A arte de perder o amor

Não devia ser baseada em ódio a hora de partir. Puramente pela mais absoluta falta de amor. Não é o que há. Não é o que se faz. Quantos amores ficaram para trás e hoje ambos – sem nunca terem tido a chance de dizer isso um ou outro – lamentam o fim daquela relação. Lembram o quanto fizeram e o quanto deixaram de fazer. Vertem lágrimas inócuas. Remoem-se em suas solidões. E essa solidão não significa não ter alguém ao lado. Significa não ter O alguém ao lado. O que importava. O que importa. O que importará.

Mas como se perde o rumo? Como se cria esse desencontro? Pelo fim do olhar, do falar, do toque, da cumplicidade. E como esses desaparecem? Num dia a dia vazio. Nas prioridades que esse mundo inventado pelos humanos impõe a eles próprios. O dinheiro. Não importa se pelo excesso ou pela falta dele. O tempo. Pelo mesmo motivo. Quanto tempo se dedica ao outro hoje em dia? Uma trepada semanal basta? Que seja diária. Há conversa envolvida? Contato emocional e não carnal? Vontade e não obrigação?

O que mais impressiona é o poder do tempo de expurgar o que há de bom daqueles que lhe permitem a ação. E esses são quase todos. Especialmente na Era da Informação que tanto orgulho causa a seus amantes. Na era frenética onde o autismo digital invade as vidas e as pessoas têm cada vez mais tempo para todos e cada vez menos tempo para o um. O olhar está sempre disponível para as telas. Muito mais do que para se olhar nos olhos.

As conversas práticas atropelam o carinho. “Amor”, “Baby”, “Coração”, “Princesa”, “Lindo”, tudo isso vira adereço inaudível em frases secas e objetivas, que exigem resposta rápida. O mundo lá fora precisa de atenção e a vida a dois que espere. Isso em alguns casos até aumenta a duração de alguns relacionamentos. Ambos estão com o foda-se ligado na potência mais alta. Não há espaço para refletir sobre a vida que levam. O que existe em suas mãos. Esquecem-se de si mesmos. O outro então é nulo. E seguem no piloto automático, vivendo vidas vazias de conteúdo e de sentido. Uma falta de compromisso sem o benefício da leveza da vida de quem opta por estar sozinho por um tempo.

Mas o lençol freático está lá. Invisível. Refrigerador. Alimentador. Sob toneladas de terra inóspita, o amor segue vigilante e em qualquer oportunidade que lhe é dada, pode mostrar-se. Pode ser a partir de uma perfuração, quando se busca encontra-lo, ou como um gêiser que explode de quando em quando buscando atenção. No entanto, se os olhos estão cerrados e a dinâmica que se aplica à própria existência reduz o espaço para o outro, nenhum jorro de sentimento será visível.

O amor muito provavelmente nunca acaba antes do adeus. Acaba a relação. Às vezes com dignidade. Às vezes em fúria. Outras tantas em tragédias mortais. O fato é que acaba. Sobrarão as lamentações. Doídas. Certeiras. Cheias de razão. Especialmente ao apontar os erros do outro. Suas faltas e seu descaso.

Infelizmente o amor não pode ser resolvido tal qual um problema matemático. Filosofa-se há tanto tempo sobre ele. Não há modelo consagrado, contudo. Não há nenhum, na verdade. Nem lógica. Nem comparação. Os DNAs e as histórias garantem uma unicidade espetacular a cada ser desse planeta. A combinação com o outro torna um relacionamento tão único que garante a mais total e completa falta de base teórica que possa explicar ou ajudar a manter qualquer relacionamento. Se alguém diz que pode, está mentindo. É charlatanismo barato – e sujo!

O que dá para enxergar – e exemplos borbotam à volta de qualquer um – são os fracassos. Nesses dias então em que a paciência se esvaiu em meio ao frenesi de nosso vai e vem sem sentido, abrir espaço para o outro é perder tempo. Há pressa. Não há mais apreço. Podem tomar-se algumas lições a partir daí. Nada mais.

Talvez esteja irracionalizando-se os relacionamentos. Não no sentido de eliminar o racional e dar todo o espaço ao emocional, mas, sim, no sentido da eliminação do uso da inteligência; daquilo que nos diferenciaria dos outros animais. Voltar ao tacape e ao sexo para procriar. Pelo menos, alguns padres e pastores ficarão felizes. Depois disso, já se pode abrir mão do outro, independentemente de continuar ou não a seu lado.

Triste ver tantos fins e poder identificar causas e efeitos nos outros. A síndrome de macaco é a mais verdadeira, sob o próprio rabo abandona-se um amor à própria sorte. E esse sentimento por mais que lute, falece por inanição sem alimento. Sem ser cuidado. Sem ser visto.

Quer saber, enfim, como se perde um amor? Ninguém poderá explicar, mas a desatenção perene que vive arraigada na sociedade moderna está nesse momento escondendo vários amores que estão escorrendo por dedos vacilantes e indo sepultar-se abaixo de toneladas de terra praticamente irremovíveis. A terra do descaso, do abandono e do egoísmo. Basta abrir os olhos, então? Não se sabe ao certo, mas parece um excelente começo.

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4 Comentários

  • Nari... escreveu:

    Gostei muito…

  • E como na velocidade da luz ou como no lento gotejar da água que sai da rocha.. inevitavelmente nos veremos num grande asilo de lamentações.

    E o aventureiro que assim não for.. terá que passar pelas provações de ser o doido, o atrasado, alienado, emotivo… e às vezes se encontrará sozinho nessa ilha de cegos corredores… mas é um preço alto por qual ainda vale pagar!

  • Renata Romaneli escreveu:

    “Desejo que você tenha a quem amar e quando estiver bem cansado que ainda exista amor prá recomeçar…”

  • “De tudo ficaram três coisas…
    A certeza de que estamos começando…
    A certeza de que é preciso continuar…
    A certeza de que podemos ser interrompidos
    antes de terminar…
    Façamos da interrupção um caminho novo…
    Da queda, um passo de dança…
    Do medo, uma escada…
    Do sonho, uma ponte…
    Da procura, um encontro!”

    pensamento de Fernando Sabino

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