A música não muda o mundo

Paulo Freire disse que a educação não muda o mundo. Muda as pessoas que, essas sim, mudam o mundo!

Não tenho certeza se posso dizer o mesmo da música; mesmo tendo muita vontade. Especialmente agora que eu, enfim, “procurei saber” e não descobri nada especial; aliás cai num buraco inimaginável de uma decepção irrecuperável, com toda vênia do exagero. E eu que achava que a música tinha mudado meu mundo… Uma boa parte desse achar vinha de um pedaço de Brasil que existiu nos anos 60 e 70 e que conheci nos 90; um adolescente ingênuo e sonhador.A ditadura foi instalada quando quem mandava de verdade (e nunca foram os militares; esses só torturavam e matavam) quis e foi embora quando quem ainda mandava – e ainda mais – decidiu. A resistência contra sua existência – especialmente a tropicalista – vendeu muita música, muito show, mas agora não pode vender biografia. Ah, dane-se essa parte da discussão, o que me preocupa mesmo é o que aconteceu com essa gente toda.

Nunca me dei exatamente bem com o Caetano, por conta de sua amizade profana com o Coronel ACM, ou Governador/Senador Antônio Carlos Magalhaes, ou, simplesmente, Tuninho Malvadeza, mas, musical e intelectualmente, o achava um grande cara. Mas com o Chico (que outro dia até já tinha dado uma espinafrada e o chamado a voltar à linha de frente no texto ‘Volta, Chico’) eu mantinha uma relação pra lá de próxima. É a coisa do herói da vida. O cara que lutou pelos seus valores mais valiosos, nobres (descontado, é claro, esse machismo exacerbado que tantas vezes lhe escapuliu). Não que eu vá perder o prazer de me lembrar dos acontecidos nos porões da ditadura e de seu brilhantismo para com, alguma música e muita poesia, driblar censores-milicos de capacidade intelectual questionável, mas como disse outro famoso músico: o sonho acabou.

Agora dá pra enxergar o depois. O que acontece quando o tempo passa e as necessidades, vontades e desejos se modificam. O ambiente também se modificou (os modificou). Ninguém continuou no sítio dos Novos Baianos. O povo ganhou algum dinheiro e encostou o burro na sombra. Hoje, eles são velhos. E são velhos como os velhos mais velhos de quando eles bradavam a proibição do proibir. E eu serei um desses velhos. Parece insensato negar. Meus ídolos não são mais os mesmos. As aparências até poderiam me enganar, mas seu comportamento os denunciou.

Penso no Lobão que sempre tive em alta estima (apesar de e por – ao mesmo tempo – considera-lo um louco de pedra) que deu o seu recado ‘Para o Mano Caetano’, um tempo atrás. Entre bofetadas mil, ele acaricia o ‘bardo baiano’: “E eu sei que vou te amar, seja lá como for, portanto um beijo no seu lado super bacana. Uma borracha no dark side-macbeth-ACM por enquanto”. Quero acreditar que exista ainda um lado super bacana, nesse velhos doces bárbaros, mas não vejo como.

O tempo não compra passagem de volta, como uma vez disse Mario Lago, que completou dizendo: “tenho lembranças, não saudades”. É isso que sou hoje. Um ex-saudosista órfão de um tempo que não vejo se repetir mais e cujos pais mortos estão por aí vivos, falantes e regurgitando a própria história.

Sinto que substituir Anittas e Naldos dos nosso herdeiros não vai necessariamente protegê-los. Talvez seja o contrário, pois sem expectativa, não há decepção. Não é fácil lidar com heróis mortos por overdose; mas bem mais difícil é lidar com um super-homem que se renda às benesses do poder de Metrópolis, de tal forma que o Lex Luthor lhe pareça um cara legal e ele passe a ter preguiça de ajudar ‘essa gente inferior’.

Bem, educação não muda o mundo. Música também não! No fim, eu quero mesmo é que se exploda, pois mudaram a minha vida. E eu espero estar fazendo a minha parte para mudar o mundo. E agora tenho que ir, pois preciso colocar mais Tropicália pro meu moleque ouvir e contar belas histórias pra ele! Com 7 anos, ele ainda acredita nos finais felizes que eu invento e em bons velhinhos, enquanto nós temos que ‘procurar saber’…

Um axé e saibam que, apesar de vocês, Doces Velhos Bárbaros, amanhã o sol vai nascer, o galo vai cantar e, quem sabe, leiamos algo mais sobre vocês, além das legendas das fotos de ‘Caras’ que vocês tanto prezam.

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27 Comentários

  • Vitor Alencastro escreveu:

    Cara, eu tenho 53, mas não mudei desta maneira, acho que o que muda é a grana que os antigos revolucionários não tinham, mas agora tem, os burgueses sempre tem atitudes iguais a estas, tinha uns músicos antigamente que diziam a mesma coisa , mas estes morreram em outubro de 2013 !

  • Eu tenho 60 anos, aqueles rapazes doa anos 60/70 hoje realmente são velhos, cheios de dinheiro e egoistas! Desistiram de lutar por um mundo melhor! Até o torneiro mecanico lula hoje do lado burgues mudou seu discurso, formou uma quadrilha e ficou milhionario! Até a musica decaiu ao extremo! antes eram poesias musicadas e hoje um monte de extrume!
    Sinto-me sozinho querendo fazer o mundo melhor para todos.

  • Parabéns, texto muito bom. Mas ao contar para o seu filho histórias de bons velhinhos, você não comete os mesmos crimes que ora julga? Abraços.

    • della Rosa, ele tem a vida inteira pra sofrer (e já passou por umas ‘boas’). A ilusão vai acabando aos poucos; vou deixa-lo com uma certa dose de felicidade imaginária.

  • Jorge Fernando escreveu:

    Hoje uma pergunta me resta… me dilacera e me devora: Será que algum dia eles realmente tinham uma face diferente da que nos apresentam agora? Alguém (perdoe me não me lembro quem) afirmou que para se conhecer o caráter de um ser humano basta lhe dar riqueza e poder…… bem….

  • O mundo muda sim,só que infelizmente o Bem e o Mal continua um do lado do outro. e a busca pelo Bem tem que ser constante. entre a musica e a educação está o lazer e a inteligência. mas o primordial é a SABEDORIA!ai sim ,surgirá um ser Humano voltado p/ o mundo.

  • Percival Alves escreveu:

    A educação e a música em si não mudam o mundo, elas apenas exercitam o espírito humano a compreender o mundo e os sentimentos do ser humano. Somente com essa compreensão é que os homens, armados com o conhecimento e com os sentimentos poderão transformar o mundo. Como dizia Drummond: “Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”.

    “Na insensibilidade o bem não busco:
    O sentir é do homem a melhor parte;
    Por caro que pagar lho faça o mundo,
    Só comovido sente a imensidade”.

    (Goethe, Fausto; Segunda Parte, Primeiro Ato).

  • Clarice Ribeiro escreveu:

    Eu só queria saber o que eles pensam esconder. Bebiam tonéis, respiravam fumaça, e do acidente do Roberto todos sabem desde que ele entrava mancando no Teatro Record.
    Será que pode ser pior do que isso?O buraco é mais embaixo como diziam antigamente? Enfim como dizia meu irmão, assim como são as pessoas são as criaturas.

  • Metendo a lenha.

    Pegar na enxada ninguém quer, né?
    burgueses, faladores (rsrs) intelectu(ais) e muitos ais já ñ valem mais. É pra todos e pra tudo e quem se sentir ofendido.

  • Falta ideologia, o brasileiro não tem ideologia. O órgão mais sensível é o bolso. O que vamos deixar de exemplo para as próximas gerações??? Lamentável.

  • hum.. o Cazuza resume a ópera quando canta , diz.. aquele garoto que ia mudar o mundo , frequenta agora o ‘gran mondé’ , e assiste a tudo em cima do mundo.. ele fez o ”mea culpa” e passa a ser espelho dos demais..

  • Jorge Fernando escreveu:

    Quando tomamos conhecimento de determinados fatos, determinadas posturas, de tanta hipocrisia, de que a maioria das pessoas atualmente por não ter coragem para assumir o que pensa e o que faz prefere criar um personagem que torna-se a fachada para a sociedade…. bem, quando percebemos tudo isso… percebemos também um mundo cinza…. um futuro sombrio…. Hoje já não tenho mais a inocência de décadas atrás… percebo hoje que as ideologias são apenas belos textos, lindas ideias e bonitas palavras para ludibriar o publico alvo… que esses poemas que foram escritos… forma apenas escritos… não possuem alma… não representam nada… Tudo foi apenas um trabalho… um investimento com fins lucrativos…. Não há essa historia de amar o próximo…. Não há essa lenda de se lutar por justiça e igualdade…. Procuremos por aqueles que empunhavam essas bandeiras…. e teremos a clareza de que na verdade nunca buscaram a igualdade e sim…. a paridade!!!!

    • É, Jorge Fernando. Disse tudo. Eu hoje me perguntava – e comecei a escrever até – sobre como seria uma entrevista sincera, dessas que não existem porque a combinação geral não permite, com o Lula ou o Lindbergh ou qualquer outro desse tipo não importa partido e credo; esse não é o ponto.
      Seria mais ou menos assim, eu acho.
      Jornalista: O que aconteceu, Cara? Como você foi terminar abraçado com o Sarney?
      Entrevistado: É, né, você vê como são as coisas. Eu que tanto o critiquei acabei por conhece-lo melhor como pessoa…
      J: Assim não vai rolar. E a sinceridade que combinamos.
      E: Tá, bom. Que seja. Então, a vida aqui em cima onde eu me situo agora, é inacreditável. Boa demais para você resolver enfrentar o sistema e ser chutado pra fora… Eu mesmo fiquei anos nessa fila e olha que não era nada difícil ser sindicalista.
      J: Entendo, o corporativismo já lhe era intrínseco.
      E: Claro, é asim que funciona o mundo, mas você precisa entender que nunca antes na hist…
      J: Parou, parou!
      E: Ok

      (e por aí iria…)

  • Tadeo Carvalho escreveu:

    Quero me tornar velho e rico.Velho para poder ver novas gerações que enterrem o desperdício e a ganância do poder desmedido como modus vivendi.Quero ser rico para garantir que a minha volta outras pessoas possam contar comigo como contei quando de outras pessoas precisei.Velho e rico,sim.Egoísta nunca.Tadeo Carvalho.8.12.13

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