A esperança é o míssil

Do outro lado da tela, o sorriso
Desse lado, a esperança. E o medo.
Não há vontade de fugir, contudo.

Eu sou um soldado antes de tudo.
Sobretudo.
A arma repousa solene.
Minha herança é meu exemplo.
Mesmo irracional.
Mesmo travestida de decência e coragem.
Mesmo que justificada; há um demônio no poder.

Hoje Alá é negro.
Hoje Alá é americano.
Hoje Meca fica no ocidente.

Vou me ajoelhar e pedir pela chuva.
Pela chuva de meteoros do bem.
Pela chuva de mísseis.
Tenho cinco orações, ao menos.
À Meca.

À merda!

Estamos nela até o queixo.
Mas estamos olhando para cima.
E com o nariz entupido
por fragrâncias artificiais feitar para distrair
e não sentirmos nosso lento submergir
nesse mar de estrume que tratamos por adubo!

O descaso e o autoengodo nos cegam.

A Síria também é aqui todos os dias.
Damasco é nossa doce capital
aqui mesmo, no planalto central,
onde solenes terroristas desarmados
nos vilipendiam sem piedade.

Não são armas químicas.
É pior:
a manutenção proposital do estado
total e absoluto de ignorância.

Lá, o caos é mais sentido,
pois se morre de fato
entre tiros e bombardeios.
Aqui, o caos é o cotidiano,
pois se vive de fato
entre a apatia e a ignorância.

A esperança da prece que invoca os mísseis
naquele oriente tão longínquo e,
ao mesmo tempo, presente
é a nossa ao perceber que apesar da paralisia,
da afasia, da estupidez e da hipocrisia,
o pulso ainda pulsa.

Que a chuva caia no oriente.
Que a chuva traga alívio imediato.

Que um tufão se forme em nossas bandas.
Mas que, por aqui sejamos nós,
expulsando o tumor humano
que há centenas de anos
vêm se alimentando de nosso suor.

  


Inspirado na foto de Mohamed Abdullah © 2013 Reuters

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6 Comentários

  • Dito dessa forma é que conseguimos visualizar as realidades se misturando e se tornando uma só. É a pergunta que se faz sempre é: porque estamos aqui? Para assistir de camarote essas coisas acontecendo sem poder fazer nada. A matéria se misturando a religião e destruindo tudo ao seu redor. A religião se misturando a matéria e destruindo tudo ao seu redor. É triste e vã a realidade.

  • Carlos Araujo escreveu:

    Não devemos esquecer isto:
    1- “O meu povo foi para o cativeiro por falta de Conhecimento”
    2- “porquanto o Senhor dos exércitos os tem abençoado, dizendo: Bem-aventurado seja o Egito, meu povo, e a Assíria, obra de minhas mãos, e Israel, minha herança.”

    São os velhos nojentos e gananciosos de dinheiro e fama, além do poder pessoal sobre seus irmãos… que incentivam às guerras (porque os traficantes de armas, lhes pagam fortunas… nesse negócio da guerra) !
    O povo não tem culpa de ser enganado !
    Mas já tem culpa… de ser ignorante !

  • Maria Flores escreveu:

    Boa noite Hary Oliveira!

    Estou sempre por aqui namorando seu blog, adoro todas as postagens. Você escreve como ninguém! parabéns de verdade!
    Tenho compartilhado alguns textos seus no facebook,e todos os amigos me perguntam quem é você…desejam saber se possui algum livro…enfim…Sorte sempre!! Beijos
    Ah! você já publicou algum livro? Se já, qual o nome?

  • maria helena de souza escreveu:

    Povo religioso é um povo alienado.Povo sem letra é um povo abandonado,que vive a merce dos espertalhões.

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