O rio e o fio da navalha

Queria navegar manso. Acontece às vezes. Na verdade, queria mesmo gostar de navegar em águas de tranquilidade. Quando há uma maldita bifurcação, escolho instintivamente corredeiras. Para me arrepender depois, é claro. Foda-se no fim; decisão é decisão e que venha uma calmaria posterior – só para aliviar. E que passe rápido, contudo.

Passará. Os afluentes garantem que nenhuma calmaria se prolongue além do necessário – e, às vezes, sequer dá tempo de descansar. Quantas surpresas nos trazem esses crupiês corruptos e malditos. Agitadores de quinta categoria. Mas o que seria dessa jornada sem eles? Seria uma vida finlandesa tendente a um extermínio suicida. E não se trata de receber sempre alegrias, dádivas e felicidade. Trata-se de dar a transparência devida à vida que existe ali. Coisas boas, coisas ruins, águas que sequer se misturam com as atuais feito azeite e água.

Cruzeiro. Palavra apavorante. Chata em sua essência. Enfadonha. Bonança é para os monges. Eles fizeram essa opção. Não adianta mergulhar na babilônia e querer sentir um bucolismo gentil a cada manhã. Salve caos, estou aqui. Sempre estive. Desculpe-me se às vezes embarco nessas canoas que cruzam lagos serenos desprovidos de acesso ao doce e cruel oceano.

É preciso cruzar rápido sentido maremoto. A espiral de fim inexorável nos chama. Nos clama. O vento faz as gotas d’água que emanam ao cruzar acelerado do barco cortarem a face feito lâminas afiadas. A visão é embaçada pela turbulência. Sou ludibriado por manchas que teimam formar imagens e rumo ao mesmo sentido de sempre, por mais que insista em acreditar estar indo no sentido oposto.

Pena que tão curta é a vida. Nunca se chegará ao olho desse buraco negro tão atrativo. Vive-se o caminho, a estrada, o rio. E no apagar das luzes, quando o ser transforma-se apenas em história e nada mais, o barco ficará circulando pelo rio por mais algum tempo causando ainda algumas poucas alegrias e abundantes transtornos. O desaparecimento da memória é o naufrágio lento da embarcação vazia e, naquele momento, etérea.

Portanto, já que se está a bordo, que o rio chacoalhe mesmo. Intensamente. Mas que traga, às vezes, uma rota mais calma que permita um breve momento de respiração e preparação para mais turbulência. Um instante para que o cabedal de eventos alojado na mente se estabeleça e crie mais capacidade de navegar sobre ondas cada vez maiores. Que venham mais reviravoltas, rotas contracorrente breves e involuntárias e uma infernal e deliciosa trajetória sentido fim – o caos ou a paz que nunca se conhecerá.

Gosto da sensação do sangue se esvaindo dos meus pés ao caminhar descalço pelo fio dessa navalha sem fim, que costumam chamar de vida.

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