Minha biografia não autorizada – Não Sei o Que Fazer Comigo

Engraçado como a vida é curiosa. Meu aniversário é sempre um tempo difícil para mim. Só melhorou (um pouco) depois que escrevi o texto “Feliz Aniversário – a morte nossa de cada dia nos dai hoje” (que recomendo a leitura, sendo ou não seu aniversário, pois fala sobre a vida e sobre a onipresente sombra da morte).

Mas o ponto hoje é outro. É o acontecimento dessa versão que a banda Vespas Mandarinas produziu da música Ya No Sé Qué Hacer Conmigo da banda Uruguai El Cuarteto de Nos. Se eu decidisse resumir a minha biografia em alguns poucos parágrafos, não sairia algo muito diferente. Tanto que resolvi remendar a letra da música aqui. Escrever é um ato sempre biográfico (e nunca, ao mesmo tempo, pois autobiografias são versões e nunca relatos de fatos, além do que, sem olhar sobre o mundo é impessoalmente pessoal, mas isso é outra discussão que pretendo discorrer sobre no futuro).

Ah, vale a pena observar que, na verdade, trata-se mais de uma autópsia do que uma biografia. Mostra mais quem eu sou do que o que eu fiz. Isso é o que me interessa mais nas pessoas; não seria diferente comigo mesmo.

Não Sei o Que Fazer Comigo*

(*inversão do diretor: letra da música em preto, meus comentários em azul | autor: Roberto Musso | versão: Chuck Hipolitho e Thadeu Meneghini)

Já tive que ir à missa obrigado (somo os casamentos a essa provação boçal), já tentei ser um homem casado (estou na quarta tentativa e obtendo sucesso, ao que parece, graças aos esforços de ambos – e só)

Já aprendi a fingir meu sorriso (por que que a gente é assim?), já fui sincero (me trouxe mais indisposições do que felicidade, mas sigo tentando) e já tive juízo (é preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte)

Já troquei de lugar minha cama (de casa 12 vezes nos últimos 11 anos), já fiz comédia (palhaço profissional?), eu já fiz drama (melodramático profissional, mas pensar deprime, porém escrever é uma provação com alguns espasmos reidratantes de redenção)

Já ouvi cada voz que me chama (e são muitas – espero que pra todos), eu já fui bom (meu compromisso é tentar ser sempre; não dá o tempo todo, mas é uma contribuição responsável para um mundo melhor para todos – isso não se baseia em pensar coletivamente; é consequência de ser egoísta nato – vejo no bem estar geral a chance de viver individualmente da melhor forma possível) e já tive má fama (aqui um sonoro foda-se; não ligo mesmo)

Já fui ético (não acredito em ética individual; ética é um combinado social), antipático (sempre), fui poético (sempre), fui fanático (sempre, faz parte de ser passional no que admiro)

Fui apático (tarja preta serve pra que, afinal?), fui metódico (oito ou oitenta), sem vergonha (réu confesso), fui caótico (sempre – vidinha é pra quem ainda não entendeu que felicidade é o caminho e que a morte é o único final existente. Tenho pena de quem não se entrega à vida)

Eu já li Paulo Coelho (tentei, não me envergonho, não consegui, mas respeito quem conseguiu ser traduzido para mais de 65 idiomas – independente da mensagem que leva – é universal ao que parece e ainda acho que faz menos mal que a bíblia), eu já escutei tudo que era conselho (agradeço e ignoro, a maior parte do tempo, mas no fundo ouço)

Eu já preguei o evangelho (me curei), cheguei a achar que eu era velho (meu 29º ano foi simplesmente infernal; eu achava que a vida acabava aos 30 – agora entendo que a vida acaba um pouco a cada segundo e que o agora é a única coisa realmente importante. Baseio minha decisões de médio e longo prazo em um modelo que me permite desfrutar o curto e curtíssimos prazos intensamente. Se o acaso resolver me desligar, quem ficar vai saber que não fui embora queixoso)

Já fiz tanta coisa que nem me lembro do que eu era contra ou fui a favor (aceito mudar de ideia, aceito que mudem de ideia; me reservo ao direito de cair de pau e de retrucar)

O que me dava prazer, hoje só me dá dor (as coisas mudam, a busca do prazer não)

Nunca aprendi o que é o amor (outro dia li que “estar apaixonado é um estado e amar é um ato. Sofre-se um estado, mas decide-se um ato.” Penso que o amor é uma energia que transita e não uma matéria que amalgame.)

 

E ouvi uma voz, que diz: "não há razão" (e não haverá…)

Você sempre mudando já, não muda mais (se a mutação é regra, o mutante está banalizado, talvez se acorrentar a um determinado estado seja interessante… em andamento; esperemos…)

E já que estou cada vez mais igual (e mais velho, mais vivo e, ao mesmo tempo, mais morto)

Não sei o que fazer comigo (e quem sabe o que fazer consigo?)

Já chorei de tanta mágoa (passa, mas algumas pessoas, felizmente, também), já fiz tempestade em copo d’água (é impossível saber na hora)

Já tentei a sorte na gringa (ainda não, mas…), já aprendi que não tenho ginga (certeza, o que não me impede de dançar ridiculamente e sem vergonha a qualquer tempo)

Eu já votei em tucano (nem fudendo; o futuro da política é incerto, mas não vejo isso acontecendo), já fui ovo lacto vegetariano (eu tenho uma certa crença que nossa espécie subjugou as demais com o cérebro e pelo consumo de proteína animal; no entanto, a cada dia penso mais em como a indústria da alimentação é filha da puta com os bichos; comida kosher pode ser um caminho, mas não me sinto tão judeu ainda)

Insano, já fui santo e profano (sem comentários)

Fiz na sua frente e por baixo dos pano (infelizmente…)

Já estudei teologia e não creio mais naquilo em que cria (libertas quæ sera tamen)

Já sofri de claustrofobia (tem melhorado), de teimosia (tem piorado) e cleptomania (ainda não)

Já provei, já fumei, já tomei, já deixei, assinei, viajei, já peguei

Já sofri, já iludi, já fugi, já assumi, fui e voltei, afirmei e menti (não posso abdicar de tentar todos os verbos que meu idioma tão belo e complexo me propicia)

E com toda essa falsidade, minhas mentiras já são verdades (basta repetir – a humanidade caminha assim há tanto tempo…)

Já tive de tudo o que queria, e já me contentei com mixaria (eu tenho tudo que eu quero; muito ou pouco está na ótica de quem avalia. Muitos veem como mixaria algo que me vale tanto…)

 

E ouvi uma voz, que diz: "não há razão"

Você sempre mudando já, não muda mais

E já que estou cada vez mais igual

Não sei o que fazer comigo (duvido que você tenha descoberto nesse meio tempo)

 

Já fui em cana (quase – de verdade), já tive grana (sim e não), passei rasteira em muito bacana (trabalhar para uma empresa grande é mais ou menos isso – no fundo o sistema multiplica o que me dá de esmola, mas não posso reclamar do meu quinhão)

Opinei e me equivoquei (sempre), nunca assumi pra ninguém que errei (não aprendi a me esconder dos meus erros – às vezes até deveria, mas não sou assim)

Sem diploma (aprendi mais na escola da vida, mas não cuspo nessa pseudo-conquista), nem salário (já vivi esse momento doloroso), já fui sócio majoritário (só da minha vida)

Já escrevi tanto nome no braço (ainda não, contudo, escrevi muitos nomes na minha história e escrevi o meu em algumas tantas), eu já preenchi tudo que era espaço (literal?)

Fui psicólogo (vindo do meu berço, não dá pra não ser), fui astrólogo (tão estúpido nesse tempo), já fui leigo (ainda sou em praticamente tudo), fui enólogo (diz que entende)

 Fui alcoólatra (sou), fui atleta (ameaço ser, às vezes), fui obeso (estou) e já fiz dieta (só a privação alimentar me atrai; quer fazer faz direito, porra)

 Já cuspi e mandei pro caralho, o lugar onde hoje eu trabalho (é, né…)

 E agora eu só me distraio fazendo versão de rock uruguaio (fizeram por mim e agradeço às Vespas Mandarinas porque eu não conhecia a música)

 

E ouvi uma voz, que diz: "não há razão"

Você sempre mudando já, não muda mais

E já que estou cada vez mais igual

Não sei o que fazer comigo (nem você)

E ouvi uma voz, que diz: "não há razão"

Você sempre mudando já, não muda mais

E já que estou cada vez mais igual

Não sei o que fazer comigo

(sou apenas um camaleão, cismado com um determinado tom de cor, que se move numa velocidade que se assimila às imagens de pneus de carro em movimento: muito rápidos, mas parecem parados – ou o contrário, a saber!)

 

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