Ensaio sobre a divindade

Prólogo: As pupilas são responsáveis por regular a quantidade de luz que será enviada do exterior para nossas retinas. É um furo, um buraco, que faz vazar luz para dentro. Quando estamos em um ambiente escuro, por instinto, nossas íris dilatam, fazendo a pupila crescer e absorver o máximo da pouca luz disponível. Já quando estamos num ambiente muito claro, as íris constringem, fazendo nossas pupilas diminuírem.

 

Ensaio sobre a divindade

Eu, que poucas vezes me entrego a devaneios – nunca a religiões – passei por uma experiência única e (pasmem aqueles que me conhecem) divina.

Era incrível. Independente da luminosidade do ambiente, minhas pupilas estavam sempre muito abertas e grandes. Resultado: via tudo mais brilhante, mais luminoso. Acreditem, as coisas são impressionantemente mais bonitas do que aquilo que nos acostumamos a ver – a banana mordida com as pequenas gotas de saliva é uma visão do Éden; as nuvens, agitadas pelo vento, dançam lindamente, abrindo, por vezes (moro em São Paulo), espaço para que vejamos as estrelas pulsarem o plasma que nos parece brilhante; a escaldante comida, fumegante, solta o carbono alegre na atmosfera.

Apesar de entender que eu estava enxergando melhor do que as outras pessoas – e do que eu mesmo enxergo normalmente – não entendia por que achava tudo lindo. Mais tarde entendi.

Ao ligar a vitrola e ouvir LPs dos Beatles, Mutantes e Raul Seixas, conseguia identificar os lindos detalhes das músicas: cada intervalo, cada nota, cada particularidade. E a letra, soando risonha e preocupada, mensageira e amigável, me fazia emocionar. Transformei-me na agulha da vitrola, conseguia ouvir em longos e espaçados segundos. Conseguia viver uma vida inteira a cada segundo.

Ao experimentar a antes fumegante comida, conseguia distinguir cada um dos muitos ingredientes; eles formavam a melhor combinação possível no mundo. E não pela combinação em si, mas sim pelo meu aguçado paladar. Não só sentia, mas conseguia cheirar a afortunada combinação de sabores, me fazendo salivar. Esfregava meus dedos uns contra os outros, sentindo cada um dos poros. Ao alisar minha sobrancelha, conseguia sentir os pelos todos, da raiz a ponta.

Meus pensamentos… não consigo nem explicar. Entendia em frações de segundo questões que me atormentavam há tempos.

O que será que há sobre isso que fazia tudo ser lindo? Conseguia sentir, através de meus cinco sentidos, tudo com muito mais intensidade. Mas isso não deixaria as coisas lindas – se realmente não a fossem.

Senti-me no divino, no Éden. (parafraseando William Blake) As coisas eram como realmente são: infinitas. Eu era deus. E todas as coisas também eram. Na verdade, eu sou deus. E todas as coisas também são.

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