Se a cultura pop é burra, quero me afogar na minha própria ignorância

De hoje em diante, só leio o que eu próprio escrever. Por quê? Contextualizo: abro a Rolling Stone. Primeira matéria escolhida. Uma das primeiras da revista. Sobre Dave Grohl – que ganha isso como suas aspas: “Deixa-me eu assistir primeiro”. Duro, né? Erro de revisão, penso eu, sendo legal. Raro, eu sei. Segunda matéria escolhida. Sobre a tal Banda Mais Bonita da Cidade. Nunca ouvi, mas vamos tentar entender do que se trata tal fenômeno. Lá pelo meio do texto descubro que, a certa altura, um vídeo desses artistas já possuía mais de “três milhão” de visualizações em tal site. De fuder, vocifero mentalmente. Largo a revista. É muita falta de cuidado para quem se autointitula a voz da cultura pop. E isso tudo sem sequer ter precisado virar uma página.

Eu, que não me autointitulo porra nenhuma (e isso é um prazer), posso escrever qualquer coisa que me venha à cabeça e pronto. Não tenho compromisso com o idioma formal. Eu não me vendo em banca. Eu não vivo dessas palavras – gostaria, mas ainda não rolou. Eles não podem e ponto final. Quer dizer, ponto final desse parágrafo porque ainda não entrei em ponto nenhum, como você leitor, já irritado e, claramente, em busca de erros no meu texto, está pensando agora. Já entro. Antes disso, fique à vontade para apontar os erros. Eu não vou revisar esse texto. Não de pirraça. Pura preguiça. E eu posso. Eles não.

O ponto é que no nosso mundo – o dos supostos formadores de opinião, bebedores das fontes mais ricas de informação do planeta – nos achamos seres superiores. Esses erros bobos da RS (eles gostam de se chamar de RS) são um mísero pingo de chuva no oceano de boa informação, eu sei. Mas esse oceano me fez pensar sobre o mar de hipocrisia que nos rodeia. Nos vangloriamos tanto de ser a elite pensadora do país e ignoramos o resto. Todo o resto. Tanto que sequer lemos a nós mesmos. Enfim, estamos onde eu queria chegar. A RS se gaba por poder educar, influenciar, entreter, etc etc etc e não lê a si mesma. E assim temos sido. Ou assim somos de fato – muito mais provável.

Não tenho nada contra a Rolling Stone. A coitada só calhou de acender o pavio desse rompante. Se sequer olhamos mais para nossos umbigos, para onde estamos olhando afinal, cacete? Para onde? Nossa geração superinformada não domina nada. Não sabe nada completamente. Critica quem estuda demais. Quem se dedica demais a qualquer coisas que seja. Há que haver tempo para tudo. Mesmo que na soma não se obtenha a quinta parte. Outro dia na tevê, um quilombola que acabara de formar três filhos no ensino médio afirmou singelamente a uma repórter que o entrevistava que aquilo que eles haviam adquirido era pra sempre. Aquilo não se perdia. Aquilo a que ele se referia é tudo o que somos. Somos a soma exata de tudo que aprendemos. O resto são coisas que temos – e que em breve podemos não ter mais. O resto é o estado em que nos encontramos. Ninguém é gerente, coronel, pedreiro, presidente. Estão nessas posições. E isso muda no estalar dos dedos.

Ainda não descarrilhamos, mas certamente não temos freios, não temos destino – vamos ao gosto do trem. Estamos em um nível de velocidade, de sede do novo, que nos tornamos crianças de novo. Pedimos o álbum de figurinhas por meses e com ele em mãos, vamos jogar bola ou pedir o videogame que deve ser mais legal. Não saboreamos mais as conquistas. Nos rendemos à frugalidade dos nossos tempo. Condenável? Não. Assim nos criamos e se o mundo é o que é, o desenho é nosso. Temos nossa cota.

Frugais. Eis no fim o que nos tornamos. Canibais que sequer acabam de devorar a carne. Querer a próxima coisa se tornou inexorável. Não sou diferente. Só é mais difícil quando você reflete sobre o que se tornou (ou o que sempre foi?).

Vou me jubilar muito pouco sobre cada glória e aspirar imediatamente o próximo prazer que não tenho. Sem que nem tenha tido a íntegra do anterior. Se é que poderia haver fim. Foda-se, eu quero mais. Sou como todo o resto de zumbis movidos a oxigênio e circulando a esmo. Assim posso me apetecer sobre qualquer coisa que quiser e me deprimir por qualquer outra. E se puder fazer tudo isso sendo o mais ignorante possível, que assim seja, pois todos os ouvidos estão fechados e a internet arreganhou bocas tremendas e vazias. Se a cultura pop na qual me embebedo, da qual me gabo, a qual suponho influenciar, é tão burra, vou beber da minha própria estupidez e insistir em ser eu mesmo. Seja isso bom ou ruim. Para mim ou para qualquer conviva. Um salve à minha ignorância e à minha petulância que, espero, se perpetuem infinitamente.

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