Fantasia

Alegoria, fábula, mito, ilusão, quimera, utopia, devaneio, sonho, idealismo…

O quanto da sua realidade é real? No sentido mais estrito da palavra? Nada, por seguro. Pode procurar suas ligações com o real, com o palpável, com o concreto, com o verdadeiro, o efetivo, o legítimo…

Idealismo e legitimidade. Eis um curioso encontro.

Quero acreditar no que existe, no que vivo nessa esfera que acredito ser verdadeira. Isso deveria ser legítimo. Legítimo no sentido de puro, de castiço. Isso deveria ir ao encontro do idealismo. Parece simples, mas não é o que acontece. E nem poderia, afinal, o ideal vive, como a própria palavra suscita, no campo da ideia.

Mas a realidade que acreditamos também reside em nossas crenças. Nossa mais palatável certeza é também uma crendice. É fé. Até minha mais severa descrença é fé. Uma certeza de estar correto que é baseada em evidências psicossomáticas, pois que, se pode haver opinião diversa, eu não poderia ter certeza.

Por isso eu e você vivemos o mundo que acreditamos estar vivendo. E isso é fantasia. Nada pode mudar isso.

Nós somos uma caricatura. Somos uma crença do que somos. Nem sequer conseguimos unidade em torno do que somos. Ninguém acha de você o que você acha. Longe disso, com certeza.

Projetamos o real. Idealizamos o legítimo. Damos forma ao que imaginamos e o tratamos por existente, por certo.

E tudo isso com o controle inócuo que supomos exercer. Que queremos exercer, na verdade. Mas as minúsculas variáveis sempre resolvem se exibir na sua mais absoluta independência – e todas elas são assim – e lá está toda a realidade abalada. Modificada. Reestruturamos e seguimos. Desavergonhados que somos, como se nada tivesse acontecido.

O que sinto é que viver com a faca nos dentes – afiados e rangentes – não faz sentido. Mas como solta-la se o que sinto é tão real? Como lidar com esse universo tão vívido que é tão virtual quanto o digital. A arte é seguir vivendo. Uma arte que não domino. Uma arte natural àqueles que não pensam sobre a existência dessa arte. Àqueles que não pensam, enfim.

Pensar é crime com castigo automático; dada a inconstância do ser e do estar, agora entendo a ausência de sentido na arte final. Pobres e felizes os artistas que duvidam de si mesmos e que nem sequer acreditam na completude de suas obras. Mas o padrão dita a regra e a regra indica o que é essa a tal realidade.

Que o mundo siga sendo o que é: nada. Ou o tudo que inventamos e acreditamos a cada segundo.

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16 Comentários

  • Graciete vVrgínia Rietsch Monteiro Fernandes escreveu:

    Um pouco irrealista, um pouco pessimista, mas bem escrito.
    E o que penso eu?
    Viver um dia de cada vez, com os olhos postos no futuro que desejamos de Paz, Igualdade e felicidade.

  • Preciso de mais tempo para refletir,entretanto acredito,como o Sr. que somos uma crença do que somos.A nossa mais palatável certeza é também uma crendice.
    Afinal,o que sabemos?Ou será que sabemos alguma coisa?

  • Bernadete escreveu:

    O que somos nem sempre é o que sentimos. Usamos máscaras para driblar a realidade. Não somos capazes de enfrentar nosso próprio eu por medo da negação da sociedade hipócrita, injusta, capitalista. Encontraremos o verdadeiro sentido de tudo quando a coragem sobrepor a hipocrisia.

  • Virtual ,ou não é isso que temos como realidade.O que somos não é apenas que sentimos mas ,também,o que refletimos.Usamos máscaras para nos apresentar á sociedade em que vivemos.O nosso eu mais profundo e verdadeiro nem sempre é conhecido por nós mesmos.Não é por medo da sociedade,mas por medo de enfrentarmos algo que não desejamos saber.inutilmente pois o que está subjacente mais cedo ou mais aflorar´de forma ,as vezes,como doença.

  • Thais Proença Diniz Pena escreveu:

    Excelentes reflexão e ótimos comentários.

  • Marly Nádia Fernandes escreveu:

    Belas palavras. É bem assim que percebo o mundo. “Na ausência de tudo, nada importa ser”.

  • Se tudo é ausência,como podemos ser?
    ” ser ou não ser.Eis a questão”
    Se somos,queiramos ,ou não, precisamos dar valor aquilo que nos torna humanos.

  • Dio Santo!!!! A mente é assassina do real, Madame Blavasky ja dizia….no mais, hoje, era de aquario, sim, cada um tem sua verdade e faça disso o melhor…estamos na era de todas as possibilidades…e mais….nao e utopia nenhuma de vossas verdades, senhores!!! Cada verdade é única….O problema é a mentira…Não podemos pensar???? Muito pelo contrário…esta é a era que verdadeiramente nos permite pensar e expor nossos sentimentos, ideias e QUESTIONAMENTOS…O TUDO que inventamos e criamos a todo instante são fundamentados em questionamentos provindos de pensamentos, que colocamos a prova….nos despimos e …sim!!!! NOSSOS DEVANEIOS PODEM SER VERDADES….para nós! O que vale o mundo se quando vc sofrer ou chorar, ele nao estará lá para te confortar! Isso é real…o resto, vc e só vc vai poder dizer!!!! Siga seu coração e…Haryyyyyy….Continue!!!!!

  • “Cada verdade é unica” eu acredito nisso só á medida de que ninguém chegou a verdade objetiva.Nós possuímos a verdade subjetiva(a nossa verdade).Entretanto como ela, para mim,é como uma figura geométrica da qual eu só vejo uma face ,.naõ posso afirmar(nem negar) o que outra face revela.
    Quanto ao pensar é inevitável pois somos seres pensantes,embora nem sempre sejamos reflexivos(o que é muito diferente).
    Como homo sapiens temos que evoluir para o homo sapiens.apiens …..para que nossos devaneios possam se tornar “verdades”…

  • Rafaela Oliveira escreveu:

    Lindas reflexões Hary, adoro como reflete o mundo que pra mim é tão infinito em peremptoriedade, verdades mudas, realidades cegas, crendices surdas. “A arte é seguir vivendo. Uma arte que não domino. Uma arte natural àqueles que não pensam sobre a existência dessa arte. Àqueles que não pensam, enfim.”

  • “Nós somos uma caricatura. Somos uma crença do que somos. Nem sequer conseguimos unidade em torno do que somos. Ninguém acha de você o que você acha. Longe disso, com certeza.”
    Você fala com a minha boca!! Muita similitude de ideias! Porém queria eu ter esse dom de colocá-las no display com tamanha perspicácia!!
    :D
    Beijos

  • Curiosidade: este seu texto foi escrito no dia do meu aniversario! Bem apropriado as minhas reflexões naquele momento!

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