O doce sabor da traição

Traímos e não traímos pelo mesmo motivo: nosso egoísmo sem limites. A única diferença é que uns precisam expandir seus domínios, suas posses, e outros se sacrificam contra sua própria essência na tentativa inócua de garantir que sua posse não será tocada.

A libido, o desejo, as vontades, o tesão são comuns a todos. Algumas religiões impuseram regras rígidas, coibidoras, mas o sentimento estava lá, presente o tempo todo. Os homens tiveram uma vida mais fácil. Até agora. As mulheres foram submetidas a milênios de submissão por seus machos predadores; pseudoproprietários. Agora, uma grande parte delas ganha a opção de viver em liberdade. Liberdade então é sinônimo de traição? Não, liberdade é sinônimo da possibilidade de escolha.

Mas por que traímos? Por que não traímos? A lógica é perversa. E se aplica aos dois.

O não trair é uma opção severa, autoflageladora e, principalmente, egoísta. Como se essa opção fosse aquela que “mais protege” a outra pessoa. Não é verdade que a ideia seja proteger o outro. Fato é que o objetivo é aplicar o cinto de castidade mais justo possível, poder cobrar fidelidade e se proteger. Simples, assim. Não trair é uma decisão individualista ao extremo. É uma arma poderosa para qualquer enfrentamento. Ninguém tocará na posse obtida, mesmo que isso me custe conviver com uma repressão autoimposta. O gozo aqui mora na certeza de ser o dono da situação, de ditar as regras, de ser obedecido e respeitado.

O trair é uma opção fácil, sórdida e, principalmente, egoísta. É querer expandir seu território sem perder a terra natal. O porto seguro. Fato é que o objetivo é ter tudo ao mesmo tempo. Os benefícios de ser cuidado, que só uma relação estável pode proporcionar, e a volúpia do sexo fora do relacionamento, que vem encharcada de adrenalina. Há quem ouse dizer que trai para manter o apetite sexual e proteger o outro, mesmo que isso lhe esteja valendo um sonoro par de chifres. O gozo aqui mora na certeza da impunidade, no alimentar o corpo com a adrenalina do medo da descoberta.

Como é fácil notar após essa associação, não existe lado vencedor, apenas o império da hipocrisia – alimentada por uma opção de manter o status quo e seguir o gado tomada por todos nós ininterruptamente e, claro, irracionalmente.

Existe opção? Raciocinar sobre o tema, pode ajudar. Um bom começo pode ser tratar as relações sexuais pelo que são de fato e com clareza e as relações sentimentais com o respeito que o outro, como individuo, tem direito e merece. Trair é quebrar o contrato. Definir um modelo de possibilidades atingíveis, que não mutilem os seres, é necessário. No tempo, deveria ser inexorável. Isso é desculpa para aceitar o sexo fora do relacionamento, dirão alguns. Tolerar pode ser uma palavra melhor, mas a ideia é que as pessoas encontrem o seu próprio modelo funcional e não o que está na prateleira. Não deveria existir uma regra pré-estabelecida para o funcionamento de uma dupla (ou um trio ou quaisquer outros números, se já se inicia uma abertura de ponto de vista).

Parece fácil mas, no modelo atual, quem opta por tentar uma opção distinta é tratado como desregulado, louco ou simplesmente um tarado ou maníaco sem controle.

As frases “você não pode ter o melhor dos dois mundos”, no sentido de privar, e “trair faz com que eu me sinta melhor; faz até bem para minha relação”, no sentido de justificar, não teriam espaço em um relacionamento baseado na verdade. Desde que, é claro, seja construído sobre uma base sólida, onde necessidades e desejos de ambos são respeitados no momento da criação das regras. Isso mesmo, criação a partir de uma análise dos envolvidos e não “copiadas e coladas” de um lugar comum qualquer.

A discussão não abandona a questão de separar sexo de amor mas não a estabelece como caminho único. Um existe sem o outro – e isso é claro e já cansativamente demonstrado. Podem ser melhores juntos – e isso também é fato. Importante mesmo é encontrar os pesos ideais para cada relação. Relativizar a importância de cada tipo de evento.

Abrir espaço para esse tipo de diálogo se torna fundamental em uma sociedade que está descarrilada e em alta velocidade. Uma sociedade que é estimulada o tempo todo e não se oferece a si mesmo tempo para contemplações psicológicas desnecessárias.

Faça da sua vida e da sua relação um paraíso na Terra. Chegue à última estação tendo certeza que, ao desembarcar do trem, você terá vivido o melhor que o mundo te ofereceu, sem ter deixado corpos feridos para trás. Só uma relação onde os parceiros buscam atender as necessidades de ambos e de onde se expurgou a mentira, permite essa chegada triunfal.

Share

Comentários no Facebook

comentários no Facebook

6 Comentários

  • Olhando do ponto de vista masculino pode ser assim.
    Mas o que e mesmo uma traição? Uma descarga elétrica sexual a partir de um desejo do instinto primário que sentiu por outra pessoa, que não aquela que se está relacionando no momento, isso é traição? No meu olhar não. Isso é um momento de imaturidade e irracionalidade. De ceder aos instintos primitivos. Vejo a traição quando a pessoa quebra a confiança na relação, mente, engana, faz com que a outra pessoa seja iludida. E ainda quem trai possui o sentimento de posse dobrado.
    Trai são para pessoas não evoluídas. São cérebros instintivos e medrosos, que não conseguem evoluir numa relação de total entrega, verdadeira. Quando uma relação não possui amor, paixão, a atração e a total entrega, ela não precisa mais continuar. E ai parte-se para outra. Porque manter algo que não existe mais? E ir atrás de utras ao mesmo tempo? Sensação de posse e muita falta de coragem de recomeçar. Ficar com as duas, três….
    Portanto, traição é posse e muita covargia, além da falta de sentimentos puramente humano na essência da palavra.

  • Não traímos apenas os outros; mas também a nós mesmos!!!

  • as vezes a falta de comfiança nos leva a pensar que a pessoa amada nos traiu…se não houver confiança pq levar adiante um relacionamento. Se houver confiança ,que bom seria que ambos exercessem sua liberdade… pq viver com a companhia da desconfiança,seria viver? Ninguém é dono de ninguém, vamos conquistar a cada dia quem vc ama e ele(a) nunca te trairá…VALORIZE VC…

  • Leila Werres escreveu:

    Traição,para mim,é a falta de amor ao outro.
    Quando sentimos amor,nenhuma outra pessoa nos causa interesse.
    Quem ama respeita e não machuca intencionalmente.Portanto,para mim,traição é falta de amor.

  • a não traição pode ser sinônimo de individualismo no sentido de amar-se , de valorizar-se e de não querer perder algo importante em sua vida. quem se ama verdadeiramente não trata o seu corpo como um objeto de prazer.

Deixe uma resposta

Seu email nunca é divulgado.Campos obrigatórios são marcados *