Eu não sinto nada

Nota: Dos meus idos vinte e pouquíssimos anos, talvez menos, vem esse texto. Direto do meu baú digital. Ora, agora vasculho ao mesmo tempo meu baú de manuscritos e meu baú de bits e bytes. Quantos achados. Quantas lembranças. Quantos esquecimentos teimosos tornados em memória mais uma vez (mas que lá deveriam ter ficado, malditos). Mas sigamos assim. Hora e outra vou trazendo dessas recordações para esse meu mundo de palavras. Aqui um texto que bem pode ser do outro milênio. Não lembro. Eu e minhas rusgas com o Poder. Mas ainda mais conosco. Ficamos frios. Tanto que hoje somos. Isso e pronto. Mesmo que médicos, ou até mais nesse caso, somos frios até o último real de nossas tão importantes contas bancárias.

 

Eu vi o cara dormindo na sarjeta

Eu vi a velha atropelada embaixo do sinal

Eu vi um cobrador morrendo de bobeira

Uma criança com um ‘oitão’ deu o teco fatal

Mas isso tudo não me impressiona mais

Porque ontem eu vi na TV

Eu não sinto nada

Eu não sinto nada mais

Eu não sinto nada

Já não tenho mais lágrimas pra chorar

Eu vi o homem de branco fazendo um juramento

Hoje ele está tranquilo com seu carteado

Salário certo. O atestado é de hipócrita.

Enquanto um sem-socorro morre na sala ao lado.

Mas isso tudo não me impressiona mais

Porque ontem eu vi na TV

Eu não sinto nada

Eu não sinto nada mais

Eu não sinto nada

Já não tenho mais lágrimas pra chorar

Enquanto isso nos bastidores imundos do poder e do dinheiro, Lalaus e Estevãos que sabem comprar as pessoas certas nunca vão desfilar no noticiário policial, mas sempre aparecem nas páginas da Elite e até mesmo em belas fotos ajudando os pobres do Maranhão.

Esse país que vem de um esplêndido berço coberto de lama. Uma pátria que só amamos quando a medíocre seleção entra em campo ou quando um cara de raquete criado a leite A pisa nos gringos.

Eu não quero viver e deixar viver, isso é coisa de Beato. Quero fazer a minha parte e detonar com os vermes que se amontoam por todos os lados e se alimentam do meu trabalho. Olho pra frente e a estrada não é plana nem lisa, mas não tenho medo. Eles acabaram com meu coração e minhas lágrimas. Agora tem que chegar a vez deles.

Eu vi um povo sem rumo parar de sonhar

Sem estima, sem estímulo; vive por viver

Enquanto teu esforço não vale nada não

Eu vi o homem de Brasília ferrar (fuder) com você.

Mas isso tudo não me impressiona mais

Porque ontem eu vi na TV

Eu não sinto nada

Eu não sinto nada mais

Eu não sinto nada

Já não tenho mais lágrimas pra chorar

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