A Mudança – parte II de III: A forma do vazio

O barco começou a se mover. Ficou preocupada com o tempo que levaria, a balseira era uma menina pequena, aparentava ter sete anos. “Assim não sairei daqui. Paciência, é o que tenho.”

Caso ainda não tenha lido,
clique aqui para ler a primeira parte.

– Você me julga sem antes me conhecer.

– Como assim menina?

– Porque sou pequena você acha que não tenho força para remar, você perde tempo julgando aos outros e esquece de você.

– Não pedi sua opinião e quem me julga é você ao pensar que eu o fiz.

Riu a menina.

– Falando sozinha?

– Como?

– Você pensava tão alto que pude ouvir.

– Você estava conversando comigo, não estou louca.

– Tem certeza? Então, olhe dentro de você. O que vê?

– Não vejo nada. Não há nada dentro de mim, deixei tudo.

– Se não tem nada, por que pensa tanto? Você está cheia de pensamentos.

Não há nada para se fazer nesse barco, além de esperar, impossível não pensar. O barco parecia pesado, mas a balseira se movia sem fazer força. Fazer nada era bom ao mesmo tempo.

Um som vinha de longe, o que seria? Parecia música. Um homem atravessava em um barco com seu balseiro. Tocava um instrumento que nunca tinha visto. Num barco vindo logo atrás mulheres recitavam junto Om Gam Ganapataye Namaha. Citara é o instrumento que ele toca – disse a menina. A música fluindo sem obstáculos, aumentando o ritmo do barco, sentia o espírito se aliviar.

Aquele som, aquelas pessoas, quantas coisas diferentes na vida ainda não tinha visto? Entendeu o sentido do nada, nada era mais do mesmo que ocupa todo o espaço que se tem e não deixa que a vida flua por dentro como o rio faz, limpando a água. Era tempo de ver e sentir com o novo corpo e mente que queria construir experiências diversas, sem certezas absolutas. Sorriu.

Adormeceu um tempo, não lembrava o quanto. O espírito ficou cansado de tanto rememorar alegrias e sentir aconchego no balanço do barco, excitação pelo novo que aguardava. Acordou e viu carpas nadando. Uma delas nadava ao contrário, com força, desviando das outras e das pedras.

– Esta carpa deve estar com problemas.

– HAHAHAHA!!!

– Por que ri menina?

– Espere e veja, vou parar o barco. Também preciso descansar.

A carpa nadando ao contrário subiu as águas da montanha, continuando a desviar de obstáculos. De repente, sumiu e segundos depois, como o tempo de uma flecha que alcança um alvo a cem metros, pulou um enorme dragão que veio em sua direção. Escorregou os dedos nos pelos. Macio. Escamas de azul e roxo cintilantes.

– Ainda acha que o diferente tem problemas?

Lembrou que era diferente dos outros samurais. Uma das poucas que ficava mais tempo sozinha na companhia da natureza, do treino e da arte.

Parecia que nada aconteceria no rio. O caminho até o objetivo tem suas surpresas, mas nada vai impedir a carpa que quer despertar subir a montanha.

– Chegamos.

03/10/2012

 

Clique aqui para ler a terceira parte.

 

Referências:

Om Gam Ganapataye Namaha: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ganexa

Dragão chinês: http://pt.wikipedia.org/wiki/Drag%C3%A3o_chin%C3%AAs

Share

Comentários no Facebook

comentários no Facebook

Sem comentários

Deixe uma resposta

Seu email nunca é divulgado.Campos obrigatórios são marcados *