O que os mortos querem de nós

Nada. Simples assim. Não é tão difícil entender. Nada. Ponto final.

Dia de finados é uma data bem curiosa. Exibe em toda sua imponência o apego que as pessoas têm pelo pós-vida. São rituais dos mais diversos de adoração a alguém que não está mais ali. Na verdade, é uma adoração opulenta a restos mortais – mais ou menos apodrecidos pelo tempo. Olhos lacrimejados olhando fixos para uma lápide.

Cemitérios são a prova mais cabal de nossa desorientação neste planeta e de desconhecimento sobre nós mesmos. Ver jovens mães em seus vinte, trinta anos levando seus bebês para adorar alguém que partiu é deprimente. Aprisionam seus filhos no passado. Não os ensinam a olhar o futuro. É uma lamentação sem fim, sem objetivo, sem sentido e sem benefício.

Ainda que tivesse qualquer nexo, qual é a necessidade de tornar esse momento coletivo. Buscar alguém em pior condição? Apoiar-se na dor alheia? Claramente é para se vangloriar de uma suposta desgraça e de uma condição de sofrimento – o que é católico por essência. Aqui sem críticas à religião, mas associando elementos clara e intimamente ligados.

Mesmo que existisse vida após a morte, não é concebível imaginar um só espírito se regozijando porque alguns vivos aparecem na sua lápide uma vez por ano e choram sua partida e nos outros trezentos e sessenta e poucos dias do ano ignoram sua antiga existência e sua atual ausência.

A explicação para o fenômeno que move bilhões de pessoas parece simples: o ser humano ainda não aceitou sua condição mortal e falível e não sabe lidar com a perda; principalmente esta que é definitiva. A morte encerra a vida. Fica a história. Fica a biografia. Para que essas duas sejam lembradas na vida de alguém não é preciso uma data específica. As marcas que alguém pode deixar nas pessoas com as quais lida em vida contêm em si toda a significância que é necessária. Se os riscos forem suaves, se apagarão rápido. Marcas profundas não são esquecidas e, o principal, passam a fazer parte do que são as outras pessoas para sempre.

Uma mãe que perdeu seu marido amado ainda jovem enquanto seu filho sequer sabia andar sozinho tem toda a memória do marido que precisa para ajudá-la a criar seu filho. Isso é muito importante. Contar as ideias e ideais do pai para o filho parece bem interessante: transmite o legado e até pode fazer a criança entender alguns de seus comportamentos vindos de seu código genético. Levá-lo para adorar um corpo apodrecido é torpe.

As histórias de todos os que se foram – amados ou não por quem ficou – fazem o mundo ser o que é hoje. Não se reunir em torno de um açougue submerso em terra e coberto de mármore não é ignorar o papel que essas pessoas tiveram. Entender como elas fazem parte do presente, como influenciam o futuro e utilizar parte de seus legados no dia a dia – nas horas que mais importam é a melhor forma de adoração de um ente querido que se foi. Não sucumbir à catarse do dia de finados parece um bom primeiro passo para se distanciar desse mundo de pessoas de costas para o futuro.

Que se cremem todos os corpos sem vida. Isso talvez seja um pequeno passo sentido ao desapego – uma ajuda a quem ainda busca em um jazigo a cura de uma dor sem remédio: a dor da morte.

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2 Comentários

  • Sus textos são ótimos e suas reflexões muito pertinentes, muito foda cara! Infelizmente muitas pessoas simplesmente parecem aceitar a representação das datas comemorativas como algo tão genuíno a ponto de substituir a relação humana. Lembranças mórbidas de relacionamentos que em vida fora celebrados com presentes de data e hora marcadas.

  • Fernanda Reis escreveu:

    100%

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