Estranho pesar

Era o que era e isso é sempre verdade.

Mas é tão estranho esse pesar.

Tem a ver com as múltiplas escolhas; sobre como damos forma a nosso caleidoscópio do mundo real. Ao que somos. Ao que estamos.

Esse instante e só esse instante existe de fato. O resto se foi. O resto virá.

Mas é tão estranho esse pesar.

Um luto invertido, inimaginável e insensato.

Apenas um jogador liberta os dados contra a mesa; mas vidas e vidas habitam naquele momento. Podem ser modificadas por ele. Serão modificadas por ele.

Não importa o número, algo aconteceu.

O jogador é o culpado. Sempre. Intrépido sincero. Comete sincerocídio existencial. Porque quer existir. Persistir.

Mas é tão estranho esse pesar.

Os olhos fechados dão forma a futuros tão díspares. Tão amedrontador o descontrole da liberdade. Essas escolhas não são mais suas. Nunca mais. Está fora do limite dos seus dados. Dos seus dedos.

Será que pesa, pois se manifesta em ausência? Ou simplesmente porque sempre era possível ter desenhado outro caleidoscópio. Talvez com um pouco menos de amarelo. Ou talvez mais personalidade.

Outros pesares virão e é assim que é.

Mas é tão estranho esse pesar.

E ainda a inocência destroçada. Não podia sofrer mais. A única parte frágil, realmente frágil no meio do tornado. Uma carga tão grande para uma vida tão curta. Lá habita a saudade.

Mas o jogador agora se jogou inteiro no tabuleiro. Ele é apenas peça desse enorme jogo. Mas controla a si. Ainda. Ademais tem que assistir as outras peças se moverem. Algumas empurram outras. Algumas se aproveitam de outras. Peças grandes que controlam peças pequenas têm prioridade.

Todos jogam, diz a carta. E assim será.

Mas nada de mímica aqui. Razão. Não sem emoção. Se se mente no jogo da verdade, o que fazer? Girar de novo e escolher o próximo a mentir.

Mas é tão estranho esse pesar.

Biografia esquartejada pelo contador. Mas à História sempre caberão os fatos dos contadores. E apenas esses. Nada mais importa. Que sua História encontre melhor contador. Se é que existe um contador que se desemocione e se dispa de sua própria História para dar uma forma mais justa à narrativa. Se o contador está no elenco, o roteiro será uma colcha de farrapos, trapos sujos e vergonha. Mais ainda assim depende só dele.

Respeitável público, no picadeiro o drama. Mas a história contada ainda que real é sempre ficção. Mas se se está no picadeiro assistindo ao leão, ao palhaço, tudo muda de figura. Pode-se até julgar o trapezista, quem sabe? Mas às favas, os achares de quem perdeu o show enquanto se preocupava só com o valor do ingresso. Com o maldito dinheiro do ingresso. Há que se pagar por tudo, mas isso não é o principal. Há mais. Só os equilibristas sabem o que eles viveram ali. No picadeiro. Enquanto tudo ruía.

Mas é tão estranho esse pesar.

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