Quando eu deixei de ser eu?

Aldo tem uma nova identidade. Não é a primeira vez. Aldo é um mutante. A razão é incerta. Na verdade, não existe uma só razão ou uma razão só para nenhuma de suas mudanças.

Aldo abandonou seu nome. Clodoaldo no dia do nascimento. Aldo agora. Ele não sabe quando isso mudou. Não foi de caso pensado.

O espelho retribui de forma misteriosamente estranha àquele olhar inquisidor de Aldo naquele sábado de outono. Nada de folhas pelo chão lá fora. Mas é outono, o calendário insiste em dizer. Nos trópicos, uma estação infeliz, sem identidade. Aldo se esforça para encontrar naquele espelho o que ele quer crer que é, dessa vez, o verdadeiro Aldo.

Algo lhe diz que é sim. Depois de mais uma mutação, enfim ele está lá – supostamente. Depois de abandonar tudo. Contudo falta algo àquela figura meio perplexa refletida à sua frente. Aquela carcaça cansada e querendo parecer feliz e tranquilo não é sincera. Pelo menos não completamente.

Isso. Finalmente Aldo começa a entender o que se passa. Aquele é, sim, o Aldo. Sem as milhares de máscaras e carapuças que usara nessa existência. Mas se encontra nu e apavorado. Pela primeira vez, ao que se lembra. Porque a última vez sucumbiu a algum novo Aldo qualquer. Sucumbiu ao titã forte e resiliente que nunca se entregava ou fragilizava.

Frágil. A palavra mitificada e abominada por Aldo está ali à sua frente. Uma imagem fantasmagórica de uma surrealidade impar o encara audaz. Um caminho sem volta rumo ao medo conduziu Aldo àquele momento.

“Quando foi que eu deixei de ser eu?”, pensa aterrorizado. “E se sou eu, quando foi que desci à sarjeta. Quando foi que me deixei conduzir e me humilhar?”, ralha contra si mesmo.

“Sou eu de fato e eu odeio ter me descoberto”, conclui. “Mas esse eu parece ter um futuro tão incrível… Ou estou ao passo de construir a minha história, o meu futuro sobre um castelo de cartas.”

(…)

O amor é meu. O amor é sempre de um. Se o acaso faz esse amor esbarrar com um outro em sentido inverso é bom aproveitar a sorte. Às vezes não dá. O amor não é menos amor por isso.

(…)

Aldo pensa em tantas coisas nesse momento. Sentimentos misturados. Uma cabeça embaralhada. Uma prisão em si mesmo. Amor. Abandono. Paixão. Ódio. Tesão. Desprezo. Ficar. Partir. Continuar. Vingança.

Mas Aldo dialoga nesse momento com ilusões. Conjecturas pobres de suporte. Qualquer ação será baseada em evidências quaisquer que podem ser certas tanto quanto outras contrárias. Ou simplesmente em fatos concretamente vazios. Verdades infundadas. Medo do amor de mão única mesmo tendo Aldo certeza de que esse amor é o único que existe.

Aldo quer sofrer como sempre fez em qualquer tempo. Com qualquer máscara. Com qualquer carapuça. Aldo quer a paz que a mentira sempre lhe trouxe. Aldo sente falta de não ser. De não estar. De não ser de ninguém pra sempre, mesmo que pra sempre seja muito tempo. O tempo passa, ele bem sabe.

(…)

Dores se tornam meras cicatrizes. Às cicatrizes acostuma-se. Às vezes, é possível mesmo esquecer. Mas apenas se há querer. Elas podem durar para sempre. O futuro depende de libertação. E a relação com as cicatrizes fala muito sobre isso.

(…)

Aldo sempre esteve com a arma na mão. Sempre foi o franco-atirador. Sempre deu o primeiro soco. Alguém lhe ensinou que isso definia o vencedor da batalha.

Agora ele sangra inteiro. Está à deriva. Está insensatamente e estranhamente feliz. Está com todas as fichas sobre a mesa e acaba de empurra-las à frente. Combate o medo com coragem. Treme por inteiro. Treme por dentro. Continua tentando parecer bem. Parecer resistir. Parecer aguentar. Parecer parecer. E parece, claro. É bom nisso.

Não estar no controle é uma agrura. Pesadelo. Sem fim, já que não está adormecido. “Onde está o maldito botão para desligar essa porra toda?”, ele clama. Aos ventos, é claro – ele não crê em ajuda divina. Só crê na própria capacidade de lutar. E em alguns poucos que podem lhe dizer o que parecem a eles o universo contado por ele. Mas nada o influencia. Infelizmente ele optou por ser o senhor do seu destino. Nos erros e nos acertos, ele é o único responsável. Nada de acusar. Nada de apontar. Lamentar, às vezes. A desistir ainda não se deu o direito, mas quem sabe é chegada a hora.

Se ele soubesse a decisão já estaria tomada, mas é um quebra-cabeça que tem peças espalhadas pelo mundo. Aldo tem algumas. Ela tem outras. O pequeno mais algumas. E ainda há outros agentes por aí, com algumas pequenas partes.

Esse quebra-cabeça é virtual, contudo. As peças têm que ser imaginadas juntas. Elas nunca de fato se reunirão. Residirão onde estão. Se influenciarão. E só. Pior. As peças e os encaixes mudam com o tempo. E nesse conjunto desenhado no cérebro acelerado e quimicamente modificado é que se delineiam as portas que Aldo precisa abrir. Algumas lhe permitem voltar e escolher outro rumo. Outras o absorvem. E ele tem que viver no novo mundo até que mais peças formem uma nova imagem e surjam mais portas a abrir. Nunca serão as mesmas.

Aldo olha mais uma vez para o espelho. Esboça um riso fraco apenas com os lábios. Vai dormir. Amanhã deve ser outro dia de amor, abandono, paixão, ódio, tesão, desprezo, ficar, partir, continuar, vingança e muitos outros sentimentos e momentos. Tudo contido em algumas horas. Saber que esse e o seguinte devem ser mais do mesmo desenha mais linhas de cansaço naquela carcaça quase vencida. Mas, por enquanto, ele prossegue.

Não é herói. É mais um cara como qualquer outro. Só pensa demais. Não devia mas é sua natureza. Instinto que traz dor. Odeia o piloto automático, mas apesar de estar sentado na cadeira do comandante, abre mão de tocar no painel de controle.

(…)

Tomar as rédeas do próprio destino. Fácil escrever. Fácil quando se trata de abandonar algo volátil e invisível como deus. O desafio é abandonar a vida. Onde reside o desapego? Só ele salva. Por isso se esconde tanto, mesmo de quem acha que o encontrou.

(…)

Aldo dá o último suspiro do dia. Amanhã talvez resolva abandonar tudo. Ou apenas gritar e ver no que dá. Ou caminhar um pouco mais à espera.

“Que venham os leões do dia. Não dá para evita-los mesmo e, além do mais, ainda não decidi arrebentar meus próprios miolos.”, é seu penúltimo pensamento antes de se aninhar à razão atual de todo esse desvario. Dessa sensação de inercia. Desse delírio constipante. “O tempo já me ajudou. O tempo já me atrapalhou. Mas, não posso negar, o momento sempre chega. Quem sabe não é amanhã?” Dorme.

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2 Comentários

  • Maria Jussara escreveu:

    Espelho, espelho meu, quando eu deixei de ser eu? E só olhando nossa imagem no espelho é que temos a nossa verdadeira face.

  • Thallys Gomes escreveu:

    Assim como a maioria dos que leram esse texto, creio, me identifiquei em cada palavra. E quem é tolo o suficiente pra negar suas máscaras?

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