Essa é minha vida. Esse é meu clube.

Acredito mesmo em propaganda. Bebo desse suco há bastante tempo.

Gosto que me digam como eu devo viver. Sou um entre os bilhões do meu segmento.

Sou uma faixa etária. Sou um sexo. Sou uma classe social. Agora sou também um comportamento.

Mas sou único. Não devia ser? Acredito ser. Mas não nesse mundo. Não nesse modelo.

Minhas conquistas foram todas irrelevantes. Algumas. Não, a maioria. Não me envergonho. Mas ainda me seduzo. Não deveria. Mas é assim que é.

Sou tudo que me mandam. Será? Penso logo existo. Penso logo obedeço. Sou um ditador de regras, mas sigo as alheias apontadas para mim com mais obviedade do que a chuva de verão.

Reclamo. Quero ser diferente. Rá! Otário. Sucesso por aqui é coleção de vil metal. É o que algum compositor mandou um cantor me dizer. Posso ser raso, largo, profundo. É o que disse outro.

Sou uma marca. É isso que pensam quando me olham. Então é isso que sou, pois, afinal, é a opinião do outro que vale. Ninguém é si mesmo. Ensimesmo-me. Mas para os outros sou um quadrado de uns poucos centímetros quadrados fixados em algum lugar do tecido com o qual me cubro. Minha burca patrocinada.

Não quero ser índio de qualquer forma. Se bem que sou da tribo. Vida longa aos nossos caciques. Que o pajé nos proteja; amém.

Somos quem podemos ser. Somos quem fingimos ser, prefiro. Melhor ignorar esses pensamentos. Tão mais fácil almoçar todos os dias no mesmo lugar. O mesmo prato, de preferência.

Amo meu carro. Mesmo que não tenha, amo todos eles. Sempre foi assim. Assim será. Carros são vitais. Aprendi pequeno. Maximizei grande. Rasgo minhas cédulas para alcançar o sonho.

Sonho com o que encontro na tela. Com o que me identifica. Estou no alvo. Não, sou o alvo. Quanto querer. Quero tudo isso. E nada disso. Quero mais.

Quero chorar lágrimas verdadeiras. Só por hoje. O final do filme me ajuda. Se bem que o telefone do mocinho me interessou mais. E aquela piscina. Nossa.

Pensar pra quê quando posso seguir. Marchem, soldados. Temos a cabeça de papel. Um isqueiro resolveria.

A cada cigarro acredito mais no sofrimento, na impotência, no câncer, na morte. Está dito lá. O prazer jaz ameaçado. Penso nisso a cada novo maço aberto. Ainda bem que em breve nos oferecerão fígados e pulmões em lojas. Assim podemos consumir mais. Sem culpa. Sem nexo.

Sexo só me interessa com as celebridades que me venderam. Mesmo as velhas. Mesmo as putas. Mais as putas, penso.

Estou agarrado no corrimão do sucesso. Saco. Mas não largo. Me canso mas não solto. Ganância. Comodidade seria a melhor palavra. Insistir é um erro.

Toda essa fome da diferença alimenta uma arrogância de sentir melhor que não faz sentido algum. É mais do mesmo. Mas não sou mais o mesmo. Desde quando? Não sei. Deixar aquela ilusão divina deve ter a ver com isso. Ou seria Ele mandando sinais. Queria ler mais evangelhos. Amo ficção.

Muito papo, pouca prática. Comprei aquele creme para ser como o cara da foto. Instinto. Extinto. Extingo-me em meus devaneios. Melhor ligar a tela mágica e consumir mais propaganda. Ver tanto sucesso alimenta a alma. Alimenta os sonhos. Tenho que querer tudo aquilo.

Apenas faça. Nunca pensei que o truque sempre foi esse. Não passamos de mais um dos dominós que caem enfileirados. Nenhum braço para me defender ou apoio aonde me agarrar. Preciso pagar mais. Uma homenagem a quem se esforça tanto em me seduzir. Recompensar o investimento dedicado a mim. Ao meu grupo, que seja. Mas eu estou lá.

Achava que ninguém me pegava. Sempre estive fisgado, esse é o fato. Me importa muito o que o diabo veste. Preciso segui-lo. Aprender com ele. Beber do seu graal.

Melhor continuar me iludindo.

Consumindo.

Pilotando.

Dirigindo.

Sonhando.

Buscando.

Mas não me influencio mais. Por quê? Simples:

Essa é minha vida.

Esse é meu clube.

Compremos em paz.

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Um comentário

  • Reginaldo Failaci escreveu:

    Viagem…

    Esta foi a dimensão entre o fetiche e a dialética do homem psicanalisado em seu divã coletivo ocidental, avançando pelas rupturas do consumo.

    Louco.

    Brindemos com esse suco.
    Amem…Amém

    Reginaldo Failaci

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