Folhas secas

© 2012 Bismilla. Foto: Bismilla

Folhas secas

Não me sentei.

Foi apenas contemplação.

A natureza e sua complicada singeleza.

Nossa pequenez e sua inventada complicação.

Contraste.

Somos esse tanto enorme de um monte de nada.

Acreditamos que somos tudo. Se acreditamos, somos?

E como somos. Cromossomos e só.

Escritos fomos desde antes. Aquelas duas meia-células.

Cada uma com metade de nós. Hoje somos assim.

Escritos fomos como se numa folha em branco.

Uma folha seca.

Somos a folha em queda.

Da copa da arvore ao abandono sobre a terra.

Um segundo duraremos.

O segundo mais repleto de acontecimentos.

Olhamos para trás.

É possível ver tudo em uma fração.

Biografia no piscar dos olhos.

Solidão.

Após a intensa flanada, o frio da terra molhada.

Adeus.

A longa viagem foi bem rápida.

Acabou.

Nascemos vivos e opulentos verdes.

Morremos fúnebres e sombrios ocres.

Um desejo apenas.

Que esta folha muda guarde um tesouro.

Uma história intensa.

Penosa, feliz, aguda, grave.

Que essa secura seja função do tempo.

Que essa secura seja na carne.

A alma, ah, a alma!

Que essa transborde.

Mesmo nesse silêncio final.


(inspirado em “Shadows” © 2012 Bismilla com gentil cessão da fotógrafa)

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2 Comentários

  • “Nascemos vivos e opulentos verdes.
    Morremos funebres e sombrios ocres…”

    O sentimento de fenecer
    aos poucos toma conta de nosso soma,
    nossa alma e nosso olhar…
    Inexoravelmente, sem distinções.
    O que nos resta senão nossas intensas historias…?

    Linda poesia. Obrigado por tornar mais linda essa despretensiosa imagem. Bjus

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