50 tons de vergonha

O sucesso da série 50 tons prova o quanto ainda estamos longe. Longe de sermos uma sociedade igualitária. O quanto as fêmeas da nossa espécie ainda estão acuadas. A igualdade conquistada com a queima dos sutiãs de 1968 é uma falácia. Tudo ainda é nebuloso, esfumaçado, cinza. 50 tons de cinza ou mais estão cobrindo nossos olhares em nossa vida atualmente.

Os machos controlam o mundo. Acham-se poderosos predadores. Falam das mulheres – das suas e das outras – com a propriedade de donos. Liberar seus fetiches e suas vontades deveria ser o básico de um relacionamento saudável e sincero. Um desses raros, pelo visto, que são inteiros. Que são de verdade. Onde se compartilha, se divide, se completa.

Na rua e no discurso somos os tais. Com a própria mulher os mais diversos bloqueios. Por medo de perder a chancela de líder; o controle. Talvez. E a mulher se acostuma à rotina. Por isso se trai? Pode ser. Com uma diferença básica: os homens traem em busca de conquistas; autoestima. A mulher trai em busca de identidade. De ser ela mesma. De se liberar e libertar.

Mas não é culpa só do homem. O medo de ser tachada de puta cria uma autocensura aprisionadora; patética. Unilateral. Ao homem cabe o papel óbvio de manter o status quo. Fácil assim. Especialmente quando o outro lado está entregue. É a pegada do macho que não quer ver o outro lado. Comodismo que mantém a parceira à sombra, nos cantos mais escuros. 50 tons mais escuros ainda as cobrem.

Certamente estamos melhores que há algum tempo, mas essa série de popularidade ímpar – o assunto da moda nos bares – traz à tona nosso atraso. Uma vergonha numa sociedade pseudoigualitária.

O entendimento dos homens sobre 50 tons, dito rotineiramente por aí, é que mulher quer mesmo é entrar na porrada. Nelson Rodrigues já as entregou – é verdade quase sempre. Mas a condição é outra. A motivação é outra. É por vontade; realização do próprio desejo. Querer se ver possuída, mas saber que está nos braços do outro que é cumplice. Na realidade simples sexo puro de qualidade sem preocupação, sem medo, sem barreiras.

A verdade é que a maioria apanha sem prazer; por submissão. As que apanham, pois a maioria nem chega a esse ponto de liberdade. 50 tons de liberdade para as mulheres.

A quem quer enxergar uma chance de entender que as mulheres ainda estão no armário. Ainda mantém seus desejos guardados. E que os homens nesse misto de serem cuzões e de protegerem a “mulher de casa” as deixam lá: à mercê da sorte na tentativa – quase sempre frustrada – de encontrarem seu Christian Grey (e nem esperam por esse pacote completo que acompanha o adorado herói fictício).

Nos mantemos divididos: de um lado homens que se satisfazem mais e melhor com amantes e putas (pensam que as amantes são putas, na acepção negativa da palavra). Do outro, mulheres que querem apenas ser elas mesmas. Mas que querem isso de forma dividida, num sentimento de comunhão total de desejos. Algumas já se encontraram dentro de forma individual: não tem medo de ir para o bar, pegar um cara qualquer e, se tiver vontade, trepar com ele a noite toda (se ele aguentar, pois essas aguentam).

50 tons tira o véu do mundo em que vivemos. Longe de mim julgar a literatura, o estilo. Respeito quem gostou. Não apreciei o estilo, contudo. Elogio, sim (e muito) a genialidade da autora em mostrar o que sempre esteve ali e que, no entanto, não era visto.

Mulheres, à luta, às armas, às algemas, à cama, à felicidade, à LIBERDADE.

Share

Comentários no Facebook

comentários no Facebook

10 Comentários

  • Mateus Faria escreveu:

    Acho que seria interessante discutir um passo atrás: o que seria uma sociedade igualitária? Uma sociedade igualitária é natural? É positiva?

    E, falando em naturalidade, um dos grandes filósofos sobre a tal me emanam à mente: Tolstoi.

    “Assim vivemos na cidade. Na cidade um homem pode viver cem anos, sem se dar conta que está morto há muito tempo”

  • Para liberdade leia “50 tons de liberdade”!!!!

  • Como estudiosa de literatura sabemo que ela reflete os anseios da sociedade de ser ouvida de alguma forma. Li 50 tons, não é perfeito em termos ficcionais, porém em minha opinião há uma verdade refletida ai, que é a ansiedade feminina em fazer escolhas, queremos nos libertar, ter voz, sim ,mas queremos um homem que nos adore de alguma forma, mais do que um simples pedaço de carne. Acho que esse é papel da literatura, mais a visão mercadológica e midiática nesse mundo globalizado essa sim, estamos perdidos nelas. Valeu suas palavras muitíssimo.

  • Estou pasma!!! Existe algo sob esta mente brilhante???? Tipo… um cara preocupado com as mulheres??? Ah…assim espero!!!! hehehe…

  • Fernanda Reis escreveu:

    O problema desse livro foi a promessa exagerada, acho que se ele não tivesse aparecido como “o grande best seller” nos EUA e UK, ou seja lá onde for, não teria causado tanta antipatia, pois quando se promete, TEM que comparecer, e foi disso que o livro não deu conta…mas, é o mercado, uma sujeirada indizível.

  • Rosgam Sharran escreveu:

    E aí!!! O que fazer com a liberdade? O que é a liberdade almejada pelas minorias? Esquecem-se que cada um é livre para fazer o que quiser e competência é característica de poucos!!! Onde está a preocupação com a violência contra a mulher? O resto é balela para vender livros, numa época em que qualquer pessoa pode escrever o que quiser e, de repente, vira intelectual. A sociedade está cada vez mais cheia de minorias (sem casa, sem terra, gays, mulheres) e, logo, teremos somente minorias que serão como filhotes de pássaros com o bico aberto à espera que a mãe lhes encha o bico. A continuar assim, a sociedade estará cada vez mais dependente dos bolsa família que existem hoje. Abraço!!!

  • Leandro Piazzon escreveu:

    Achei o texto um pouco rancoroso. Como dizer que homem trai em busca de conquista e mulher em busca de auto conhecimento? Traição é traição sob qualquer motivo. Enquanto as pessoas não se respeitarem, enquanto não deixarmos de tratar o nosso próximo como objeto de conquista, e isso vale para homens e mulheres, não viveremos em um lugar melhor. Infelizmente, o machismo não é apenas um comportamento masculino, mas uma cultura que atinge também as mulheres. Ao queimarem os sutiens, não houve uma mudança significativa nos hábitos e costumes. A mulher passou a trabalhar mais, ganhando menos, algumas vezes, uma prostituição disfarçada de profissão, pois o corpo feminino continua sendo usado como mercadoria, ou seja, antes da fogueira era tudo oculto, após ela ficou declarado mesmo, mas com o consentimento de parte do público feminino.

    • Por isso sempre paro pra ler os comentários… Esse em questão foi até mais feliz do que todo o texto em si.

  • “os homens traem em busca de conquistas; autoestima. A mulher trai em busca de identidade. De ser ela mesma. De se liberar e libertar.”

    Então quer dizer que as mulheres traem por um motivo muito mais nobre e condizente do que os homens, que se a mulher trai é culpa do homem e se o homem trai é culpa dele também porque é um belo de um cafa. Isso é Ridículo! Mulheres traem pelo mesmo motivo dos homens: Mudar a rotina, sentir prazer, se aventurar, ter uma bela de uma noite selvagem, etc. Ou seja, motivos igualmente fúteis. Se libertar não é sair trepando com quem quiser, pois isso é ser escravo dos próprios desejos. Se as mulheres querem isso então elas apenas querem se transformar no pior dos homens que são ridículos e fúteis a esse ponto. Em vez disso poderiam lutar por coisas mais sérias, salários mais justos, respeito e empregos mais decentes. Mas o que eu vejo é que infelizmente 90% das mulheres só querem comodidade, não querem pegar no pesado, trabalhar duro e realmente fazer a diferença. Esses 90% no máximo só querem trabalhar em escritóriozinho com ar-condicionado pra ganhar estatus e “respeito” sem a menor obstinação àquilo que fazem, equanto a maioria dos homens estão se matando (as vezes literalmente) em todos os tipos de emprego e dedicando suas vidas inteiras a suas profissões com uma obsessão enorme. A verdade é que a chance para a igualdade já está aí há muito tempo (podemos ver isso com mulheres realmente guerreiras que fizeram a diferença há até séculos atrás). A desigualdade só existe ainda por conta dessa maioria de mulheres que só ficam de mimimi em vez de lutar de verdade, ou lutam por coisas idiotas tipo essas citadas no texto acima.

    “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”

  • Natalia Abdon escreveu:

    Gostei muito do texto. E liberdade é algo muito particular. Você precisa completar a frase: “-Quero ser livre para…”
    Cada um tem um ideal de liberdade e se as mulheres nesse momento estão sentindo que a liberdade sexual é o mais importante, qual o problema. Temos lutado durante todos esses anos por igualdade. Conseguimos alguns avanços. Claro que estamos longe de conseguirmos. Mas o grande problema é a falta de apoio dos homens(em sua maioria). Por que se tentamos conseguir a garantia dos mesmos direitos eles logo dizem que estamos tentando virar homens. Pode parecer isso porque essa talvez seja a única alternativa. Se quero ser livre para transar com o parceiro que eu escolher o que interessa as outras pessoas?
    Se quero trabalhar como motorista de caminhão ou trabalhar num escritório com ar condicionado, qual o problema? Cada um faz aquilo para o qual tem talento e sabe fazer ou quer fazer. Lutar por igualdade entre homens e mulheres não significa que preciso trabalhar como mecânica e chegar em casa toda suja de graxa. Assim como lutar contra a homofobia não significa dizer que preciso beijar outra mulher.
    Quero ter os mesmos direitos dos homens. Não quero ser um. Quero ser eu mesma.

Deixe uma resposta para Fernanda Reis Cancelar resposta

Seu email nunca é divulgado.Campos obrigatórios são marcados *