A vida é minha. A vida é nossa.

Cá estamos nós. Expostos. Fuxicados. Entregues à falação dos demais. Na boca do povo.

Como aconteceu isso, você pode se perguntar. Quando se deu essa invasão de privacidade é a dúvida que paira. Lendo assim, parece algo terrível, certo? Mas é o teatro-verdade das redes sociais que impera agora. E para essas perguntas as respostas são tão contraditórias quanto óbvias: aconteceu quando e assim que pudemos. Essa exposição toda é opcional. A gente gosta. A gente quer.

Mas o que se busca ao exibir os fundilhos para todos? Será pura autoafirmação ou talvez haja carência? Ou talvez haja culpa? Ou um mistão de tudo isso, pode ser.

Difícil afirmar, mas ao perceber que num país que tem um complexo de vira-latas tão intenso quanto o nosso, o advento das redes sociais parece mais sentido, mais visceral, pode se apontar um indício de uma busca de acréscimo de autoestima. A isso se somam doses cavalares da culpa constante da sociedade moderna – a culpa do tempo.

“Sou um pai de merda, trabalho feito um louco para dar coisas ao meu filho, mesmo que isso lhe prive do que mais lhe interessa que é a minha companhia, mas vejam como eu me preocupo com ele, vejam essa foto dele brincando com esse presente caríssimo que eu comprei.”

“Vejam como eu sou inteligente. Ninguém nunca me deu muito papo, mas agora escrevo o que penso e recebo cliques numa pequena imagem de uma mão com o dedão apontando pra cima. Eles curtem as minhas ideias, que bom!”

“Preciso muito de afeto, alguém pode, por favor, responder a esse meu bom dia tão gentil, despropositado e desesperado.”

Parabéns, Vira-lata, você foi abduzido; aliás, abduziram seu cérebro, mudaram seu estilo de vida, te escravizaram a telas de toda sorte e você nem percebeu. Nem eu! Afinal, onde mais eu teria a oportunidade de te dar esse recado.

(Bem, acho que saí do tom por um momento e percebi que o resto da banda está afinado demais para o meu (mau) gosto. Olhe a sua volta e veja quantas pessoas estão agarradas a alguma conversa online. Ficamos tão mais próximos de todos que nos afastamos daqueles alguns, que antes eram os que importavam. Eles foram para a nuvem.)

Nunca ter tido nada nos deixou com vontade de ter tudo (e pagamos muito mais que os estrangeiros por essa obsessão), mas ter não basta se todos não sabem. Essa carência histórica é realmente o cerne de tudo. E essa facilidade de ser curtido na internet veio ao encontro dessa demência.

“Vejam esse sashimi.” “Pato, é isso mesmo, pato assado.” “Hummmm.” Até o que, enfim, podemos comer precisa de chancelas, de aprovação, do conhecimento coletivo.

Baixa autoestima e necessidade de autoafirmação. Culpa e necessidade de absolvição. Muito carentes e muito culpados chafurdamos nesse mar de exposição constante e expiação coletiva. Por isso precisamos mesmo exibir nosso fundilho.

Que nossos amigos sejam bem legais e nos absolvam. Quanto à vida real… bem, vida real? Oi? Nos dias de hoje, quem liga pra vida real…

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2 Comentários

  • Julio Cesar Brasileiro Pereira escreveu:

    …não concordo em totalidade com esta opinião…afinal…reencontrar amigos,parentes distantes e compartilhar oportunidades,trechos de livros,notícias,filmes,alegrias e musicas…é o que inspira a maioria a estar utilizando esta ferramenta…talvez o autor espelhou-se nele mesmo…ou alguns conhecidos próximos…

  • Pois, eu entendo o que vc quis dizer!
    Tenho pensado neste assunto, bem assim como vc descreveu.
    Sabe um tempo atrás até pensava assim como o Júlio:
    ” bah que bacana e democrático esse mundo virtual!”
    No entanto eu acredito que já se passou bastante tempo desde o início do nosso aprendizado ao uso dessa exposição virtual full time e não percebi nehuma melhora ou crescimento na forma que fazemos uso disso. Não nos tornamos mais criticos ou mais engajados ou mais politicos ou mais conscientes do uso apropriado dessa mídia. Apenas cada vez mais narcisistas inexpressivos. Vejo ainda algo pior mais recentemente… Um clima hostil na world wide web, onde ficou cool emitir opiniões agressivas, às vezes em alto e no bom som do caps lock. Outro dia li uma matéria ou melhor uma entrevista com um ator ativista , que falava estar inseguro em “sair” na web para emitir algum comentário, por causa dos Zé patrulha a postos, por isso estava encerrando sua conta no twitter temporariamente.
    Sim, na visão romântica da coisa é realmente lindo encontrar amigos que não se via há décadas!!

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