Volta, Chico

Chico Buarque disse outro dia que suas músicas políticas perderam o sentido. Não canta mais tal, tal e aquela outra. Mas será que o Chico só não se cansou do assunto, na verdade? É justo. Mas seria melhor se ele dissesse isso. Do contrário, ele parece desconectado da realidade de um jeito inadmissível a um homem involucrado em ciência e de aguçada sensibilidade, como ele.

Vejamos então alguns versos e busquemos a perda de sentido apontada pelo gênio das letras. Ele citou diretamente “Apesar de Você”, “Deus lhe Pague” e “Cálice”. Aos detalhes da última, escrita por ele em parceria com Gilberto Gil, que já mostra claramente a atualidade das gemas desvalidas, as novas Genis da obra do artista:

De muito gorda a porca já não anda (Cálice!)
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, Pai, abrir a porta (Cálice!)
Essa palavra presa na garganta

Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade?
Mesmo calado o peito resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Talvez o mundo não seja pequeno (Cale-se!)
Nem seja a vida um fato consumado (Cale-se!)
Quero inventar o meu próprio pecado (Cale-se!)
Quero morrer do meu próprio veneno (Pai! Cale-se!)

Óbvio que essa canção é um tratado contra o AI-5, pecha vergonhosa do nosso passado mambembe, aproveitador e covarde, dominado por uma elite – ainda existente – dissimulada, maniqueísta e maquiavélica e que se rendeu aos militares de forma a continuar no poder. No entanto, hoje vivemos sob outra ditadura. A Ditadura da Maioria. É proibido falar mal. É proibido criticar. Se alguém acerta mais do que erra e cai nas graças dessa tal Maioria se torna infalível. Críticas costumavam forçar a busca do aperfeiçoamento, da melhoria contínua.

Agora criticar ganhou outra tonalidade. Acinzentada. Feia. Criticar é torcer pelo fracasso. Criticar é um misto de inveja e revanchismo. Quem opta por emitir opinião, contrária à da Maioria, é acusado de perseguidor. Até por que existem realmente algumas cruzadas de perseguição, como a da Veja contra o Governo Federal; da Record contra a Globo (e vice-versa); de alguns juízes contra outros; do Governo Federal contra estados e municípios administrados pela oposição e por aí vai.

Os versos de Chico – perdoem-me pela intimidade demonstrada até agora, mas são tantos anos, tantos LPs, K-7s, CDs e MP3s ouvidos, que não posso agir de outra forma; é como se esse cidadão passasse sempre em casa – se encaixam feito luva a essa nova ditadura: não importa mesmo sobre o que se levante. A palavra fácil será berrada: “cale-se”.

Não podemos aceitar viver sob essa porca gorda. Ser obrigados a cortar com essa faca cega. Perdemos nossa capacidade de criticar. Formamos robôs para alimentar o tal mercado de trabalho. Matamos a filosofia. À frente: crescer e consumir. Será que ainda resta a cuca? Estamos bêbados. É o novo pileque homérico desse mundo novo. Esqueça a boa vontade. Cale seu peito e reme.

Eu não quero viver uma vida pequena. Num mundo pequeno. Melhor me calar? Eu vou fazer a minha própria história. Nunca enxergarei a vida como um fato consumado. Melhor me calar? Quero pecar e pecar e pecar. Meu próprio pecado, é claro. Quantas vezes forem necessárias. Assim aprendo. Assim evoluo. Caio e levanto. Segue o jogo. Melhor me calar? E no fim, vou me envenenar nas minhas próprias palavras. Esse meu veneno ora adocicado, ora amargo, ora agridoce.

Eu não vou me calar enquanto existir voz e eu puder gritar. Ou escrever. E que o Chico grite. E escreva. E cante. Ou que pelo menos me leve às lágrimas me dizendo que desistiu!

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2 Comentários

  • Achei o texto muito sincero. É de um tapa na cara desses que estamos todos precisando urgentemente. Eu sou uma grande fã de Chico e como tal, amo ainda mais suas músicas de protesto, e as vivo de fato, busco aplicá-las a minha filosofia de vida, só é um tantinho decepcionante ver que o próprio autor das mesmas abandonou a sua causa. Adorei aqui.
    Betina Monteiro.

  • [...] o achava um grande cara. Mas com o Chico (que outro dia até já tinha dado uma espinafrada e o chamado a voltar à linha de frente no texto ‘Volta, Chico’) eu mantinha uma relação pra lá de próxima. É a coisa do herói da vida. O cara que lutou [...]

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