A Mudança – parte I de III: Seppuku dos Sentimentos

Raramente uma guerreira se apaixona, algumas nunca. Sentimentos são domados para servir. Treino e foco. Longos anos trabalhando os mais profundos sentimentos e corrigindo maus hábitos. Kaizen ao acordar.

Se recolhia depois de uma batalha para meditar em shodo nas folhas de papel de arroz o aprendizado do dia. Batalhas parecem iguais, não são. Ficar em silêncio acalma pensamentos.

Uma noite, porém, achou que não deveria ser tão rígida e resolveu comemorar a vitória. Foi lá que se envolveram, uma, duas e outras breves vezes, sendo a última como o inebriante ato de tomar uma vida, fugaz silêncio preenchido com overdose de prazer. Ela se entregou sem medo, uma guerreira não tem medo do novo, do desconhecido, ela se excita, quer findar o sentimento em si sem construir o futuro comum das pessoas comuns, deixando o caminho livre sem apegos para poder se mover em qualquer direção. Por que resistir quando ele dava sinais de que também queria e que só era preciso ela lutar por isso?

Não esperava que coexistissem em um duas pessoas: uma leciona elevados princípios do bushido aos leigos das aldeias e a outra, na vida pessoal, era um leviano. Dualidade mascarada. Não se importou com os sentimentos e com a imagem dela diante dos outros. Abriu sua alma e com a mesma suave mão finalizou em um golpe desnecessário, ela já havia decidido partir depois de ver a verdade nos fatos. Quis machucá-la profundamente para ter certeza que tinha o controle – “Me diverti como faço na boemia, você é de graça, o problema é me livrar de sua inconveniência. Sou livre e feliz, vou e venho sem dar satisfações e sempre me apaixono, obviamente por quem é igual a mim, o contrário é estupidez. Especiais escolhidas com quem tenho prazer de publicamente registrar, era isso que eu tinha de sério para lhe dizer, mas não acho necessário quando meu desprezo é evidente, no doce jeito que tentei te avisar. Não fique triste, você não é tão ruim quanto acha, aprenda a viver garota.”

A lua tem dois lados, um iluminado, outro escuro. Como pode se enganar? Onde deixou seus princípios? Procurou nos papéis de arroz, mas ali só havia coragem, determinação, superação e dignidade em kanjis com desenhos de treinos. Leu seu primeiro escrito, quando ainda era criança – “Uma flor de lótus vive sobre a lama sem se contaminar, pura e desperta na realidade dos fatos.” Havia esquecido esse.

O tigre escondido na neblina assistiu.

No silêncio da primeira hora da madrugada, água do calmo rio, animais dormindo, sentada em seiza, tomou dois goles de saquê de crisântemo que aqueceu o frio anestésico.

Lentos movimentos, perfeição dominada ao longo dos anos no caminho do arco e da espada.

Em dois movimentos abriu a barriga. Mas os sentimentos não saiam. Com a mão esquerda arrancou o estômago, pronto, não mais sentiria aquela fome. Estômago pequeno, pouca necessidade.

O fígado se sentiu aliviado junto com os rins. Nada mais a purificar, fim da escravidão e da raiva.

Todo o resto foi arrancado e se sentiram ultrajados. Não se deve ignorar os pequenos detalhes que na verdade são evidentes.

A vagina não queria sair, gritou. Foi por ali que os sentidos se contaminaram. Sem lágrimas, a dor intensa não podia se revelar, seria vergonhoso.

Choraram os pulmões de tristeza na despedida.

O coração aliviado finalmente pode ser visto como era sem a confusão causada pelos falsos sentimentos alheios. Decidiu levá-lo.

Vísceras expostas, mudança da carne para dentro. Urubus aguardavam o momento certo para limpar. É perfeita a natureza, não deixa rastros.

Levantou o espírito da carcaça fria. Caminhou nu com o coração nas mãos até a beira do rio.

Menina balseira:

– Pagamento?

– Só tenho o arco e a espada ao lado do corpo.

– Você sabe que deveria trazer minhas moedas. Aceitarei no seu caso, a mãe tigre me contou sobre você. Pegarei depois que os espíritos não estiverem mais rondando, assim não se apropriarão da carcaça. Para onde vai?

– Mãe tigre? Onde aprenda a não errar duas vezes.

– Te deixarei no templo.

– Vai demorar a travessia?

– Depende de quanto pesa sua bagagem.

– Trouxe apenas o coração.

29/09/2012

Clique aqui para ler a segunda parte.

 

Referências:

Kaizen: http://pt.wikipedia.org/wiki/Kaizen 

Bushido: http://pt.wikipedia.org/wiki/Bushido 

Seppuku: http://pt.wikipedia.org/wiki/Seppuku

Seiza: http://en.wikipedia.org/wiki/Seiza

Shodo: http://www.fjsp.org.br/guia/cap05_c.htm

Medicina chinesa: http://www.medicinachinesapt.com/filosofia.html

Zen Budismo: http://pt.wikipedia.org/wiki/Zen

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