Deixem os velhos em paz

“Bebendo escondido de novo?”

“Pai, o senhor está com cheiro de cigarro.”

“Mãe, eu vi o vovô bebendo cachaça.”

“Gastou dinheiro no pôquer com aqueles pinguços, né?”

Sob as amarras de um suposto sentimento de protecionismo, torna-se os últimos anos de uma existência tão dura em um inferno absoluto. Nada afastará os mais velhos da morte, que fique claro.

A resposta dos anciões patrulhados é sempre singela. De criaturas experimentadas. Doce. “Tudo bem. Não resisti. Prometo não fazer mais.” Por dentro, eles veem seu tempo se esvaindo no tédio da solidão não propositada. No abandono óbvio e não culpado das gerações mais jovens. Dos que tudo podem. Dos que mal algum acometerá.

Barbárie de quem não olha à frente. De quem não percebe que todo esse oxigênio que se adentra nos pulmões oxida lentamente e levará ao mesmo fim. Morre-se todos os dias, especialmente quando se deixa de viver o que realmente importa.

Dois gênios alimentam esse olhar mais seguro, menos amedrontado e de quem aceita o óbvio: a morte abaterá os velhos como pode acometer qualquer garoto de seis meses agora mesmo. Daí deveria se tirar o valor da vida e o que ela proporciona.

Picasso diz que “a morte não é a maior perda da vida. A maior perda da vida é o que morre dentro de nós enquanto vivemos.” Na mesma exacerbação dos seus fortes traços ele infere que o mundo nos rouba todo o tempo. Nos tira o que temos de melhor se assim permitimos. E nos direciona a um malfadado tédio.

Outro ás das cores e pincéis complementa a ideia a seu jeito não menos intenso: “prefiro morrer de paixão a morrer de tédio”, disse Van Gogh. E que não se submeta essa máxima ao olhar pequeno de que paixão é amor entre pessoas, apenas. Paixão é o que nos faz brilhar os olhos. É o que nos traz felicidade. Seja um acontecimento ou um conjunto de coisas. Pode-se ser muito bem apaixonado pela própria vida, pelo conjunto dela – principalmente quando se pode fazer dela o que bem se entende.

Inventou-se um mundo – e ninguém pode ser responsabilizado, já que todos aceitam e vivem sob o mesmo modelo – onde se optou por uma vida dura nos anos em que existe mais vigor físico e “descansar”, após se ter perdido um bom tanto das forças e capacidades.

Nesse momento de fragilidade em que o tempo se transforma em um ativo tão precioso e os prazeres tão raros, surgem os fiscais de atos. Têm mais medo da perda do que amor propriamente dito. Ou até têm amor, mas não têm mais paciência.

Importante definir a velhice de que tratam essas linhas: por assim disser, são pessoas que chegaram a um estado misto de alguma falta de capacidade física e mental e, ainda, alguma dependência de familiares mais jovens. Pessoas essas que além de já estarem calejados pelo tempo, por esse mundo torpe, por certamente tantos motivos de sofrimentos e alguns poucos de glória durante suas vidas duras nas quais deram muito de si, ainda têm que submeter a uma ditadura pseudocuidadora que os encurrala em um fastio sem fim.

Deixem os velhos em paz.

Sustenta-los não dá o direito de interferir em sua vida ao ponto de se lhe retirarem seus prazeres – os últimos que lhes restam. Sem isso serão meros espectadores à espera da morte.

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