Zé Dirceu – um estadista a la José Bonifácio e Ruy Barbosa

José Dirceu está morto e entra para a História como um grande estadista

Considero a contribuição do Zé (ando íntimo com ele há muito tempo; superexposição na mídia, sabe como é?) para o progresso dessa nação babilônica, no mesmo nível da de Ruy Barbosa e José Bonifácio. Que se guarde um capítulo especial para ele na História nacional.

(pausa para pedradas afoitas dos leitores mais radicais e para os “lá vem” dos que me conhecem um pouco melhor.)

Após pedras lançadas e impropérios e desaforos cuspidos, se veem almas menos furiosas; é hora de ativar o cérebro.

Continuo e me explico. Primeiro no que tange ao comparativo com os supracitados, existem duas diferenças básicas e cruciais: Zé Dirceu foi mais ousado e mais confiante. Nessas características residem seu sucesso e sua ruína.

Como não se cansam de repetir atualmente num uníssono midiático, nas sábias palavras de Antonio Fernando de Souza, procurador responsável pela denúncia e, por sua coragem e veemência, o verdadeiro responsável por estarmos hoje assistindo a essa peça teatral do mundo real, Dirceu montou uma “sofisticada organização criminosa”. Eis o que fez de melhor e o que não poderia ter deixado de fazer. É como o papel de Judas no conto cristão. Condenado por cumprir o papel a ele designado em um plano maior e mais nobre, levou a pecha de traidor. Sem ele não teriam os homens sido salvos, vale lembrar.

E antes de seguir, um desagravo a Joaquim Barbosa, egrégio ministro da nossa corte maior, alçado ao papel de herói nacional meramente pela coragem de cumprir seu papel. Ao citar o ilustre procurador não tento retirar o mérito de Vossa Excelência, pelo contrário, na mão de alguns dos ilustres ministros que sentam ao seu lado e hoje degolam os acusados (sob pressão da opinião pública) estaríamos saboreando uma deliciosa pizza (obviamente acompanhada de um delicioso Bourgogne de Romanée-Conti, vinho nobre ao qual se habituaram os membros da elite petista que se viu subitamente no poder no dia 1º de janeiro de 2003).

A fábula do sucesso dos trabalhistas começa com um pequeno choque de realidade. Um misto de excitação e incredulidade e um sentimento generalizado de “e agora?” que eles queriam fazer crer que não existia. Mesmo com todas as concessões e promessas impublicáveis que devem ter sido feitas para que se montasse a chapa vencedora, agora era pra valer. O que esperava os vencedores havia sido consolidado em palavras por Herbert Viana, ainda em 1995: “Luis Inácio falou, Luis Inácio avisou, são 300 picaretas com anel de Doutor”. Era preciso governar. A conta a ajustar com os “neoaliados petistas” já estava na mesa.

O único monarca trabalhista preparado para a missão de tornar o projeto de poder real era Dirceu. Por quê? Além de suas habilidades diversas em negociação (seja em qual medida for) e seu maniqueísmo atroz e cintilante, esse era um trabalho que deveria ocorrer nos bastidores. Lula não teria o tempo integral necessário à tarefa. Apesar de, potencialmente, dar as cartas, o presidente tinha que se ocupar de outras tantas tarefas no processo visionário de tomada (e manutenção) do poder.

Dirceu executou quase com perfeição seu trabalho. O país caminhou e o trem petista pôde seguir viagem a todo vapor atropelando opositores sem rumo e sem discurso. Aí entraram em cena as citadas ousadia e confiança do maestro. Ele não teve medo de executar o plano engendrado nas alcovas paulistanas do partido. Era preciso comprar os líderes dos médios. Partidos com gente suficiente para, somados ao PMDB, e aos aliados de sempre (socialistas e comunas do século XXI – impressionante, não?) garantir ao PT a capacidade de, além de governar, fazer o que realmente interessava – e que tinha que ser feito – bulir na intocável constituição de 1988 alterando-a ao bel-prazer e interesse dos novos e atrevidos comandantes da pátria.

No entanto, a sede generalizada de uma horda de sanguessugas e o gigantismo do pote de mel tornaram a situação insustentável na medida em que, em algum momento, enfrentamentos iam ocorrer em torno das fatias da carne fresca do animal recém-abatido. A confiança exacerbada de Dirceu (pode se chamar de petulância) o fez ignorar a farra no seu subsolo e o posterior e óbvio vazamento das práticas espúrias e necessárias para manter as rédeas da nação.

Pode ser que isso pareça uma justifica àquelas práticas nefastas – e, em certo aspecto, o é – mas o que importa é que sobrevivemos 10 anos sob um modelo misto do chinês, americano e francês (Estado controlador, focado no capital e no consumo e com práticas assistencialistas demasiadas). Algumas novidades, dado que esse mesmo clã (ou bando) amedrontava a todos, anos antes. Isso, é claro, os mantinha enclausurados no seu discurso poético mas inaceitável às elites dominantes (a Banca, como sempre, a Mídia mais poderosa, como sempre, as Empreiteiras, como sempre, e as mais Poderosas Estatais e seus Fundos de Pensão, como nunca). Sem esses, era impossível vencer, assumir e governar. No entanto, se juntaram à festa (essa frase vale para ambos os lados e, mais uma observação, as elites serão sempre as mesmas, salvo raras exceções como os petistas, por exemplo).

Voltando à empáfia do então Chefe da Casa Civil (ou número dois do país ou xerife-mor, como queiram). Nosso homem deixou que o descontrole de seus pretensamente dominados o fizesse cair do cavalo quando tudo ia muito bem, de vento em popa. O pior naquele momento é que a ultra-arrogante soberba era tamanha que não havia plano B. Às primeiras denúncias o que se seguiu foi um exército de histórias estapafúrdias, improvisadas e, em sua quase totalidade, estúpidas. Não souberam sequer ganhar tempo e foram enterrando-se mais a cada dia. Nessa hora Dirceu falhou. Pecou ainda mais por não acreditar que alguns poucos homens poderiam decidir enfrenta-lo mesmo estando ele sentado em uma das maiores jazidas de poder da pátria.

José Dirceu errou. Errou cálculo, estratégia e atitude. Tanto faz em que ponto e como errou mais. Errou e fez o trem chacoalhar nos trilhos ameaçando descarrilhar a qualquer momento. Nesse momento surgiu a faceta de herói de Tarantino do gerente de operações de Lula.

Em sua trajetória de peculiaridade ímpar, Zé e seus asseclas tomaram aquela que pode ser considerada a decisão mais acertada de todas: poupar o chefe da quadrilha. O homem que, em verdade, mandava prender e soltar – ou alguém acredita mesmo na ignorância de Lula. Não na ignorância dos fatos. Essa é simplesmente impossível; inimaginável. Falo da ignorância mental, de uma suposta estupidez que faria de Zé Dirceu o cérebro por trás de tudo e de Lula apenas um fantoche. Pasmaceira das maiores. Balela de tucano mal-amado e arrependido (todo tucano é um amargo arrependido, mas nem eles sabem de quê). Salvar Luis Inácio era fundamental. Ou tudo estaria perdido e o projeto de poder do partido da estrela tombaria.

Lula é genial, brilhante, um político primoroso. Faz de gafes, palanque. Prega a si mesmo num povo outrora largado (ainda largado, mas Lula fez crer que não) todo o tempo com seus mantras infalíveis. Amalgamou gente que antes não se tocaria. Do leproso abandonado do nordeste eufórico com a chance inédita de comer todos os dias via bolsa-família ao empresário sempre reclamão agarrado nas tetas do BNDES ou de incentivos dos mais diversos.

Ao optarem por arcar sozinhos com as consequências anátemas da descoberta de seu viveiro de bestas humanas fantasiadas de políticos de bem (com direito a bispos e tudo mais) que viviam sob seu comando, os trabalhistas permitiram que o país seguisse seu curso. Sem intervenções de um poder sob outro, sem impeachment ou algo que o valesse. Por mais justo que tivesse sido, o Brasil não merecia esse lastimável acontecimento àquela altura. Todo o povo brasileiro teria arcado com um preço alto demais. A recém-estruturada base de crescimento – ainda frágil à época – teria ruído como um castelo de cartas atacado por um tornado de nível F5 – o máximo. No fim, o país sobreviveu e, talvez, aprenda algo com a lição.

Zé Dirceu é um bandido. Formador de quadrilha. Merece o final que, ao que se desenha, terá. Pena que não lhe serão arrancados os milhões acumulados ao longo do processo e o gosto de vinho caro que lhe avioleta os dentes diuturnamente.

José Dirceu de Oliveira e Silva sai de cena como protagonista. Entra pra História.

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6 Comentários

  • João Carlos Dorea escreveu:

    Quando o país possuir educação “para todos” de qualidade, textos explêndidos como este, serão mais lidos e observados como lição, e histórias verdadeiras e lamentáveis como estas viverão so na história, pois todos sabemos que mensalões existiram, existem e existirão por muito tempo desde que as pessoas continuem “burras” na hora de votar,isso em todas as casas legislativas, por falta de conhecimento(educação)do povo.

  • joni domingos arioli escreveu:

    Minha querida, depois de ler esta descrição tão bem apanhada das grandezas e mazelas que nosso ilustre Jose Dirceu de Oliveira e Silva, fico pensando se sobrou algo que eu possa postar nesta pagina. Quando lembranças de atos já passados mas que me revoltam as entranhas e que não suavizam com o passar das horas, não consigo organizar um texto digno de postar sob o seu.

  • Dagoberto escreveu:

    Genial!

  • Katia Diniz e Ricardo Resende escreveu:

    FANTÁSTICO TEXTO!!!!!!!!!!!!

  • Henrique escreveu:

    Este texto é um reflexo de nossa realidade. Vida de gado: Povo marcado (pela ignorância), povo feliz (pela ilusão). Mas se a esperança for a última que morre, ainda espero que os políticos e seus padrinhos (empresários por trás do PT, do PSDB, do PMDB e de tantos outros partidos) um dia devolvam o nosso dinheiro e apodreçam na cadeia.

  • Hummanno escreveu:

    Um menino chamado Mensalão nasceu em Minas. No começo era uma criança feia, filha de um tal Eduardo. A criança cresceu um pouquinho e chegou na capital, logo foi adotada por um tal de Fernando, mas a mídia deu as costas pra criança, afinal ela era feia mas tinha sangue azul e o Brasil permanecia tudo azul. Mas eis que um dia o sol brilha ( como diz o dito o sol nasce para todos ), brilha tanto que o país fica vermelho. Os seres de sangue azul entram em choque. Aí fazem aquela brilhante reflexão, “Mas e AGORA??? Logo vem a resposta: “Nós ainda temos a Mídia, o Senado, E talvez a Câmara”. Pois bem, eles só não contavam com a transfusão de sangue que o menino feio de sangue azul, nascido em Minas iria fazer. E adivinha que cor que era o sangue que injetaram na criança??? Vermelho Óbvio. E novamente os seres de sangue azul entraram em choque, e fizeram aquela brilhante reflexão, “Mas e AGORA???. Qual foi a resposta; ” Fala que a criança é deles “.

    Sem mensalão, nem Lula , nem Fernando Henrique governariam esse país. O Brasil começa dentro de nós, se hoje você parou em cima da faixa de pedestres, se hoje você cortou alguma fila, se hoje você vendeu o seu voto, se de alguma maneira você tirou vantagem de um mínimo que seja do seu próximo, “Parabéns! Você Merece O País Que Tem”.

    “Nenhum homem é corrompível até que se faça a oferta”. E viva a democracia do neo-liberalismo…

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