Do egoísmo

Sim, eu sou o que há de mais importante neste mundo.

E se há algo mais valioso que isso, é entender que só isso pode me ajudar a fazer qualquer outra coisa que haja ter valor.

Quando me encontrei, dono do meu destino, senhor do meu curto tempo, focado no meu maldito umbigo, descobri que isso é a base para que eu pudesse olhar para as pessoas e ver o quanto elas valem. O quanto elas importam. O quanto eu posso fazê-las valer.

Tudo vale a pena, a partir daí. E não existe fim. Apenas o caminho. Felicidade? Sim, na busca. Eu interior é balela. Eu sou um inteiro. Não me faltam partes. Sou um e único. Ninguém é obrigado a me aceitar assim. Mas fica muito mais fácil sem a máscara. Sem a hipocrisia sutil e fácil do agradar.

O agradar não tem limites. Colocamo-lo antes de tudo. Muitas vezes antes de nós. E se algo está à minha frente, como posso ter a precisa dimensão da escolha? Não posso, pura e simplesmente. Concessões há que haver. Mas nunca uma mutilação. Mutilamo-nos todos os dias, com o discurso vazio da vida em sociedade. Com a história perene do outro. Do amor. Da família.

Quanto a mim, já me escolhi. Agora todos os outros fazem sentido. Agora posso fazer escolhas. Porque só agora, eu sei quem eu sou. E sei quem eu não posso ser. Por ninguém. Para ninguém. Pois, se corto na carne, não vou sangrar impune. Mato-me aos poucos. E não há felicidade que perdure em um corpo ferido. Ainda mais frente ao outro que se vê perfeito. Que se vê completo.

Acredito na troca. Parece que não, eu sei. Não sou um muro, mas sou um templo. Sagrado pela figura do eu. Essa é a figura maior. Desculpe-me a figura vaga e desfigurada do nosso senhor. Mas se é que existe, vai ficar também à mercê das minhas realizações individuais.

O prazer verdadeiro está em gerar deleite a partir de um universo individual imaculado, completo, indolor. Nesse momento, ver o outro regozijado, buscar vitórias coletivas ganha uma dimensão extasiante. Singular.

Tudo aqui escrito soa tal vertigem de uma viagem ácida. Que seja. Que essa vibração lisérgica me alimente por todos os dias de minha existência. Sejam dezenas ou milhares. Esse desejo de ter o máximo para mim abre os olhos para o fato de que todos os outros fazem parte dessa conquista egocêntrica. E se me quero inteiro, quererei aos demais. Tão simples quanto buscar a água mais pura.

Uma ventura recheada de dor e sangue alheio nunca será verdadeira. É vencer a guerra e olhar tardiamente para trás e ver o custo. Tantas existências perdidas por um objetivo vazio de objeto. Oco completamente. Isso me faz ver tanta gente perdida. Tantos olhares vagos. Tantos caminhos sem sentido. Tantas histórias pequenas mesmo que contem uma grandiosidade tremenda.

Mas e o tempo nessa história toda? Ele nos custa tanto. É o que parece, mas o tempo é irrelevante se o olhar busca o passado. A única história que interessa é aquela que podemos escrever. O resto está escrito nas mentes e sequer temos uma maldita versão única dos fatos. Temos versões e mais versões. Capítulos de livros de autores distintos sobre o mesmo tema. Apóstolos de uma mesma história que divergem numa bíblia de Babel.

O que o mundo espera de nós, é a pergunta que nos fazemos a nos cobrar. Nada, pois somos do nosso próprio mundo, a pedra fundamental. Se não buscamos uma completude, que beira a indecência face ao que nos dizem para abrir mão pelo outro, não temos o sentido inteiro. Somos peças de um todo, é claro, mas se falta à peça qualquer pedaço que seja, o quebra-cabeças fica furado, mambembe, menor.

Eu quero ser completo e sei que esse sentimento nunca chegará. Mas quero ter a certeza absoluta que me completei o máximo que pude até esse minuto. Isso, sim, soma no todo. Não quero me juntar ao exército de gente mutilada que se apoia em outros que ainda podem caminhar com as próprias pernas, mas que diminuem a velocidade da matilha. Quero me juntar aos lobos mais velozes. Os que sabem que são tão independentes que se tornam vitais para esse todo que os cerca. É o paradoxo supremo da nossa vida social. Ser você mesmo e ser uma peça vital desse todo mutante e complexo.

Sequer o que somos hoje será relevante amanhã. Desistir da busca é o mais óbvio. Virar mais um na multidão é tão simples. Tão fácil. O mundo nunca evoluiu com os seguidores. Custou muito aos diferentes mostrar a esses que o caminho cíclico da zona de conforto não era mais o melhor. Custou tempo e vidas. Custou histórias abreviadas. Mas de gente que certamente foi feliz. Que se recusava a se amesquinhar pela obviedade.

Quando me vejo inteiro, perfeito, em busca de mais, tenho um mundo a oferecer a quem quer que seja. Quando me apequeno, me acovardo, me entrego aos devaneios maniqueístas de quaisquer pessoas ou sistemas que sejam, viro uma parte. E uma parte de pouca importância, com certeza. Irrelevante.

Sou o copo cheio. Meu vidro, no entanto, cresce e me faz querer mais água. E se transbordo, posso alimentar a outro copo. Se ele quiser beber dessa fonte, é claro. E me completo bebendo das fontes que mais me enobrecem pessoalmente.

Indivíduos cheios de si somam em um coletivo melhor. Louros a todos. Não quero parte de gente miserável. Esses que se encontrem primeiro e que venham compartilhar quando assim puderem. Não sou melhor que qualquer outra pessoa, e dificilmente serei, mas não vou parar de tentar.

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