Eu Cachoeira, Tu Cachoeira, Nós Cachoeira

Nós somos um bando de hipócritas sem-vergonha de uma figa.

Por que o mau humor? Nada demais, só um pouco do de sempre. Cansaço de olhar para esse espelho deturpado. Na verdade, nem é mau humor. Apenas efeito dessas meras constatações meio melancólicas.

Os baseados rolam de boca em boca entre nossa molecada culta das USPs da vida. Pseudointelectuais brilhantes discutem política citando Platão, Marx, Engels, Locke, Smith e por aí vai… Só não citam como aquela erva foi parar dentro daquela seda. Não importa, nesse momento, o THC vai lhes ativando os circuitos do prazer em seus cérebros bem desenvolvidos, bem criados e alimentadores do tráfico de drogas. Putz, esqueci do mantra “viciado não é bandido”. Só bandido é que tem que se fuder nessa relação, esqueci. (lembrando que esse comportamento demonstrado através desse estrato da nossa sociedade, repete-se cotidianamente entre yuppies, descolados, nerds, vanguardistas, retrógrados – e das mais variadas faixas etárias.)

Orgulhosos, nos vangloriamos para os amigos de ter nos livrado daquela blitz subornando aquele cidadão morto de fome, de classe média baixa, com uma formação inferior à nossa, medo de dormir à noite, filhos em escolas particulares genéricas de bairro, quando não nas públicas mesmo, armado, com problemas psicológicos devido àquela rotina leve. Nós somos mesmo “o cara”.

Alguém precisa desligar esse chuveiro quente que nos anestesia e espalha esse vapor que nos embaça a visão.

Sabe aquele almoço caro que pagamos para fechar aquele contratinho? Opa! E aquele emprego que descolamos para a filha débil-mental daquele vereador filho de uma puta que manda dinheiro para aquela ONG farsante e recebe trinta por cento de volta? Fechamos a obra com a ajuda dele. Todos “ganham”. Um sucesso.

Gostamos muito de assistir aqueles filmezinhos piratas inocentes que compramos na hora do almoço, engravatados, frente às nossas torres comerciais milionárias, ignorando completamente o direito à remuneração daquela “gente rica” que possui a propriedade intelectual daquilo tudo. Foda-se, meu filho colou, mas passou. Um viva à nossa capacidade de nos livrar de empecilhos. Seja de que modo for. (Não nos esqueçamos das nossas bolsas falsas, as músicas baixadas por aí, o ponto pirata da tv a cabo etc etc etc.)

Assim caminha a humanidade e que assim caminhamos nós. Nos afundamos cada vez mais nesse charco de corrupção e impunidade, mas nossos perseguidos políticos são apenas um retrato realista gigantesco do que somos nós. Eles são nosso vômito e nossas fezes. Esse cheiro azedo que repelimos e contra o qual nos revoltamos é criado em nossas salas, nosso berços, nosso dia a dia. É produto do que nos alimentamos. Um brinde (com Romanée-Conti, se possível) aos nossos “filhos”.

Eu estou pouco me lixando de fato. Eu posso comprar, minha gente. Estou tão feliz. Não importa o que “essa gente de Brasília” faz nos bastidores, o país, um pouco mais ou um pouco menos, cresce e me deu essa liberdade de ter o que nunca imaginei. Essa gente feliz nos aviões me enche de orgulho. (Aqui uma observação: eu acredito mesmo nos programas das bolsas educação e família, mil coisas pra ajustar, mas deixar as pessoas morrendo de fome enquanto pensamos o que fazer não me parece brilhante.)

Quando foi a última vez que tivemos a opção de pegar o caminho mais curto mas não o fizemos mesmo pagando uma conta mais alta? Quando foi a última vez que optamos por levar a multa frente à oferta de “resolver isso agora”? E pode parar de bater aí no peito orgulhoso se gabando de lisura. Vá pensar e procurar sua lista de pequenas corrupções diárias. Não adianta pagar de santo. Subornamos nossos filhos para que obedeçam. Nós nos acostumamos tanto ao nosso sistema viciado que tratamos por normal o muitas vezes inaceitável. Não temos tempo para pensar, parece.

Triste. Verdade. Triste. Será nossa sina. Nos acorrentamos à comodidade. Nosso ciclo está pronto. Vicioso com aquela pinta de virtuoso. Um sucesso.

Desculpem parar por aqui, mas preciso ir lá dar um tapa no meu baseado, escrever algo no meu facebook falando mal de uma meia dúzia de políticos safados e depois ir pro shopping comprar, enfim, a TV de 67 polegadas. LED, acredita? (Será que se eu der um “por fora” o vendedor força aquele desconto no sistema? Ah, nem ligo, vou parcelar mesmo…) Estou tão feliz com essa vidinha…

Fui! (ajudar a pintar nosso autorretrato)

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