Babilônia sitiada

Todos falam, ninguém ouve; há, contudo, essa concordância senil que se segue a esses monólogos entre pares. Enquanto isso, a arma segue apontada para nossas cabeças.

Olho por olho, dente por dente. Não na lei atual, mas ainda no espírito dos homens. Somos assim. Selvagens disfarçados de civilizados. Controlamos o planeta e sequer nos controlamos. Comemos de tudo que se é possível gerar sem calcular consequências ou pensar no amanhã. Matamos o outro. O supostamente igual. Independente do motivo, isso nos prova bichos; pequenos e covardes.

Nossa adorada Babilônia queima há tempos. Ardemos nesse inferno, sorrindo felizes por nossas egocêntricas motivações e conquistas. Tudo tão frágil; tudo tão fugaz. No entanto, seguimos com o passo firme alheios à dimensão infinitesimal de nossa pequenez. Caminhamos orgulhosos sobre ossos, corpos moribundos e até mesmo pessoas sãs – se estão sob as ásperas solas de nossas pesadas e triunfantes botas, não passavam de fracos; se aqui estão, fizeram por merecer.

Não conseguimos ver a inutilidade de nossos objetivos; muito menos entendemos a importância do caminho sob a ótica da coletividade. ‘Eu sou o Rei do Mundo’ é o novo sentimento coletivo. O ‘ter’ progressivo, motivado pela sensação de acúmulo, nos exorta a nos regozijarmos desse sentimento de posse, de conquista e, em última instância de ‘poder’. Somos o que temos e não mais o nosso simples estado atual de existir. Deixamos de ‘ser’, enfim.

Mas o cenário de hipnose coletiva (que mascara uma condição de desesperança que teima em não vir à tona) evoluiu. “Involuiu”, na verdade. Ao mesmo tempo em que somos lentamente carbonizados nesse caos que nos calcina vivos, fomos sitiados dentro de nossos presépios encantados. As telas de led transmitem uma sensação esplendorosa de liberdade enquanto, na verdade, somos gado chipado e controlado; tocado de lá pra cá, daqui pra lá. Marionetes sorridentes e cegos com uma pseudo vontade própria.

O estado de sítio se estabeleceu paulatina e sorrateiramente. Estão suspensos temporariamente (por todo o tempo, ao que parece) as garantias constitucionais de cada cidadão. Os poderes Legislativo e Judiciário estão submissos oficiosamente ao Grande Irmão. Apesar dos focos de resistência, por aí tratados como sandice, irresponsabilidade, anarquismo sem sentido, Babilônia está sitiada. O calor é intenso, mas o ar condicionado, benesse desse tão cuidadoso e ‘justo’ sistema, não deixa sentir a dor das bolhas que crescem e explodem em nossas peles.

Os milhares de idiomas únicos e distintamente idênticos mantém a essência da nossa Babel intacta. Apesar de tecnologicamente avançada, ela ainda é inexplicavelmente rudimentar. Todos falam, ninguém ouve; há, contudo, essa concordância senil que se segue a esses monólogos entre pares. Enquanto isso, a arma segue apontada para nossas cabeças. Não nos damos conta disso, mas obedecemos instintivamente. Seguimos a produzir. Cercados por essa jaula invisível, caminhando sobre esse esterco de odor oculto por essas essências bajuladoras que espalhamos no ar enquanto chafurdamos da cintura pra baixo.

O importante mesmo é parecer feliz. Sentir-se bem consigo mesmo por ver que os outros acreditam nisso e não por conta de ter entendido e dominado um pouco essa desesperança absoluta de nosso globo condenado e apenas ter aprendido a andar por aí em terra mais firme, sem corpos sob os pés calejados.

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10 Comentários

  • Rubens Dutra escreveu:

    Excelente realidade. Belo texto.

  • Texto que faz parte de uma frente que há de se levantar frente ao compartilhamento (literalmente) da violência, a uma espécie de ressarcimento que as pessoas sentem ao verem o ladrão, produto do sistema, sendo morto. Se fazemos isso, se o sentimos, estamos nos enganando duplamente, nos iludindo que a maioria de nós somos ladrões que tiveram casa e comida.
    É parte do que venho tentando expressar em meu blog, e achei aqui uma exposição muito bela e assaz divulgada. Meus parabéns.

  • Manoel Rolnar Silva escreveu:

    Há duas horas, aproximadamente, comentei junto à minha filha Sandra, uma angustiosa preocupação, que me assenhoreia por quase um ano, ou até mais que esse tempo, talvez. Em verdade, não sei precisar a duração desse pavoroso pesadelo. Vez em quando essa questão me toma de assalto: “O que se passa com a humanidade e qual será seu destino”? Sem resposta mitigadora, naturalmente a apreensão torna-se crescente e meu olhar para o futuro restringe-se, paulatinamente, a expectativa de finais promissores. A ganância desenfreada, motivada pelo egoísmo exacerbado; a visão única do agora, sem perspectiva do amanhã; a explosão demográfica e suas consequências inexoráveis de ocupação do solo em proporções incontroláveis; o constante desmatamento comprometedor à vida, já extinguiu várias espécies tanto animais, quanto vegetais; inclusive outras tantas agressões à natureza praticadas pela insensatez humana têm contribuído, sobremaneira, ao agravamento dos processos catastróficos naturais, que se amiúdam ao avanço do tempo, com muito mais poderio de destruição. Infelizmente, esse é o meu tormento, que me conduz à seguinte pergunta: “Até onde vai a humanidade e até quando”? Sou uma pessoa que cultiva o otimismo. Por isso espero que essas minhas antevisões sejam, apenas, resultado de algum distúrbio mental passageiro e, logo mais, minha paz se restabeleça.

    • E qual o motivo de tanta preocupação com o futuro da humanidade? Como você disse, somos pequenos: mas apenas espacialmente. Tantas grandes idéias surgiram e numa esfera imensamente pequena. Mesmo sendo tão pequenos exploramos (ou pelo menos tentamos explorar) o gigante e o insignificante. Não concordo com tudo o que você escreveu. Há muita generalização, um “arredondamento” das pessoas. Nem todas consomem “desenfreadamente” e/ou não se preocupam com o futuro da humanidade. E em que sentido somos todos ladrões? E como você pode dizer que o ladrão é “produto do sistema”? Existem escolhas a serem feitas. Todos precisam tomar suas decisões todos os dias. Existem pessoas que moravam nas ruas e hoje se sustentam “no sistema” sem terem precisado roubar ou matar ninguém. Acho que “matar um ladrão” não é a melhor saída. Mas o que fazer com esses indivíduos, que parecem tomar as decisões por um caminho mais fácil e ainda (se preciso) tiram a vida de quem escolheu seguir em conformidade com os outros?

  • Coldre Tangamandápio escreveu:

    Olho por olho, dente por dente. Isso faz parte de uma velha afirmativa do velho testamento, onde uma pessoa ferida a fogo deveria ser morta por ele. Mas também é parte de uma alegoria insensata provocada por gregos e troianos para defender ora esta causa ora aquela. O interessante é que, uns, ameaçados de morte pela mesma bala que mata o bandido, defendem penas mais duras contra os ameaçadores. Agora concordo que não há ser humano que tenha o poder divino de cercear a vida. Entre matar ou morrer, o que você prefere? Entre ser roubado por arma de fogo ou por uma faca, se você puder se defender, como o faz?

  • Antonio silvestre escreveu:

    Não há como responder, até porque o que a nossa compreensão da natureza e sua lei ainda escapa das percepções mais aguçadas.

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