Então é natal

É tempo de ouvir Simone nos deleitando com sua singela e assassina adaptação da canção Happy Xmas (War Is Over) – já nem tão boa assim – de John Lennon. É tempo de assistir comerciais em serie das Casa Bahia – e de outros tantos famigerados varejistas. E de passar e repassar uma bendita lista de presentes imotivados.

Sim, imotivados, afinal, o natal é – ou deveria ser – o aniversário de Jesus, não o de alguém daqui; de um de nós meros mortais. Portanto, ter ou não ter sido bom ao longo do ano pouco importa, o presente deveria ser a Cristo – e tenho certeza de que se ele estivesse lá aos pés de Deus, ele estaria pouco se importando com essas inutilidades sem fim com a qual esbanjamos nosso suado vil metal.

Bem, antes ainda de chegar ao ponto, ainda não apresentado, desse texto – que é analisar nosso desempenho frente aos pedidos do Menino-Deus-Vivo – queria lembrar que o documento oficial da Santa Sé (e das religiões derivadas), a Bíblia, não inclui a data do nascimento de Jesus e que, nesse mesmo romance, o Próprio pede para que se comemore apenas a sua morte e não o seu nascimento (sic).

Mas então, de onde cazzo saiu essa história? Vejamos. O dia 25 de dezembro era a data utilizada pelos romanos para homenagear o Deus-Sol e, numa lógica perversa e saudosa, seu anual renascimento no solstício de inverno: o dia mais curto do ano (que não é exatamente esse, mas pra quem calculou há dois mil anos ou mais, tá valendo). Certa feita, um papa (após “minucioso” estudo, segundo as fontes oficiais) decidiu apropriar-se da data. O Estado, à época, já tomado pelo cristianismo, felicitou-se pois poderia continuar com sua adoração ao Deus-Sol, até então proibida pela bíblia, de uma forma mais ou menos legal. Mas o natal virou o que virou com a Coca-Cola inventando Papai Noel. Pera lá, isso é outra história; fica pra outro ano…

Ignoremos, pois, a premissa errada no que se refere à data, e atenhamo-nos, em comunhão, aos pedidos do Senhor Nosso Deus para a mortal humanidade. Como Lucas, Mateus, Paulo, Marcos e João escreveram muito, fica difícil fazer uma lista curta do que nos foi exigido, mas em diversos versículos, eles indicam que Jesus nos recomendou seguir a lista dos dez mandamentos. Pena Jesus não ter escrito nada. É bem difícil cruzar as opiniões dos cinco apóstolos-escribas sem se ver em meio a conflitos. Mas enfim, para ir por esse caminho mais prático e para garantir a minha isenção, convoco I João 3:24: “Quem guarda os seus mandamentos, em Deus permanece e Deus nele. E nisto conhecemos que Ele permanece em nós: pelo Espírito que nos tem dado.”; e Mateus 5:17: “Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir. ”

Repassemos, então, os 10 mandamentos que JC nos pediu para seguir, na forma em que aparecem na bíblia. Aparecem primeiro no Velho Testamento, em Êxodo 20 e Deuteronômios 5. Ao primeiro como referência.

3 Não terás outros deuses diante de mim.

4 Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.

5 Não te encurvarás diante delas, nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam.

Bem, fica até difícil escolher aqui por onde começar. Olhando para o mundo de forma geral, o culto às celebridades e aos nossos próprios corpos não parecem atender ao pedido número um da lista. Entrando no mundo da religião, a lista de ‘outros deuses’ impressiona pelo volume. A Santa Madre Igreja não deixou um dia sequer do nosso calendário sem que se tenha a comemoração de, pelo menos, um de seus santos que, sim, são esculpidos e adorados livremente. Desde Pedro (que, no fim, deve merecer por ter posto a coisa toda para funcionar). Afora os católicos, os neopentecostais cultuam-se a si mesmos, e, sobretudo, a seus pastores, verdadeiros showmen, diariamente a recolher fundos em nossas tevês.

E segundo a linha de nos manter sob constante ameaça, Deus propôs que o descumprimento dessa regra é uma iniquidade (perversidade, maldade) e o castigo será uma visita dessa crueldade aos filhos, netos e bisnetos daqueles que ousarem desobedece-la. Às vezes me impressiono, com a obstinação de Deus em nos manter na linha.

7 Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por inocente aquele que tomar o seu nome em vão.

Na boa, a quantidade de citações a Deus que é possível ouvir diariamente em situações das mais diversas é calamitosa. No entanto, o mandamento é específico: só proíbe a citação “em vão”. Observemos os exemplos: pede-se pelo time de futebol, em malefício do time dos outros. Pede-se para ganhar na loteria. Pede-se para o ônibus vir rápido. Pede-se para não pegar trânsito. Pede-se para pessoas irem, ficarem, voltarem, desaparecerem. E ainda há os agradecimentos estapafúrdios. Outro dia ouço o seguinte diálogo: “Menina, já ia ter que subir de escada, mas graças a Deus, a luz voltou.” A outra: “Nossa, graças a Deus, mesmo.”

Se as situações acima não são completos e descabidos disparates ao se pensar no Onipresente, Onisciente, Aquele que tudo pode e toda sua importante agenda celestial, eu não sei mais o que é absurdo “nesse mundo de Deus” (viu como é fácil cita-Lo em vão).

8 Lembra-te do dia do sábado, para o santificar.

9 Seis dias trabalharás, e farás todo o teu trabalho;

10 mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus. Nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas.

11 Porque em seis dias fez o Senhor o céu e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou; por isso o Senhor abençoou o dia do sábado, e o santificou.

Essa nem vou perder muito tempo analisando, pois não me lembro de ver o sábado (ou domingo dependendo da interpretação) sendo guardado por quem quer que seja. Aliás, conheci uma loja de eletrônicos (B&H Photo), em Nova Iorque, que não abre aos sábados, mas… pertence a judeus ortodoxos e aqui estamos falando dos bilhões de seguidores de Jesus, assim sendo, continuo sem referências cristãs no que tange a essa prática.

Jogo rápido para finalizar: no dia 24 de dezembro, a quase totalidade dos shopping centers brasileiros (e, certamente, o mesmo deve se repetir na maior parte dos países ocidentais de maioria cristã) funciona até praticamente meia-noite. Pobres escravos da “santa” comemoração.

12 Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá.

Até que nessa, temos ido bem. Não me lembro de uma onda de matricídios ou fratricídios. O único caso que me paira na memória é a relação da Xuxa com o pai dela, mas isso é estritamente pessoal, acredito. Mas, que a relação moderna entre pais e filhos, baseada na culpa que os pais sentem pela falta de tempo para dar a suposta devida atenção aos filhos, tem criado um exército de seres mimados, vazios e despreparados para viver em ambientes externos, isso lá tem… Mas isso é tema pra tese de doutorado e não vale a pena adentrar aqui (e ainda temos mais seis mandamentos para analisar, mas vai rápido agora, prometo).

13 Não matarás.

A maior potência desse planeta é um país extremamente cristão. 79% dos americanos se diz crente a Jesus. Essa mesma maior potência desse planeta é o país mais bélico e ofensivo que há. Sua história é baseada em luta, sangue e morte. Acho que isso resume bem a forma como temos lidado com o não matarás. Ah, e eles têm pena de morte em diversos estados. Tomaram o lugar daquele em que acreditam. (Isso não reflete a minha opinião sobre a pena de morte – sou favorável em diversos casos; é uma crítica óbvia baseada na prática versus teoria dos americanos).

14 Não adulterarás.

Voltemos ao Brasil para tratar desse mandamento e analisemos o adultério mais criticado no país – a infidelidade amorosa. Vamos aos dados para facilitar o entendimento de como estamos indo nesse ponto: somos uma nação onde 87% da população se diz cristã. Nesse mesmo lugar, 60% dos homens e 47% das mulheres assumem já terem sido infiéis em seus relacionamentos. Opa, matematicamente, isso garante que, no mínimo, 45% dos cristãos já deram uma pulada de cerca. Boas ovelhas não deviam fazer isso.

Uma curiosidade lamentável que descobri enquanto pesquisava esse tema é que para os casais brasileiros, ainda nos dias de hoje, o fator que mais prejudica o casamento é a infidelidade. Isso é apontado por 53% dos casais, enquanto, pasmem, apenas 1% dos entrevistados por esse levantamento indica que uma vida sexual insatisfatória seria um problema. Incrível como estamos mais preocupados com os outros do que conosco.

Não poderia deixar de lembrar nesse item algo fundamental que me felicitei por identificar: carteira falsa de estudante é pecado. E eu venho pagando o dobro pelos shows a que vou devido a esses violadores das leis cristãs.

15 Não furtarás.

Nossos políticos são o nosso retrato. E a gente nem liga mais para o que têm feito. Nos acostumamos a assistir a esse show. Aquele vídeo em que aqueles bandidos de gravata agradecem a Deus – e é possível notar a sinceridade da oração em seus rostos durante a prece – de mãos dadas pela grana da corrupção ter chegado sem problemas fala por si só. Uma catarse religiosa alimentada pelo furto.

O slogan do Comando Vermelho é “Fé em Deus”.

20 Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.

Gente, sejamos sinceros, quem não folheou uma Caras ou Contigo em busca de fofocas sobre a vida alheia. E agora trazendo para a vida como ela é, quem já não desfiou umas boas estocadas verbais contra vizinhos, colegas de trabalho, chefes, parentes (aqui devem morar a maioria dos impropérios desse capítulo) e por aí vai.

Se incluirmos aqui a famosa mania de pôr a culpa em alguém, acredito que não escape um cristão como não-pecador. É, eu sabia que a mordacidade de nossas línguas ferinas não podia estar mesmo certa nem ser considerada normal.

21 Não cobiçarás a mulher do teu próximo; não desejarás a casa do teu próximo; nem o seu campo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.

Sobre a mulher (ou homem) do próximo, a parte em que trato do adultério nos relacionamentos, acredito, já cobre suficientemente bem. Sobre as demais cobiças, o mundo que nós criamos é baseado nelas. O capitalismo funciona assim. É a vontade constante de querer mais. Mas não queremos mais algo que não conhecemos, que vai ser inventado. Independentemente do que for, queremos o que outro tem. Quando o outro tem. Queremos ainda mais o que o outro não pode ter para que ele nos admire. Queremos ter algo melhor que o outro para que ele nos inveje.

Dedicamos nossas vidas e criamos nossos filhos para esse fim. Jesus indicou um caminho diferente desde o princípio. Em Mateus 19:21, por exemplo, “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, segue-me”. Acho que os primeiros cristãos não entenderam bem a lógica das coisas com indicadas pelo Homem Bom. Bem, sempre será possível acusar Pedro de não ter traduzido bem os recados.

Mas deixemos de história e dessa bobagem de texto e voltemos a nossa farta (tomara que seja) distribuição de presentes. Afinal, esse exemplo vem de Gaspar, Baltazar e Melchior, os Reis Magos que levaram presentes para o filho de Maria ainda recém-nascido ao saberem da Boa Nova que o Rei dos Judeus estava entre nós. Ele levou vantagem pois, sequer, havia demonstrado esse bom comportamento que nos é exigido o ano todo à espera do nosso “pagamento” anual nessa festa religiosa-pagã.

Ouro, incenso e mirra para todos. Amém!

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3 Comentários

  • Mateus Faria escreveu:

    Muito bom texto. Ótimo uso de “na boa”.

  • Muito interessante sua reflexão, porém deixou de lado a temática natalina para analisar acontecimentos sócio-antropológicos com base nas Sagradas Escrituras.

    Em que pese, ao que parece, é um erro seu tecer essa análise ao julgar o comportamento humano (campo da psicologia) ao que se traduz em toda extensão da referida publicação. Mesmo porque a própria Bíblia diz não julgueis para que não sejais julgados…

    Ainda que seja válido os argumentos da Lei, e de seu cumprimento por JC, o que foi exposto na integra fugiu a temática que se propôs!

    Ao escrever se atenha ao tema não inclua outras argumentações…

  • Discordo que o texto tenha desviado do assunto proposto, eh bem claro quando diz ” …Ignoremos, pois, a premissa errada no que se refere à data, e atenhamo-nos, em comunhão, aos pedidos do Senhor Nosso Deus para a mortal humanidade. Como Lucas, Mateus, Paulo, Marcos e João escreveram muito, fica difícil fazer uma lista curta do que nos foi exigido, mas em diversos versículos, eles indicam que Jesus nos recomendou seguir a lista dos dez mandamentos.”
    Tambem nao percebo julgamento na sua argumentacao, mas sim a analise das premissas ditadas ao homem comum, no que se refere a real comemoracao da data simbolica que eh o Natal. Reconhecer em nos a renovacao a cada renascimento arquetipico do Jesus – homem Novo – que habita em cada um de nos, atraves do cumprimento das leis ou principios sugeridos para nossa reforma intima. De uma forma bem humorada o texto conseguiu promover reflexoes bem interessantes! Parabens! Bjus Rosane

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