Todos errados

Somos brasileiros. Temos orgulho de sermos brasileiros. Quando joga a seleção de futebol. Ponto final!

Agora, aos protestos e o festival de erros de todos os envolvidos.

No Brasil, somos país, na acepção de terra, lugar, conjunto. Somos nação exclusivamente por termos conseguido, a duras penas, ter isso aí que chamamos de democracia, um sistema lunático de leis para nos reger e acreditar que nos autogerenciarmos. Não somos uma pátria.

Uma história rápida: cruzei por terra o estado da Virgínia, nos Estados Unidos, onde desembarcaram, em 1619, os primeiros negros. Naquela época, um grupo de cidadãos desbravava a América e a fazia pátria por suas próprias mãos. Estavam lá por conta própria, tornaram-se americanos. Os escravizados foram jogados lá. Depois de libertos, criaram seu universo paralelo. Centenas de anos depois, os bairros das cidades são claramente divididos. É nítido identificar os “bairros negros” e os “bairros brancos”. E o que isso tem a ver com os protestos no Brasil? À frente da maioria absoluta das casas “brancas” trêmula uma bandeira (sempre em bom estado) dos Estados Unidos. Elas inexistem nas casas “negras”. Os criadores daquele lugar o chamam de pátria, os jogados lá depois, não.

Patriota é uma palavra inexistente no vocabulário usual do brasileiro. Segundo o Michaelis, “amor da pátria, devoção ao seu solo e às suas tradições, à sua defesa e integridade.” Estamos mais acostumados a uma outra definição do mesmo dicionário: “teoria que faz prevalecer o direito individual sobre o coletivo.” A isso se chama individualismo.

Nossa construção histórica nos trouxe até aqui. Construímos esse país “a mando”. Nunca o tomamos de verdade. As capitanias hereditárias ainda estão aí e nós, a classe média que vive bem e se aproximou dos Capitães, não estamos nem aí.

Os erros.

Manifestantes – a experiência mostra que descambar pra violência e vandalizar tira força da manifestação. O movimento precisa se esclarecer sobre o que ele quer ser. Ser o movimento do “não é” (pelos 20 centavos) o prejudica e lhe tira o sentido. Afinal, não existe uma voz sequer dizendo que estudou os números e que o governo está mentindo. E fica, mais ou menos, claro, que grande parte dos excitadores dos embates estão ligados a partidos políticos ou afins. (Sim, o PT quer tomar o governo de São Paulo e, sim, o PT quer desestabilizar o “amigo” Cabral, no Rio) Não posso deixar de ressaltar que é um orgulho ver gente que se dispôs a sair de casa para protestar, nesse país entorpecido, paralisado.

Polícia – a estupidez das imagens (estáticas ou em movimento) fala por si só. Mas a combinação é das piores. Uma tropa despreparada e mal remunerada, liderada por políticos omissos e incentivada pela opção vândala de uma parte pequena dos manifestantes que quer o enfrentamento. (Dessa forma, sem nenhum tipo de direcionamento, cai fácil na arapuca de quem a quer exposta, demostrando em fatos e fotos sua incompetência.)

Políticos – repetem um mantra: “apoiamos a ação da polícia, os abusos serão investigados”. Isso leva noventa por cento da cobertura. Os outros dez são para: “não temos meios de abaixar os preços, seguramos esse aumento por muito tempo.” Até agora, esses cidadãos (sim, eles são patriotas, de uma forma alternativa, às custas de uma relação Édipo-Jocasta, onde a Jocasta são as tetas do Estado) não se dignaram a convidar os movimentos sociais e as lideranças das manifestações para o diálogo e colocar seus negociadores à frente dos seus meganhas truculentos e mal treinados. Tampouco colocaram seus burocratas para explicar os malditos 20 centavos e sua suposta inexorabilidade repentina.

Justiça – não compareceu! Joaquim Barbosa e seus asseclas sumiram. A justiça de MG ainda conseguiu criar um AI-FIFA (lembra dos Atos Institucionais que os militares nos impingiam?). Estão vedadas manifestações em todo o estado das Minas Gerais durante os dias de jogos da “tradicional” Copa das Confederações.

Opinião pública (vulgo brasileiro) – adora compartilhar fotos, vídeos e, também, boatos, mas é de um egoísmo e individualismo ímpares (ímpar é uma palavra que lhes cai bem) e perdeu a noção do todo. Apesar de ter muita pena da repórter da Folha, está mesmo é preocupada com o trânsito que “esse pessoal” está causando. A falta de objetividade do movimento ajuda. Mas você já parou pra pensar que o brasileiro é um povo que não sai de casa para reclamar. É estático. Quando se vê estupefato pelos acontecimentos corre às redes sociais. Quando devia mesmo é tomar a frente da casa do prefeito, a frente da casa do governador, o palacete da companheira Dilma. Mas distribuir curtires e compartilhares é muito mais fácil. Temos locais tomados na Turquia e até mesmo na terra do Tio Sam, em sua simbólica Nova Iorque. Por aqui a “primavera brasileira” tarda e falhará. Lá ficaremos “deitados eternamente em berço esplêndido”.

Enfim, vamos todos juntos pro vinagre.

Ah, amanhã tem jogo! Não perca!

De qualquer forma, estou pensando em, na segunda, ir lá pedir meus 0,20 de volta, pela primeira vez.

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12 Comentários

  • Henrique Simões escreveu:

    “Todos errados”, e você também. O tempo é o verdadeiro senhor da história. Quem viver veremos!

  • Valmira Gonçalves Fernandes escreveu:

    Muito bem escrita e compatível com “Todos errados”, mas a minha sensação é de que a época em que estivemos todos embriagados com a necessidade de ir às ruas, passou. A juventude de hoje já não pinta a cara, senão para ir à balada, já não se movimenta senão para surfar, e pega no anzol só para fisgar as gatinhas dadivosas. Os adultos também já entregaram os pontos. Já não se dispõem sequer a saber o que está acontecendo no mundo. Você escreve um texto dizendo que o berço da Democracia, a Grécia, está amordaçada, porque um títere de um teatro de fantoches resolveu fechar todos os meios de comunicação públicos, para reabrir como uma colorida privada, não se sabe de onde vem o capital, e não encontra sequer um curtir, que dirá comentar e compartilhar. A Comunidade Europeia diz: eles que são brancos que se entendam. Os suicídios de gregos, espanhóis, portugueses, italianos e, agora, turcos, nem sequer são divulgados. Morreu, acabou-se. Procure ver no Facebook quem está de olho na PEC 37, suas asas abertas para proteger, não os inocentes roubados, mas os culpados corruptos de qualquer sanção… Essas mesmas páginas que estamos escrevendo livremente agora, poderão estar sob o olho do Grande Irmão que tudo vê, na lei do terrorismo que será votada até agosto deste ano. Qualquer um pode ser considerado um tenebroso terrorista capaz de planejar um atentado aqui mesmo, nos grandes eventos, ou noutros países em perigo, para onde poderíamos embarcar com uma garrafa de vinagre…Na verdade, o que falta? Umas pessoinhas chamadas lideranças. Capazes de ser ouvidas pelos liderados e levadas à ação sem, necessariamente, a violência fascista que quebra o cassetete nas costas de pessoas tão miseráveis e desgraçadas como eles próprios, os portadores do bastão e das balas de borracha…Que não têm consciência disso e, como os nazistas de Hitler, obedecem às ordens de seus senhores. A mídia ainda estimula: É preciso acabar com essa baderna! Rende Ibope e vende muito jornal. Quanto mais sangue melhor, porque o cheiro de sangue acelera o ódio da multidão. Enfim, ficaremos todos em silêncio, marchando sem dizer nada para o matadouro. Como foram os cordeiros e os judeus para os campos de matança. No futuro, alguém perguntará: Mas, por que eles não fizeram nada? Não estaremos mais aqui para responder e essa pergunta ficará com os nossos filhos e os seus filhos, para sempre um mistério, sem explicação. A não ser, nós já vimos esse filme antes. Isso é só uma reprise.É a lei do eterno retorno. Tudo que houve, haverá mais uma vez. E outra…e outra. Um país tão lindo merecia um destino melhor. Seus filhos precisavam vestir outra roupa do que a de “coitadinhos dos brasileiros…Com um chapéu nada dá certo”.Somos um país provisório, governado por medidas provisórias,com um passado provisório e um futuro mais ainda. E olhe que sou do bloco dos otimistas.

    • Gustavo escreveu:

      “Na verdade, o que falta? Umas pessoinhas chamadas lideranças.”

      Lideres são utópicos e desnecessários. Temos lideres no congresso e o país tá uma “bagunça”. Temos líderes em todos os lugares e ainda ta tudo uma “bagunça”. Quando percebemos que nossa vida é regida sem essa ilusão, vamos dar um salto na interrelação social. Criamos a todo momentos pontos de referências para entender a realidade e se ambientar nela (signos, partidos, ciência etc). Mas aceitar apenas isso não é suficiente para entendermos a nós mesmos e o que podemos fazer.

    • Valmira, “um país provisório” talvez seja a melhor expressão que eu já tenha ouvido para descrever esse país sem “indentidade”.
      Eu não sou do bloco dos otimistas, mas nos últimos tempos tinha tentado acreditar. Agora, minha casa caiu! Quer dizer, a casa da maioria “tá” caindo.

    • Gustavo, eu tinha mesmo curiosidade em conhecer um lugar anárquico, por definição. Deve ser antropologicamente interessante. Mesmo que fosse em outras espécies. Como não entendo muito e nesses tempos de MPL, comecei a ler ‘A Anarquia e os Animais’, do Élisée Reclus. Vamos ver se aprendo algo. Ainda acredito em hierarquias, mas não acredito em absolutismo. No fim, o que tenho certeza é que ainda não encontramos a forma.

  • Filho da puta escreveu:

    Nunca vi alguém defecar tanto pelos dedos. Que merda de postagem!

    • Valmira Gonçalves Fernandes escreveu:

      Um jornalista brasileiro agredia Antônio Houaiss, o grande filólogo e dicionarista, com as maiores grosserias. A única vez que Houaiss se deu ao luxo de responder, foi com uma simples frase:

      “Não é matéria digna”.

      Desde então, só faço repetir a mesma frase (citando o autor) para os insultos nas redes. Um insulto é uma porcaria qualquer, de segunda mão, embrulhada com papel velho de jornal e amarrada com um barbante tirado do lixo. A pessoa tenta lhe entregar o presente, mas você só recebe se quiser. Eu não recebo. Nunca recebi, nem recebo, nem receberei. Simples assim. Outro parente do insulto, a humilhação, só se completa quando a pessoa a quem se tenta humilhar, consente. Nunca consenti, nem consinto, nem consentirei. Portanto, essa pobre criatura que se autointitula de filho da …., deve considerar o mundo o que ele é – um espelho. E os excrementos, simples projeção da própria cabeça. Por mim, considero encerrado o assunto. Esse tipo de coisa faz parte do lado das trevas e a mim, só me interessa o lado luminoso da vida. Fim.

    • Democracia deve ser mais ou menos isso: possuir um espaço aberto a comentários e entender (aceitar) que esse tipo de comentário pode ocorrer. Também já me faltaram palavras para estabelecer uma ideia, algumas vezes. Não lembro de ter xingado, contudo.

      A democracia também permite que se proteste usando máscaras. É como se esconder nas redes sociais. Falta coragem, mas é tudo muito novo, é compreensível.

      Tecnologia e pressa são uma combinação interessante: aqui no site, por exemplo, ao se comentar, você escreve o próprio nome. Há quem se autointitule “Filho da puta”, fazer o quê?

      Valmira, obrigado pelo comentário. Algumas vezes, mesmo que pareça desperdício, é preciso gastar um tanto de pérolas com porcos. Às vezes, eles se encantam e crescem um pouco (quiçá fiquem até mais limpinhos).

  • Gustavo escreveu:

    Harry, não cito aqui a Anarquia. Apenas mencionei que vivemos já uma espécie de anarquia, mas estamos tão apegados a referências que esquecemos disso. Todo mundo sabe o que fazer, o mínimo, mas sabe. Criamos essas espécies de referências para ter quem punir ou prestigiar; pq no fundo, todo mundo tem um pouco de culpa, todo mundo é responsável. Estamos atrelados socialmente uns aos outro e não percebemos o quanto minha vida depende da sua. Notar essa comunhão (e valorar o Outro), seria uma forma de mudarmos (conscientemente). Acho a ideia do anonymous válida e extramente pontual, pois somos um, somos legião, somos seres humanos. Se um é cortado, existem todos os outros.

  • Gostei do assunto, o post foi legal. Viu, algum colega daqui já ouviu falar daquele colchão que é novidade o famoso colchão inteligente pra me contar se é o que faz bem mesmo? Minha médica me disse que tira a dor mesmo. http://ocolchaointeligente.com.br Parece que melhora até insonia.

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