Feliz Aniversário – a morte nossa de cada dia nos dai hoje

Morre-se aos poucos. Por que haveria pressa, se não há um prazo oficial? Mas a certeza da morte deveria estar presente em cada acordar, em cada adormecer, em cada aniversariar. A cada dedicatória de parabéns, morre-se um pouco mais. Não pelo gesto em si, mas pelo tempo que ele consome e pelo que significa: ter menos um ano de vida.

Morre-se tanto e vive-se tão pouco que, ao olhar em volta, custa acreditar que o que está ali é uma opção e não uma obrigação. Impôs-se um preço alto demais pelo viver, pela liberdade. E reclama-se da falta de tempo, da falta de vida. A lógica perversa de um sistema autoimposto.

A morte chegará em breve. Não importa se é secular a distância pela qual ela está afastada hoje. Ao ser tomada – sempre de assalto –, sua vítima terá a certeza de que foi curta a vida e que, se houvesse ainda mais tempo, faria tanto mais. Será tarde e, certamente, quem isso pensar há que ter vivido sem a perspectiva da certeza do perecimento em mente a cada dia. Quem opta por viver com esse fantasma vive uma vida desesperada, intensa, mas vive. Aos demais o drama do extinguir-se lentamente. A espera do inexorável fim.

Ninguém quer morrer. A doce exceção dos suicidas, que se tornaram detentores do próprio tempo, da própria vida. Senhores do próprio momento do apagar das luzes, da hora de sair de cena. Aos outros cabe respeitar e buscar entender a decisão. É impossível viver a vida do outro, vestir seus sapatos justos. Qualquer julgamento é hipócrita, destemperado e vil.

Entre os que não querem morrer, o principal motivo é um tal amor à vida que não se vê na prática. Um amor à vida que não se vive. Amar a vida é não ignorar a passagem do tempo. Envolve-se tanto em pormenores mundanos secundários que a areia fina do real valor escorre entre os dedos frágeis. Sob os pés o rio de correnteza bravia e acelerada que leva a areia que nunca voltará.

Se viver é morrer, o que fazer? Aceitar a morte. Aceitar o óbvio. E viver. Viver como se a morte fosse chegar no próximo dia, na próxima hora, no próximo segundo. Viver uma vida visceral, frugal, imperfeita na forma e perfeita no sentido. Uma vida com significado, com significância. Uma vida de dor, de amor, de desejo, de paixão, de entrega, intensa. Uma vida de abandono do que não vale, do que não faz sentir plenitude, do que não interessa, do que não traz respeito. Uma vida digna. Uma vida que faz bem, que respeita o outro e que o completa. Que completa todos os outros. Uma vida que significa em si e por si. Uma vida viva.

E que a morte chegue lépida como o esperado. Que chegue certeira. Que leve um corpo exausto e pleno. Um corpo que viveu intensamente. Um corpo verdadeiramente vivo.

Que a morte venha e acabe com uma vida que valeu a pena ter sido vivida.

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