunca por muito tempo, mas precisava pagar “àquelas vagabundas”, como dizia para o espelho. Os mais próximos achavam que ele poderia ser gay. Ou um tipo de assexuado, já que nunca fora visto com companhia feminina, tampouco masculina.

Não era homossexual, mas decidira que não se relacionaria com mulher alguma. Não sabia se podia controlar aquilo. Sua opção, quase celibatária, poderia ser considera honrosa, frente ao que se passava em sua alma atormentada. Sequer acreditava em Deus. O que poderia tê-lo ajudado, se tivesse associado tudo aquilo ao Diabo. Em vez disso, sabia que era dele. Que era ele. Os pensamentos eram originais e dele. Todas aquelas obsessões sexuais e sádicas lhe pertenciam.

No entanto, como em um passe de mágica, ao esfregar suas notas amassadas no corpo de seu pedaço de carne contratado da noite, ia se acalmando. Entregava o dinheiro à aviltada profissional e lhe fazia um papai-mamãe dos mais simples. Não gastava cinco minutos. Apenas para se aliviar. Nada mais. Não dizia até logo sequer. Jogava o preservativo usado em qualquer canto. Vestia-se e rumava para a tranquilidade de sua pequena casa naquele morro pacato.

Isso antes de Marta.

Após mais uma de suas exibições de gala em frente a uma grande obra, por voltas das cinco da tarde, Marta rumou para o ponto de ônibus. Carlos não havia visto o show. Estava se trocando, no momento. Em seguida, se arrumou e rumou também ao ponto. Estava desligado. Marta o vira saindo pelo portão. Notou logo seus braços fortes. Sentiu-se até um pouco fraca à medida que se sentia mais úmida.

O ônibus para no ponto. Carlos não notou Marta entre a multidão que aguarda as diversas conduções. O seu estava lá. Sentia-se premiado.

Em alguns minutos estavam lado a lado. Aquele não era o ônibus que Marta esperava. Mas ela estava lá. Possuída por suas vontades. Mas dessa vez era mais forte. Sentia-se o próprio demônio. Queria ultrapassar o último limite. Queria aquele homem dentro dela. De todas as formas que suas doentes cabeças pudessem imaginar. Não, Marta não sabia que na mente de Carlos havia tantos pequenos filmes de cenas tão violentamente perigosas. Mortais.

Carlos estava cansado como um leão que acabara de caçar e comer um antílope. Toda a volúpia de Marta ainda não havia disparado seu gatilho. Estava especialmente afastado de seus pensamento torpes aqueles dias. Mas uma pressão contra sua mão que segurava um dos bancos do ônibus o fez balançar a cabeça de leve, como que acordando.

Não havia lugares para se sentar, mas não havia também tantas pessoas assim. O disparo do gatilho fora dado. Marta se segurava em um daqueles canos de metal que sobem dos bancos até o teto dos ônibus e permitia que sua vagina, sob aquele vestido vermelho de tecido tão fino, tocasse as costas da mão de Carlos de quando em quando; a cada chacoalhar daquele carregador de gente comum. Aqueles dois não eram como todos os outros que ali estavam. Se bem que a isso nunca poderá se dar certeza.

Em pouco tempo a mente de Carlos fervia enquanto sua mão fazia pequenos gestos de afastamento para trás. Podia sentir claramente a forma dos grandes lábios da genitália de Marta. Não havia nenhuma lingerie entre as costas de sua mão e aquela umidade abundante. Só aquele vestido.

Aquele maldito vestido habitara todo e qualquer pequeno filme mental gerado pelas obsessões de Carlos. Um fino e solto vestido vermelho. Não tão justo. Não tão curto. Era aquele, ele não tinha dúvidas. A hora havia chegado. O futuro dos dois, desenhado nas imagens talhadas nos pensamentos de Carlos, era inexorável.

Marta mantinha os olhos fechados. Era toda desejo. Sentia uma sensação de orgasmo se aproximando que exigia uma concentração inimaginável para que não deixasse seu corpo explodir e terminasse em gritos enlouquecidos dentro da lotação. A própria palavra lotação bradava em seus pensamentos agora. Todas aquelas linhas rodriguianas. Todas aquelas imagens de Neville de Almeida. Tudo aquilo agora era real. Era o “seu” mundo real. Todo aquele furor que latejava desde entre suas pernas e se espalhava por seu corpo até toma-la inteira era real. Não podia ser diferente. Sentia-se completa. Não, ainda não. Faltava se entregar àquele homem. Àquele sujo-imundo desconhecido que fedia a um suor nauseante mascarado por uma lavanda barata.

Nenhuma palavra. Por quase uma hora aquilo prosseguiu. Entravam e saiam pessoas e eles estavam lá. Carlos puxa aquele nylon e indica que vai saltar no próximo ponto. Marta não faz ideia de onde está. Pouco importa. Vai seguir aquele macho até onde for necessário.

Carlos passa por detrás de Marta e a faz sentir o que na cabeça dela é o que a espera, em breve. Marta enlouquece com o que sente em suas nádegas. Pensou que ele foi agraciado pela genética. Ele caminha para a porta. Ela reluta por um instante. Instinto de sobrevivência? Segue seu desejo. Segue Carlos. Segue seu destino que acabara de ser traçado em outra mente.

Carlos sequer olha para trás. Caminha em direção ao cubículo em que vive. Não é longe do ponto de ônibus. Existe apenas uma ladeira o separando da porta de casa. E de suas coisas. As coisas que não saem de sua mente.

Marta agora o segue da forma mais irresponsavelmente irresoluta que pode haver. Não havia espaço para dúvida naquele mar de excitação e desejo. Seu corpo treme por inteiro. Suas pernas só respondem aos comandos dos instintos de seu olfato que segue o odor daquele reles operário. O reles novo dono da sua vida.

Carlos não olhara uma vez sequer para trás. Se ela decidisse entrar lá, que fosse por sua própria conta. A partir dali ela seria inteira sua. Somente sua. Uma única vez sua. E de mais ninguém. Girou lentamente a chave depois de passar pelo inferno para introduzir a chave, dada a tremedeira de suas mãos.

Entrou. Fechou a porta. Não a trancou. Menos de um minuto depois viu a maçaneta girar. Marta e o vestido de seus pensamentos estavam lá. Parados ao lado da porta entreaberta. Ele apontou de leve com uma das mãos para a porta. Marta entendeu o recado e sem relutar fechou a porta. Trancou-a. Trancou-se no mundo de Carlos, seu escolhido algoz e que lhe seria anônimo até o fim.

Carlos se aproximou dela lentamente. A sensação de Marta era de eternidade. Ela decidiu fechar os olhos. Fosse o que fosse queria muito. Carlos afastou seu cabelo do rosto. Apenas o suficiente para deixar sua barba, por fazer e cheirando a cigarro barato, deslizar no pescoço de Marta. Uma de suas mãos tocou de leve sobre um dos seios dela. Aquilo era fato. Um aroma agridoce se espalhava no quarto. Vinha das pernas de Marta. Seu desejo era tamanho avassalador que ela gotejava sua lubrificação por suas pernas. Era como uma nascente de rio.

Em poucos momentos haveria outro aroma misturado àquele. Carlos começou a passar sua língua áspera por todo o pescoço de Marta. Não era úmida. Ela sentia um pulsar entorpecedor em cada pequena fração de seu corpo. De súbito, ele puxou as pernas de Marta para cima. Ela as cruzou em torno dele. Estavam encaixados agora. Ela se mantinha de olhos fechados. Ele caminhou lentamente para sua cama enquanto lambia os lábios trêmulos de sua posse. Não que ela fizesse a menor ideia, naquele momento, da forma através da qual essa posse se manifestaria.

Marta foi arremessada sobre o colchão. Carlos permaneceu de pé, olhando fixamente para aquele mar de vermelho espalhado em sua cama. Vermelho. Muito vermelho. Feito Sangue. Marta abriu um pouco os olhos. Ele colocou o dedo sobre os próprios lábios pedindo silêncio e sinalizou que ela esperasse e fechasse os olhos. Tudo com as mãos. Nenhum som. Só o das respirações ofegantes. Carlos se virou na outra direção, fez uma expressão de bastante dúvida, como que se perguntando como dar jeito em algo. Ficou parado uns segundos. Sorriu. E andou por aquele muquifo até o canto onde era a cozinha – área de serviço. Não existiam paredes dividindo os cômodos. Apenas o banheiro era separado. Tratava-se de um grande cômodo com um sofá rasgado de três lugares, um guarda-roupa de aparência surpreendente nova, uma televisão bem grande que podia ser vista de qualquer lugar, a cama onde Marta agora estava deitada, geladeira e fogão velhos, e uma mesinha de centro, onde havia umas dez latas de cerveja vazias.

Carlos pegou uma faca sobre a pia, caminhou mais dois passos e pega uma mangueira que estava dentro de um balde. Comprou aquela coisa e nunca usou. Jamais lavou a calçada como era seu plano. Cortou duas tiras de mais ou menos meio metro cada. Era um plástico fino bem vagabundo. Aquilo custara pouco de qualquer forma. Mas agora valia ouro. Não havia mais nada que cumprisse a função. Pelo menos tinha certeza de ter a fita prateada. Encontrou sob a pia.

De volta à cama, já sem camisa, mas ainda com a calça jeans encardida, ele se arrastou desde a parte mais baixa da cama e foi dando lambidas bem molhadas, quase cuspidas, no corpo de Marta. Ela estava entregue. Agora tremia menos e começou a soltar uns poucos gemidos que escapavam por entre os dentes travados de excitação, medo, ansiedade, desejo. Ela respirava bem fundo. Ele agora mordia sua barriga e mamilos por sobre o vestido. Mas tudo bem de leve. Por enquanto era tudo bem leve. Ele já deixava seu corpo pesar sobre o dela. Esticou as mãos daquela mulher para cima e com muita calma começou a enrolar suas mãos, uma de cada vez, com as tiras de mangueira.

Marta era um misto de muito medo com muita volúpia, mas decidira deixar aquele desconhecido controlar as ações. Era isso que queria. Ser usada. Abusada. E ele já iria fazer isso em proporções inimagináveis.

Carlos concluiu a primeira parte do que estava definindo em sua cabeça como preparação. Agora as mãos dela estavam atadas a cabeceira da cama. Muito bem atadas. Não havia mais nada que Marta pudesse fazer, a partir daquele momento, para voltar a ter qualquer tipo de controle sobre aquele jogo. Era o jogo dele. Um pouco de diversão para a dama, Carlos, pesou enquanto metia sua língua molhada na boca de Marta. Suas mãos navegavam por aquele vestido pressionando todo o corpo dela. Queria ouvi-la gozar enquanto ainda a permitia ser sonora. Aquilo já acabava e a fita prateada para lacrar aquela boca já repousava na única mesa de cabeceira que havia.

Foi direto ao ponto. Meteu-se sob o vestido com as mãos apertando fortemente os seios de marta. Chupou-a como nunca chupara ninguém antes. Nunca houve tanta vontade. Nunca houve tanta umidade também. Nunca se importara com as putas; jamais as chupava. Marta sentia todos aqueles movimentos contra seu clitóris, para dentro de sua vulva. Continuava de olhos fechados como fora comandada a permanecer, mas agora gemia alto. Gritava para ele continuar, para parar. Estava histericamente feliz. Sentia sua pele envolta por uma camada de chamas. Tudo ardia. E aquilo estava chegando. Carlos agora pressionava seus mamilos com apenas o indicador e o polegar de cada mão. Mas mexia forte. Apertava muito. Aquilo causava dor. Uma dor que Marta estava adorando. Mais por vir. Ele jogou as pernas grossas dela para cima. Estava, também ele, em êxtase. Mergulhava seu rosto inteiro naquilo que era, naquele instante, seu maior tesouro da vida. Naquilo que ele tinha que aproveitar ao máximo, dada sua pouca expectativa de continuidade.

Marta goza, enfim. Não é bem um gozo, é uma erupção. O lençol já havia se transformado em charco. Agora era um lago. Ela berrava, se contorcia, puxava a cabeça de Carlos para dentro de si, com os calcanhares no pescoço dele, já que não havia mãos disponíveis. Silêncio. Agora estava praticamente desmaiada, sentindo as sensações do pós-gozo. Daquele arrebatamento que a consumira e levara ao mais próximo que conhecera do paraíso. Nada em sua mente agora. Carlos se ajoelhou e ficou lá parado, assistindo Marta por uns instantes. Foi buscar suas coisas.

Abriu uma das portas do seu guarda-roupa, abaixou-se até a última gaveta e pegou uma espécie de pacote. Na verdade, era um pano preto que envolvia algo. Ainda estava com o pênis tão ereto quanto no primeiro momento que tocou Marta. Sua excitação rumava para o ápice. Agora ele ia fodê-la de verdade. Isso é o que estava em sua mente. Sentia-se feliz.

Voltou para a cama. Marta seguia de olhos fechados. Seguia deslumbrada. Esperava sem mais nenhuma ansiedade pelo que viria em seguida. Agora tanto fazia. Depois daquilo que houvera, só lucraria. Era um bom pensamento. Não era verdade. Carlos colocou seu “kit” no colchão. Tocou o rosto dela levemente. Ela sorriu. Ele também. Pegou a fita, puxou um pedaço. O barulho fez Marta abrir os olhos. Ela viu a cena, mas ficou confusa. Não entendeu bem a ideia por trás daquilo. Carlos não conseguiu arrancar a tira com os dentes. Calmamente desenrolou o pano preto, pegou uma tesoura e cortou o pedaço. Marta não conseguiu identificar o que mais havia ali, mas seu olhar agora era um misto de incredulidade e medo. Ia perguntar a ele que porra ele estava fazendo. Não houve tempo. Carlos colou a fita em sua boca.

Saiu em direção à cozinha. Marta ronronava em súplica. Tentava em vão se libertar dos pedaços de mangueira que a mantinha amarrada. Em vão. Isso só lhe valia dor. Mas como ia poder pedir a ele para parar e não fazer seja lá o que ele estivesse planejando. Não estava mais a fim. Carlos voltou com a mangueira. Marta se debateu mas não pôde evitar ter seus pés amarrados aos pés da cama. Não estava muito esticado, o que permitia ainda algum movimento. Nenhum que a pudesse ajudar, no entanto. Agora suas pernas estavam levemente dobradas e a abertura entre elas era a suficiente para receber sexo oral ou ser penetrada. Foi isso que seu futuro algoz idealizou quando prendeu seus pés.

Olhos debulhados em lágrimas. Assim estava Marta. Olhos assustadoramente felizes. Assim estava Carlos. Ela agora apenas acompanhava cada movimento dele. Com uma angústia nunca antes sequer imaginada. Estava ainda entregue, mas agora não mais por opção. Era uma tetraplégica muda. Como se fosse alguém que perdeu a totalidade dos movimentos, mais ainda ouve e vê. No entanto, não consegue emitir nenhuma opinião. Assiste Carlos como que pelo buraco da fechadura. Chora. Reza. Emite sons de súplica. Carlos ignora. Está envolto em seu próprio fascínio pela sua coleção bizarra que montou ao longo do tempo. A cada sonho. Fazia aquilo sem ter a perspectiva de que aquilo um dia fosse se tornar realidade. Tocava lentamente deslizando a mão sobre cada um dos seus objetos de autorrealização. Era chegado o dia.

A tesoura já havia sido revelada à Marta. Agora o ritual de Carlos incluiria uma apreciação pública de tudo que havia lá. Ele estava praticamente autista; afastado do mundo. Erguia cada uma das peças, movendo-as no ar. Uma por uma. Parecia um desfile para sua vítima. Um rolo de fio de nylon para pesca. Um vibrador preto bem grosso e comprido. Um bisturi médico. Um alicate de unha. Uma chave de grifo. Um pequeno saco plástico com agulhas de costura. Outro pequeno saco plástico com sal. Um vidro escuro de remédio, contendo um líquido que não dava pra identificar. Não havia rótulo. Uma pequena solda elétrica. Um revólver calibre trinta e oito. Seis balas. Um arsenal que nunca teria se desnudado se Marta não tivesse entrado naquela casa. Se ela não tivesse escolhido aquela obra naquele dia.

A sensação de pavor da pobre mulher inundava o casebre. A felicidade do gozo farto havia partido. Há pouco tempo, na verdade, mas parecia distante séculos naquele momento. Na mente de Marta um rio de questionamentos. Seu corpo cuspia suor mesmo em uma temperatura amena; quase fria. Cada parte tremia. Seus poros saltavam. Não tinha certeza de nada, mas tinha certeza que aquilo era um engano, uma brincadeira e já acabaria. Sabia que não. Rezava pelo sim.

Carlos ligou a solda elétrica na tomada e se dirigiu muito carinhoso à Marta (ele era genuinamente sincero naquele momento):

— Você nunca se divertiu tanto quanto vai se divertir hoje. Já, já, começamos. Preciso desse brinquedo aqui bem quente.

Uma tormenta de pânico. Marta se sacode o mais que consegue. Precisa se libertar. Sente que seu pulso direito escorregou um pouco para baixo. Força o quanto pode. Fere-se. Volta a tentar gritar. Em vão. Ele está no controle. O que fazer agora? O que vai acontecer? Um milhão de pensamentos por segundo. O cérebro da infeliz parece fritar em antecipação à tragédia iminente.

Um ganido abafado explodiu levemente pelo ar. Mal foi percebido. O maior grito que aquele bairro já havia visto, simplesmente não conseguira furar a fita prateada que severamente cobria a boca de Marta. Havia agora uma estrela desenhada em sua perna direita. Uma estrelada desenhada com a ponta aquecida do ferro de soldar.

Estrelas e mais estrelas. Em algum momento, Carlos desenhava muitas estrelas. As estrelas o levavam a outra dimensão. As estrelas o livravam daquelas memórias que um dia se esconderiam no fundo da sua alma. Em neurônios muito atuantes, mas silenciosos. Assim, as surras, o som dos repetidos estupros de seu padrasto sobre sua mãe, as torturas físicas e mentais simplesmente desapareciam. Cadernos e cadernos cheios de estrelas. Estrelas desenhadas na madeira do barraco. No teto de amianto. No seu coração. Dinheiro esfregado na cara de sua mão. Isso e cusparadas. Por que ela aceitava aquilo. Por ele. Tinha que ser por ele. Não havia mais nada. Tudo aquilo só era possível porque ela queria que ele tivesse uma condição melhor. Ele carregou aquela culpa pela vida, sem se dar conta. Agora era ele o algoz em uma espécie de rendição doentia. O espírito daquelas desventuras o tomara de vez. Abafou-o por anos, mas agora era ele o dono do cuspe. Ele era o senhor poder.

E ali, o corpo de Marta. Ela não era mais do que isso para ele. Todo desejo e luxúria daquela mulher agora lhe custariam um grand finale, pois sempre quisera ser possuída por aqueles homens. Agora o pior deles a usaria como válvula de escape. Sem escapatória, ela apenas sonhava em desmaiar.

Não era possível. Aquela ardência em sua perna tornava a tarefa impossível de realizar. Por que Deus aquilo estava acontecendo era a pergunta ininterrupta de sua mente. Nenhuma resposta dos céus. Só a imagem de Carlos em seu momento de júbilo. Carlos havia ido a cozinha. Trouxe gelo e agora passava carinhosamente na coxa ferida de Marta. A pedra em sua mão redesenhava, continuamente por cima da queimadura, a estrela de cinco pontas. Era uma estrela quase perfeitamente desenhada. Fizera algumas milhares ao longo da vida. Aquilo realmente aliviava e Marta entendia menos do que nunca o que se passava. Seus olhos estavam secos. Não havia mais lágrimas para chorar.

Carlos ligou o vibrador e o posicionou levemente contra o clitóris de sua posse momentânea. Marta não queria sentir nada bom, mas não era possível. Aquilo era incrivelmente bom. Não podia ser mas assim era. Em pouco tempo, com o gelo sendo passado em sua coxa e com aquela vibração contínua, sentiu-se melhor, elevou-se daquilo tudo por alguns segundos e teve mais um orgasmo fabuloso. Mais um orgasmo memorável. Pena que aquelas memórias se perderiam em tão pouco tempo. Mas era um grand finale de qualquer forma. Nada na vida poderia superar aquilo.

Um diretor produzindo sua obra-prima. Aquele homem se sentia exatamente assim. Estava executando o filme que assistira por anos; por décadas. Marta estava em um semi-cochilo pós-orgástico, exatamente como deveria ser. Mas seu passaporte para o espaço precisava de mais estrelas. Ela deveria brilhar muito. Conduzí-lo ao espaço requereria bastante mais esforço daquela dama do lotação aprisionada.

— Se você não se mexer isso vai ser prazerosa ao invés de doloroso. Nós estamos viajando. É só isso. — Carlos sussurrou no ouvido de Marta. Empurrou seu rosto para o lado, deixando-a com perfil direito virado para cima. A ponta afiada do bisturi começava a gravar a imagem de mais uma estrela na face de Marta. No primeiro corte, travou os dentes o mais que pôde. Sequer percebeu que ferira sua boca por dentro. Agora, o gosto de seu sangue a embriagava. Respirar nunca fora tão difícil. Um rio nascia de seus olhos. Um gemido contínuo seguiu enquanto o artista trabalhava. Marta já não se debatia mais. Fim da obra, mas dessa vez o gelo não veio. Ao invés disso, seu algoz cobriu de sal cada parte daqueles dez cortes que geravam aquela estrela. Era uma sensação de dor lancinante. Não sabia se maior do que a que tivera minutos atrás. Só sabia que era muito intensa. Mais do que podia suportar. Mais do que fizera por merecer, mesmo se só se colocassem seus atos ruins em uma balança, ignorando simplesmente tudo de com que houvera feito.

Carlos se deitou ao lado de Marta com a cabeça sobre seu braço direito e começou a olhar para o teto. O olhar vago. As imagens eram borradas mas havia algo de conhecido ali. Estrelas imaginárias forravam seu teto agora. A respiração ofegante e chorosa de Marta era familiar. Ele não se lembrava. Era a mesma de sua após cada um dos estupros que era obrigado a presenciar. Na verdade ele só ouvia aquilo tudo com a cabeça sob dois travesseiros. Não adiantava muito, na verdade. As imagens moravam em sua mente, mesmo com toda força que fazia para fechar os olhos. Um pesadelo sem fim. Quem no mundo castigaria uma criança passando sal em seus olhos a não ser aquele homem que os sustentava.

A roda do ciclo vicioso girava agora sobre Marta. Carlos puxou bastante ar, se virou sobre ela e começou a lhe lamber e chupar. Ficou muitos e muitos minutos, infinitos para ambos, com sua língua incitando, excitando, enlouquecendo aqueles mamilos intumescidos. Não havia como negar a satisfação do corpo de Marta, independentemente da dor que a corroía. Havia um duelo de instintos dentro daquele corpo atado àquela cama. O instinto do prazer absoluto aniquilava o da autopreservação naquele momento. Marta se entregava novamente por inteira para Carlos. Ele ficou de pé e lentamente fez descer seu jeans. A cueca acompanhou a calça e agora Marta se deslumbrava com visão do membro ereto do seu carrasco. Era tudo que ela esperava quando o sentiu por trás dela no ônibus. Por mais absurdo que soasse, ela ainda esperava por aquilo dentro dela.

Dessa vez não houve mais delongas. Carlos voltou para cima de Marta. Penetrou-a sem ter dela nenhuma resistência. Passou os braços por baixo dos dela e agarrou seus cabelos de ambos os lados. Começou um movimento de entra e sai frenético. Lambia os cortes do rosto dela. Aquele sal temperava sua língua e o enlouquecia ainda mais. Acelerava. Em menos de cinco minutos, ela estava de novo em êxtase irrestrito. Seu gozo veio ainda mais forte. Sua respiração estritamente nasal era um tanto trôpega. Seu corpo queimava, tremia. Fechou os olhos e relaxou. Cinco minutos mais e sua vagina estava repleta do sêmen daquele homem que a destruía aos poucos e pelo qual não conseguia nutrir nenhum tipo de ódio. Ao contrário, estava apaixonada de uma forma estranha. Era um misto de desejo e gratidão pelo momento proporcionado. Em sua cabeça ela começou a trata-lo por meu homem, já que não sabia o nome dele. Carlos deixou-se desabar sobre Marta. Ria baixo. Entredentes. Mas algumas lágrimas vindas de seus olhos pingavam na cama. Seu lado consciente achava aquilo completamente descabido; imotivado.

Ficou ali pesando seus noventa quilos sobre aquela mulher que não conseguia esconder sua felicidade por mais dez, quinze minutos. Foi ao banheiro. Seu líquido agora escorria de dentro de Marta para a cama.

Aquele momento havia feito Carlos mudar seus planos. Na verdade, no segundo do gozo, a imagem de sua mãe e padrasto mortos veio à sua mente. Eles morreram em um acidente de ônibus do qual ele escapou. Aquele imagem sempre existiu em algum lugar de sua cabeça, mas não se manifestava de fato. Eles nunca haviam morrido de fato até aquele momento. Ele agora estava satisfeito além de onde podia aguentar. Estava liberto. Mas em sua cabeça, sua liberdade total ainda não havia chegado. Decidira ignorar várias partes do seu filme real e pré-concebido e avançar para o final. Um momento onde sua vítima deveria mudar de papel.

Sentou-se na cama, olhou para ela com um olhar piedoso e falou:

— Acho que está bom. Algo me diz para ir logo para o fim da história. Você mudou minha vida, sabia? E agora você vai fazer algo ainda mais importante. Sei que enchi seu coração de ódio. Sei que você achava que ia morrer. Pra te falar a verdade, eu nunca pensei nisso. Mas, engraçado, decidi não enfiar mais todas essas agulhas nos seus peitos. — Ele jogou o saco de agulhas sobre sua barriga. Marta agora era pura apreensão. Tinha o olhar arrebatado pelo palestrante. Estava fascinada. Ele respirou profundamente, como que ainda se decidindo. — Era pra você sair bem mais machucada daqui. Tá vendo isso aqui? — Mostrou a ela o alicate de unha que levou até o mamilo direito. — Era pra arrancar essas coisinhas aqui. — Tocou com a ponta do alicate naqueles mamilos ainda petrificados do tesão de minutos atrás. Marta fazia que não com a cabeça, com um olhar aprovador, como que sugerindo que ele não devia fazer mesmo aquilo.

Carlos, de súbito, arranca a fita prateada da boca de Marta.

— Mas não quero ouvir a sua voz, tá entendendo? Nenhuma palavra. — Na verdade, tudo que ela fazia naquele momento era respirar ofegantemente pela boca recém-libertada e lamber os lábios agora feridos pelo puxão da fita. Ela assente com a cabeça, prendendo os lábios para deixar claro que entendeu. Agora ela era inteira um ponto de interrogação. Ele havia parado mesmo? Por quê? O que ia acontecer agora? Carlos prossegue:

— Isso não é mais importante. — Lançou a chave de grifo contra a porta do banheiro, causando um estrondo que travou todos os sentidos de Marta por alguns segundos. — Se bem que não usar isso até que me chateia um pouco. — Ele pegou o vidro escuro de remédio. Sorri para si mesmo. — Isso é ácido. Ia funcionar que ia ser uma maravilha. Sua perna que eu não marquei ia ficar tão bonita que só vendo. — Fechou os olhos. Sorriu um instante, mas seu rosto rapidamente travou, como que se estivesse sentindo dor. Era dor. Não física. Era mais forte que isso. Não conseguia visualizar a cena com nitidez, mas a voz de sua mãe gritando agora tomava sua mente. O maldito marido de sua mãe certa vez, amarrou-a pelo pescoço com fio de nylon e a prendeu na cama. Covarde. Resolvera defender a mãe. Apanhou como nunca. Aquele desgraçado tinha acordado com um bom humor estranho e raro de ver. Tivera consertado algo na cozinha. Até deixou o moleque que via como problema ajudá-lo. A chave de grifo que manusearam juntos agora era usada contra ele. Apenas duas pancadas. Uma marca para sempre. Nada em seu corpo. Tudo em sua mente. Um mundo de neurônios que gravavam a informação e se trancavam no fundo daquele cérebro devastado. Em seguida, pingou ácido no corpo daquela covarde. Ambos, cada um a seu jeito, eram igualmente covardes. Aquela pobre infeliz aguentou aquilo tudo até a morte.

Marta agora estava mais calma. Nem era possível mais ouvir sua respiração. Como que se ela estivesse lendo aquela face paralisada, presa em seus pensamentos. Entendendo seus fantasmas. Sentia por ele, apesar de tudo, um amor incondicional. Um amor improvável e incontrolável. Era mesmo amor? Não sabia, mas queria tanto cuidar dele. Sabia que poderia ficar com ele para sempre. O sempre que fosse preciso. O sempre que fosse possível.

Carlos olhou para o revólver. Encheu o peito de ar. Expirou. Tão forte que foi marcantemente audível. Tocou levemente o metal frio. Deslizou a mão até as balas. Pegou a tesoura com um movimento muito rápido. Tentou cortar o pedaço de borracha que prendia a perna direita de Marta. Não conseguiu. Levantou-se e caminhou lentamente até a cozinha. Trouxe uma faca. Nada mais preocupava a dama. Ela só assistia e esperava. Ele libertou suas pernas e seus braços. Ela optou por permanecer em silêncio. Apenas sentou-se. Ignorou seus ferimentos. Apenas massageava seus pulsos levemente. Sentia um bem-estar vindo da circulação sanguínea reestabelecida. Mas era inteira de Carlos. Assistia-o como a um filme de muito interesse. Um filme que deveria ser de horror. Que deveria apavorá-la, mas agora sentia que o pior estava no passado.

Uma a uma, as balas foram introduzidas no tambor do revólver. Rapidamente, aquela armação metálica, até então nula, transformou-se na arma letal. Agora estava pronta para viver o papel para o qual fora concebida.

— Estamos quase lá. Agora preciso que você me liberte de vez. Você não pode errar e também não tem escolha. Eu faria isso por mim mesmo, mas você também precisa aliviar seu coração por tudo que eu te fiz. — Ele queria dizer que aquela máquina em sua mão era o único caminho para a rendição de ambos. Não tinha vocabulário suficiente. Estava nu de corpo e alma.

Colocou a arma à frente de Marta. Caminhou até seu armário e pegou o último item que faltava para compor sua história. Nada faltou a sua bem engendrada produção. Uma fita preta de pano. Voltou à cama e sentou-se à frente do revólver. Ela não havia tocado na arma. Não havia se mexido, na verdade. Marcos olhou para trás. Acreditava que aquela era a última vez. Sorriu com a face. Nada de dentes à mostra. Cobriu os olhos com a venda improvisada.

— Na cabeça. Salva a gente. Boa sorte. — Esticou a coluna e cruzou as pernas uma sobre a outra. Uma flor-de-lótus entre ao destino. No aguardo da bala que o libertaria daquele mundo no qual um dia imergira através daquela dupla de desajustados. Aquela mulher de vestido vermelho iria libertá-lo em pouco tempo.

Ela tocou o revólver. Frio. O cabo de madeira não era tão frio, mas sentia uma neve espessa cobrir seu corpo. Todo o fogo que existia aquela noite inteira – não fazia ideia de que horas eram – havia partido. Salva a gente. Aquela frase se repetia ininterruptamente em sua cabeça. Ela realmente poderia salvá-los. Se isso significasse disparar aquele revólver contra a cabeça do seu amado, sim. Havia opções? Talvez não. Ela pegou o revólver. Carlos estava impassível no aguardo do seu destino que recentemente desenhara. Aquele não era o final do seu filme imaginado. Mas às vezes as coisas mudam no set. Ali tudo mudara. Ali era real. Ali ele queria se livrar de tudo.

Um disparo.

Um corpo caído para o lado.

Uma cabeça dilacerada.

Sangue derramado.

Marta realmente conseguiu disparar a arma.

Sem nenhum medo. Sem nenhuma culpa. Sem nenhuma mágoa, ela puxou aquele gatilho e se salvou. Esperava ter salvado Carlos também. A seu jeito. Da sua forma. Com toda a paixão que poderia sentir. Com todo aquele estranho amor. Esperava que fosse o fim daquelas vontades ocultas. Tinha certeza por ela. Fizera uma prece final por ele. Tudo ia correr bem.

Assim Marta posicionou aquela arma contra a própria cabeça, um pouco acima da orelha direita e disparou. Fim. Para ela.

Carlos escutou o disparo. Continuava lá. Não entendeu. O som baixo da queda do corpo daquela mulher entrou em seus ouvidos e ele rapidamente arrancou a venda e virou-se para trás. Lá estava Marta. Morta em sua redenção absoluta. Completa. Única. Uma prova de amor como jamais houvera. Tocou os cabelos dela com carinho. Beijou sua testa. Colocou sua calça jeans e a camisa. Saiu por aquela porta pela última vez. Nunca voltaria.

Share

Comentários no Facebook

comentários no Facebook

7 Comentários

Deixe uma resposta

Seu email nunca é divulgado.Campos obrigatórios são marcados *