A Mudança – parte III de III: O Renascimento

Sete anos. Não se deu conta que havia passado tanto tempo. Com os monges aprendeu a arte do silêncio, da repetição a perfeição que mantêm o templo vivo. Parecia com suas práticas do bushido, mas não precisava matar, isso lhe dava paz.

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Anos em silêncio – pensou. Estava à beira do rio quando veio esse pensamento. Lembrou quando chegou.

Assim que pisou em terra firme, voltou-se para trás e a menina já não estava. Resolveu caminhar, adentrando a floresta.

Não encontrava o templo. Passou noites sozinho o espírito, carregando o coração nas mãos. Em uma manhã quando mirava a beleza de alguns pássaros sendo apenas pássaros, uma voz chamou:

– O que faz aqui?

– Procuro o templo. Sabe onde há um por aqui?

– Está logo ali, não vê?

– Onde?

– Ah! Obviamente, você não consegue ver, pois ainda carrega o passado.

– Passado? Velho, você deve ser louco. Deixe-me em paz.

– Impaciente e rebelde, com qual coração você veio ao templo?

Olhou para as mãos que carregavam o passado. Boas e más lembranças, não queria abandoná-las, mas também não poderia ficar vagando na floresta.

– Você pode enterrá-lo alí, embaixo daquela árvore. Ela é sagrada, apenas você o encontrará espírito impaciente rebelde.

Sete anos. Saiu procurando a árvore. Encontrou e desenterrou o coração. Estava diferente. As memórias estavam ali, mas não emanavam nenhum sentimento.

– Então, veio revisitar o passado?

– Sim sensei, respondeu a jovem. Acabei de lembrar da balseira que me trouxe. Ela disse que a mãe tigre contou a ela sobre mim.

– Verdade, era a reencarnação de sua mãe. Lembra-se dela?

– Sim, claramente. O que ela fazia lá?

– Ela te protegia dos espíritos que não queriam fazer a travessia. São espíritos que têm medo de renascer e querem que você fique ali com eles.

– Em uma das minhas primeiras batalhas em terras estrangeiras vi um tigre na floresta quando estava distraída. Meu coração disparou. Nunca senti tanto medo.

– Quantas vezes na vida sentiu esse medo?

– Nunca mais.

– Nem quando se apaixonou pela primeira vez?

– Não, só tenho medo de batalhas, de matar inocentes, de perder amigos nela.

– Então, não era paixão. Era amor. O mesmo amor que sente nas coisas que gosta de fazer, manifestado em um objeto gente. Seu amor é livre, não é o objeto. Consegue entender agora?

Sete anos para entender a diferença entre paixão e amor. Do que realmente lhe dava medo. No templo, fez amigos, aprendeu sobre os Três Tesouros e as Quatro Nobres Verdades e ensinou aos monges a arte do arco. Ensinou crianças a ler, escrever e fazer pipas.

Permaneceu uma semana em profundo silêncio e isolamento. O sensei preocupado perguntou o que a afligia.

– Linda tarde.

– Estou pronta sensei. Devo partir.

– Antes de ir, um teste.

– Se eu falhar não poderei ir?

– HAHAHAHAH! Desde quando aqui é uma prisão? Me diga, quais são os três tipos de inteligência?

– Três tipos? Ter conhecimento?

– O conhecimento é um deles. Há três tipos: o conhecimento é o nível mais básico, a boa memória livre de ilusões é o intermediário, sem ela você falhará novamente, o terceiro e mais difícil é a mudança. Lembre-se e cultive a verdadeira inteligência. Curiosidade, onde vai?

Olhou para rio, era início de primavera. Quando chegou há sete anos era início de inverno.

– Vou para onde veio aquele som que ouvi no barco.

15/10/2012

Referências:

Três Tesouros : http://pt.wikipedia.org/wiki/Tr%C3%AAs_J%C3%B3ias

Quatro Nobres Verdades: http://pt.wikipedia.org/wiki/Quatro_Nobres_Verdades

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