Felicismo

Acordei saindo fisicamente de uma tela.

O quadro ficava pendurado na janela do quarto.

A tela era pintada com tinta acrílica, basicamente com

cor branca, preto e nuances de vermelho.

Coisas estranhas acontecem em dias normais.

Respondi o bom dia de minha mãe

que passava pelo corredor.

Ela parecia um vulto de tinta

que flutuava descendo as escadas.

Desci para tomar o café que ela

fazia todos os dias e me fazia feliz -

pão na chapa e café com leite.

Estranhamente ela usava uma máscara,

meu pai sentou-se à mesa usando também.

Vestiam as mesmas roupas – camisas listradas

preto e branco, calças pretas e seus corpos

tinham o mesmo formato.

- Que brincadeira é essa?

- Que brincadeira? Quer mais café?

Sabia que era ela pela voz e pelo avental.

Resolvi sair para não brigar logo cedo.

Coisas iguais não são sempre as mesmas,

engana-se quem acredita na rotina.

Na rua, as mesmas máscaras brancas de

largo sorriso estático, nariz pontudo, roupas iguais

e corpos iguais dizendo:

“Estou muito gorda”, “Se fosse mais alto”, “Quero ser rico…”

No trabalho também:

- Ei! Estou procurando o fulano. Você o viu?

- Estou aqui, está louca?

Suas vozes e detalhes me davam pistas de quem

poderiam ser, como o relógio que outra pessoa ali perto

não tinha, o celular que outra pessoa ali perto

não tinha, uma jaqueta que vi num filme pendurada

na cadeira, que dificilmente alguém teria em kilometros.

Será que eu estava no país certo?

Entrei numa loja de eletrônicos,

quem sabe não descobriria pela tv?

Mas todos os canais e em toda mídia

as mesmas coisas:

Da beleza aristocrática obrigatória,

Da riqueza bilionária obrigatória,

Do sexo com o maior número de

pessoas obrigatório.

Do sorriso, mesmo que falso, obrigatório.

Pensei que obrigatório e lavagem cerebral

eram coisa de ditaduras socialistas e comunistas.

- Capitalismo.

Uma máscara-intelectual de óculos riu e disse:

- Não! O capitalismo acabou faz tempo, vivemos na era do Felicismo, não pude deixar de notar que disse essa palavra morta. De que século você é?

Deixei de amar com medo de aprisionar

minha alma dentro de uma máscara,

mas numa ditadura, quem não segue as

regras é subversivo.

Tentei arrancar a máscara de algúem na rua,

não saia! Parecia parte de sua pele.

Corri com medo de arranjar confusão.

Corri, corri… cheguei em casa e

fui me olhar no espelho.

Senti medo de ser máscara e vi que

ainda era o que sempre fui.

Me senti sozinha.

Me senti sozinha na multidão de máscaras

sempre sorridentes, sempre iguais e eu diferente.

Procurei na Internet essa máscara.

Será que alguma loja a venderia?

Achei que deveria usar, mas só encontrei

Nietzsche, Baudrillard e Buda.

Às vezes havia manchas de tinta em meu rosto.

Tentava lavar, mas não saiam.

Desapareciam quando me sentia em paz.

Raramente algumas tinham apenas

um pedaço da máscara.

Os animais não tinham, um cachorro

era sempre um cachorro, nada mais.

Me deu vontade de ser cachorro de rua.

As máscaras sempre traziam um objeto novo

que achavam que as fariam diferentes e

ao mesmo tempo aceitas.

Antigos objetos desapareciam ou eram

guardados para que pudessem contar

alguma história com “Na minha época…”

ou “Esse foi o primeiro…”

Suas histórias contadas pelos objetos,

os mesmos que muitas têm.

Os mesmos objetos novos repetidos

em corpos iguais com as mesmas plásticas,

confundi uma mulher-máscara com um

travesti-máscara.

Quando não tinham os objetos, se frustravam,

ficavam violentas e se deformavam,

mas com ou sem eles, continuavam a ser

máscaras deformadas.

Algumas acumulavam conhecimento.

Era o único objeto gratuito que nunca

envelhecia e era sempre respeitado.

Sabedoria era tão raro quanto alguém sem máscara.

Algumas máscaras eram mais do mesmo:

bebiam, falavam, se mostravam,

faziam loucuras demais.

Nada novo, apenas o que a humanidade

faz há muito tempo.

Até os ditadores e governantes

usavam máscaras iguais as do povo,

a diferença é que tinham os objetos do poder

em grande escala – as armas e os soldados.

Achei que estava doente, fui ao médico que disse:

- O problema é você que sente demais,

você é quem tem defeito.

Neste sonho, anormal é não ter máscara,

mas é apenas um sonho, que bom!

Ainda bem que acordei, vou descer as escadas,

o pão na chapa e café com leite me esperam.

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