Vida e morte em cores

Meus olhos vermelhos
contemplam enquanto
meu corpo se entrega à relva verde
e orvalhada da manhã.

A névoa gélida e branca faz o céu
desaparecer; seu azul sofista
não surge, penso na verdadeira
escuridão,
a escuridão absoluta do infinito.

O que há de luzes são lampejos,
quase nada frente ao todo negro.
Cores, cores, quimeras tão doces.

Continuo lá.
Meu corpo aos poucos
se aquece enquanto os segundos
avançam manhã adentro.

Minhas pupilas absorvem o mundo.
Fecho os olhos.
Meras sombras me restam.
Me comovo pela maldição da cegueira,
mesmo a do daltonismo.

As cores são uma brutal mentira
mas agradam meu cérebro pueril.

Cravo unhas e dedos no solo,
puxo a terra marrom, que vejo ao
erguer as mãos aos céus.
Abro os dedos; a terra me inunda
a face. Passo as mãos pelo
meu peito nu.
Desenho caminhos sujos pela minha
pele nascida amarela, agora ardida,
levemente avermelhada.

Choro.
A lágrima é incolor.
A sensação é turva.
O remorso é vermelho.
O que eu fiz é vermelho.
O sangue era vermelho.
A lua era dourada; aqueles
clarões que vi daquela luz
incessante me acompanham.

O que eu fiz?

Eu sei o que eu fiz.

Ela não está mais entre nós.
Seu vestido azul tão cintilante,
a lua, as palavras duras.

Qual é a cor da traição? Qual é
a cor da confissão? Qual é a
cor da verdade?

Só me lembro da prata, a prata da lâmina
daquela maldita faca amolada.
Nada de fé cega, mas o fio
era perfeito ao desenhar uma
linha rubra naquele pescoço onde
tantas vezes me aconcheguei
e dormi. Aquele pescoço
que sempre me seduziu pelo simples
fato de existir, que exalava
aquela aroma cítrico e amadeirado,
que tanto me remetia à vida
e suas alegrias. Lá desenhei
aquela linha de sangue que à morte
a levou, que trouxe a morte a mim
para sempre, como cicatriz eterna,
memória vermelha.

O vermelho arroxeando-se enquanto
cobria o azul daquele cintilante
e fascinante vestido.

Olhos vermelhos.
Meus olhos.
Lágrimas que me turvam o mundo,
esse mundo pálido sem ela.

Palavras tão duras.
A taça de Merlot
desenhou uma gravura surreal
ao explodir contra a parede.
Vi naquela mancha um universo
abstrato; toda minha vida.
Naquela mancha púrpura, naquela
parede outrora de um branco tão
morto, tão pálido.

Dizem que a paz é branca.
Branca é a solidão.
Vazia é a vida sem ela.
Branca.

Branca era ela,
agora é história.

Pele tão alva, ser tão altivo,
alma tão colorida.
Agora é uma massa inerte
envolta por um cintilante
vestido criado azul, agora roxo; envolta
em sangue… tão vermelho,
tão vivo; agora o vivo vermelho
significa morte.

O que resta?

Memórias e a gélida neblina
que encobre o céu e cobre
meu corpo nu.
Nu apenas de vestes.
Revestido de rancores; arrependimentos
talvez.

Aquele maldito jardim de orquídeas,
onde tantas vezes existiu amor e
prazer, se tornou
uma imagem fixa.
Correndo, arrancando a camisa amarela,
a calça preta desbotada.
Cada orquídea me encarava, julgava
e condenava.

“Assassino”, gritava a rósea.
“Assassino”, suspirava a branca coberta
de manchas verdes.
“Assassino”, pensava a delicada azul ao me
fitar firmemente;.

Lá eu parei.
A lua iluminava todo o maldito
jardim, cada orquídea gritava
“assassino”; num uníssono, enfim.
A multidão de flores agora órfãs chorava.
Sua cuidadora e amiga estava morta,
assim como minhas mãos
estavam sujas.

Gotas vermelhas cobriam qualquer
visão que eu pudesse ter.

Me livrei do olhar das flores e me
virei para a lua mais uma vez.
De sua face dourada brotavam
gotas roxas, sangrentas.
Belo quadro, triste história.

Caio na grama
vivo.

Cores turvas, indefiníveis.
Mãos vermelhas.
Alma vermelha.
Amor vermelho.
Ódio vermelho se espalhando pelo
azul e cintilante vestido.
Vida branca.
Vida vazia.

Ela morta, eu vivo.
Alma dela viva. Minh’alma morta.

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