Autistas dígito-sociais e a mazela que ilustram

“Nada do que foi será do jeito que já foi um dia”. E olha que em 1982, Lulu ainda não previa os malditos celulares – inteligentes ou burros, não importa – tomando a sociedade num assalto da mesma proporção do ataque divino contra as festivas Sodoma e Gomorra. Mas por aqui na Babilônia, e também por aí mundo afora, a festa acabou. Os olhos se descolaram dos olhares dos amigos e mãos nervosas, por vezes trêmulas, tateiam aparelhos eletrônicos numa espécie de ritual frenético.

Irrevogável conjuntura. Agora é colocar o nariz e o sapato de palhaço e entrar no fusca miniatura com os outros bilhões que já jazem hipnotizados lá dentro.

O que é esse prazer bizarro de acompanhar a multidão em demérito da proximidade, do contato? O mundo corre rápido, todos sabem. É impossível acompanhar tudo. A vida pesa quando se tenta. O descontrole absoluto sobre os acontecimentos sufoca. É irremediável que o mundo gire e não se saiba o que “tá rolando”. Não se sabia na Idade Média. Agora, então, é inexorável a ignorância. “Mas como assim?” – rebelam-se os desesperados – “a tecnologia pode colocar o mundo sob meu controle. Ao alcance das minhas mãos. Num clique. Num toque na minha tela amoled”.

Não amole. Essa gente está abandonando a experiência em troca do registro. Gigabytes acumulados de fotos. Nenhum tempo, nenhum momento para aproveitar a existência desse material digital inútil que serve meramente para ganhar uma meia dúzia de curtires medíocres durantes os poucos minutos em que se pode esperar a atenção dos “amigos” da rede social do momento.

Artistas sobem aos palcos e colocam suas almas à disposição do público. Anos de irrefutável dedicação destilados naquele momento nobre da sua apresentação. São agraciados, hoje em dia, por uma horda de gente interessada em filma-los, fotografa-los. Gente que passa minutos infinitos empunhando uma câmera sem se emocionar. Sem poder fechar os olhos e sentir a música num concerto de sua banda ou cantor ou cantora preferidos. Sem poder se entregar à história e a emoção dos artistas no teatro. Sem sequer rir de verdade num show de comédia em pé.

Oxalá os servidores se esgotem. Oxalá o toque na pele suplante o toque na tela. Oxalá aconteça o cataclismo invocado pelos Maias (ou por qualquer outro futurologista a la Nostradamus) e tudo que restará aos sobreviventes será os próximos. Que nada se saiba dos outros que estão distantes. Talvez as mãos se acalmem. Quiçá mesmo os olhares ergam-se e voltem a aproximar a gente que está lá e não em um lugar qualquer que deveria desinteressar naquela hora. Será novamente a hora do próximo.

Tudo isso soa retórica chula despropositada. Pode ser. No entanto, ainda vale o brado de quem quer sentir presença real. De quem está pouco se lixando para cutucadas ou algo que o valha. De quem dispensa os bits e prefere o brinde. Olho no olho. Mente integralmente ali. Gargalhada sonora e total. Lágrima sem máscara virtual. Humanidade em sua essência plena.

Que a tecnologia sirva a sociedade e não a escravize. Que os incomodados mudem. Que os incorrigíveis e teimosos metidos a pensadores se rebelem.

Share

Comentários no Facebook

comentários no Facebook

Um comentário

  • Parabéns! Execente reflexão, necessária e tão pouco voluntária. Até escrever talves habite o desejo da inérica. Tavez quando ouver um ícone que represente um pensamento,ou gere uma interpretação as pessoas mais se interessem pelo outro lado de lá, que um dia fora o de cá, seguindo sua brilhante linha de raciocínio.

Deixe uma resposta

Seu email nunca é divulgado.Campos obrigatórios são marcados *